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Lésbicas, Pornografia Gay e Slash
As várias faces do desejo feminino
por Vange Leonel
29/01/2003

Outro dia, numa roda de amigas bolachas, confessei que o único tipo de pornografia que me excitava, pelo menos visualmente, era pornografia gay masculina. Achei que minha declaração iria soar exótica, mas qual não foi a minha surpresa quando quatro amigas revelaram que sentiam o mesmo. Uma delas disse que sentia mais prazer assistindo a sexo gay porque os atores não podiam fingir um orgasmo, ao contrário das atrizes, e a performance ficava mais convincente. Uma outra disse que recorria aos filmes gays porque a pornografia lésbica que havia no mercado era feita para o público heterossexual masculino, com atrizes de unhas longas, em filmes que nunca mostravam uma penetração entre duas mulheres.

Mas e a pornografia feita por lésbicas, para lésbicas? Bem, esse tipo de filme ainda não ganhou o mercado e as produções são mais alternativas e difíceis de encontrar. O festival Mix Brasil mostrou um lesbian porn em sua última edição, mas uma outra amiga minha disse que não gostou da modalidade: “muita sapatona, muito S/M, muito pau de borracha, muita penetração a seco, pouco romance e pouco clitóris”. De fato, como compensação para décadas de pornografia lésbica de unhas compridas, os filmes de lésbicas para lésbicas adotaram o outro extremo, mostrando sapatonas com paus de silicone, comendo outras dykes como se fossem homens. Entre os dois extremos, não ficou nada no meio. Se não lhes apetecem unhas compridas ou sapatonas com dildos entre as pernas, o que as lésbicas querem? Talvez possamos achar a resposta na própria sexualidade da mulher, hétero ou homossexual.

Há cerca de dez anos atrás, foi publicado o estudo “Sex Diferences in Sexual Fantasy”, dos psicólogos evolutivos Donald Symons e Bruce J. Ellis, trabalho exaustivamente citado até hoje. Eles realizaram uma pesquisa entre estudantes de uma universidade da Califórnia sobre fantasias sexuais e chegaram à conclusão de que as mulheres se excitavam mais com romances eróticos e os homens com pornografia gráfica. Ou seja, as meninas se excitavam com palavras e os meninos com imagens.

A pesquisa de Symons e Ellis tem algumas falhas: o universo pesquisado, de estudantes, não reflete a opinião de homens e mulheres mais maduros, e há dez anos atrás não havia a variedade de pornografia para mulheres que temos hoje. Há ainda um importante aspecto que pode ter influenciado o resultado: as mulheres são mais tímidas na hora de consumir pornografia e isso restringe suas possibilidades de contato com sexo explícito. Nunca me esqueço um dia em que mostrei uma revista pornográfica gay alemã para um grupinho de sexagenárias e elas devoraram a revista, extasiando-se com os corpos sarados e os pênis eretos, enormes. Ou seja, as mulheres se excitam, sim, com imagens pornográficas.

A sexualidade feminina é tão complexa, que talvez seja idiotice tentar defini-la. O fenômeno do Slash, por exemplo, parece atestar essa complexidade. Surgido no final dos anos 70, Slashs são contos eróticos escritos, em sua grande maioria, por mulheres, sempre envolvendo um casal de homens, geralmente inspirados em personagens de TV. No início da febre slashiana, os casais preferidos eram Kirk/Spock, de Jornada nas Estrelas, e Starsky/Hucth, do seriado homônimo (a propósito, slash é o nome que se dá para a barra que separa pares de palavras). Mas não é só sexo que rola entre o casal de heróis: os personagens também se relacionam romanticamente. Muitas mulheres confessam que o aspecto mais excitante do Slash é a intensa camaradagem e comprometimento afetivo entre os dois homens protagonistas, muito mais que o sexo. Ou seja, o público feminino de Slashs gosta tanto do sexo explícito quanto do romance – entre homens!

A explicação freudiana clássica para as mulheres que gostam de sexo gay ou emulam a performance masculina é famosa: inveja do pênis. Mas, num mundo opressivamente patriarcal como o nosso, vamos combinar, nada mais natural que invejar aquilo que simboliza a supremacia do macho: o falo. O aspecto mais interessante desses fenômenos supracitados é que as mulheres não se contentam com essa opressão e a inveja do pênis é transformada, através da fantasia sexual, numa apropriação metafórica do falo. Ou seja, elas, ao se excitarem com dois homens transando, transformam esses homens em objetos sexuais, invertendo a ordem sexista milenar que colocou a mulher na posição de objeto a ser observado. E quando uma lésbica usa um pau de borracha para penetrar a companheira, supera a inveja do pênis fazendo uso do próprio, ainda que postiço. Ou seja: agora, as mulheres observam e usufruem, prerrogativas que antes eram exclusivas do macho.

Mas há, ainda, outras explicações para esses fenômenos. Sob o ponto de vista biológico, o prazer masculino, mais ativo, pode ser entendido pela ação dos hormônios no corpo da mulher. Os próprios Symons e Ellis, em sua pesquisa, descobriram que mulheres com altos níveis de testosterona no organismo pareciam se excitar mais com imagens pornográficas que com romances eróticos. Visto que todas as mulheres produzem testosterona, em diferentes quantidades, dependendo da fase da vida e do período do mês, podemos concluir que todas as mulheres são apreciadoras em potencial de pornografia gráfica.

Por fim, é preciso lembrar que nossa tradição cultural nunca estimulou as mulheres a tomarem posse de sua sexualidade e sempre trancou o desejo feminino a sete chaves. Agora que a caixa de Pandora foi aberta, é preciso ter a gentileza de aceitar o que sai de dentro dela: se lésbicas gostam de pornografia gay, se mulheres de toda espécie preferem erotismo em palavras, se mulheres heterossexuais adoram ler e escrever Slashs, se lésbicas se excitam com sexo bruto e se tudo isso se deve à testosterona que produzimos, tanto faz: o importante é que já estamos liberando e tomando posse de nossa libido. Quer coisa melhor?

 

 

 

 

 

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