Home
Fernanda Entrevista Marina Marina e Fernanda
Conheci Marina Lima - pessoalmente - dois anos atrás. Fiquei abobalhada. Estar ao lado de uma artista que permeia a minha vida desde a adolescência, que fez a trilha musical de muitos namoros, deixou-me ridícula e cantei para ela uma música dela (o que três uísques não fazem com uma pessoa?).
Passou quase um ano para nos reencontrarmos. Ela lembrava da cena e eu morrendo de ressaca moral. Marina havia lido o meu primeiro romance e eu logo a presenteei com o segundo. Antes de lançar o terceiro, enviei para ela a cópia do manuscrito. Ela gostou. Diz que gosta do meu trabalho. Eu fico, ainda, abobalhada. No entanto, venho conhecendo uma Marina menos musa e mais humana. Descobrindo uma amiga - conselheira ela já é há 20 anos, cantando para mim as suas experiências -, uma mulher que, como algumas, tem procurado a sua verdade, tentando viver a verdade. Trabalhando com disciplina, mostrando para as outras mulheres que estar bela é atemporal. Moderna. Serena e agitada. Enfim, verdadeira. Mas com humor. Porque ser pop é com ela mesmo.(Fernanda Young)

"... É comum que as pessoas idealizem os artistas, achando que suas vidas são tão interessantes quanto sua obra (...). Como é a Marina sem idealizações?"
Fernanda Young, 29 anos, escritora


"... Acho que, posando para a Playboy, vou (...)mostrar aos outros que, aos 43 anos, estou viva, bonita, vivendo uma espécie de apogeu da minha feminilidade"
Marina Lima, 43 anos, cantora e compositora



Fernanda Young - Qual é o dia do seu aniversário? Você instiga essa vontade de saber detalhes sobre a sua vida.

: Nasci no dia 17 de setembro de 1955.


Fernanda Young - Você tem uma continuidade qualitativa no seus trabalhos, que melhora, se sofistica a cada novo disco. Sempre que os escuto, gosto de folhear o encarte, reobservar as fotos, cantar com a letra na mão e, adoro, as citações e agradecimentos. Você escuta os seus discos?

: Escuto muito enquanto trabalho neles; a realização de um disco passa por etapas longas e meticulosas, requer uma atenção enorme. São meses e meses vivendo uma espécie de repetição auditiva. Então, quando dou por encerrado, preciso descansar deles. Me distanciar. Mas mesmo não ouvindo tanto, depois de prontos, sempre reconheço neles a minha assinatura, como um retrato do tempo em que foram feitos.


Fernanda Young - O chato de escrever é que você se expõe a todo mundo, e todo mundo acha que te conhece. E tem a insuportável pergunta: é autobiográfico? Eu tenho um repertório de respostas. Gostaria de ouvir uma sua.

: Sempre tem minha vida nas canções. É inevitável. Pois o que me leva a compor é justamente isso, um desejo de despir os disfarces. Para mim, canções são um pretexto para mostrar aonde, naquele momento, reside a minha força e fraqueza.


Fernanda Young - Pierrot é uma música com a qual eu me identifiquei muito. Tem uma característica romântica, mas ao mesmo tempo é uma explicação. Para mim, de um tempo em que fiquei anti-social. Há subtextos nas suas letras?

: Muitas vezes há. Outras são mais diretas. Em Pierrot, há até um subtexto musical, pois sendo essa canção um frevo, ao me apropriar desse gênero minha intenção era me apropriar do próprio Brasil. Compus Pierrot para dizer que o Brasil, com suas diferentes culturas e estilos, me emociona. Que as cidades brasileiras, tão próximas e tão distantes, também me pertencem. Mas para a gente possuir e usufruir dessa riqueza toda, não basta só que elas existam. É preciso que nossas atitudes estejam também à altura delas. Menos xenofobia interna, por exemplo.


Fernanda Young - Nós compusemos duas vezes juntas e eu pude assisti-la criando. Entendi um pouco da sua utilização do tempo. O tempo da música, o tempo em que o verso deve se transformar em música. O seu senso de peso e medida comandando o ritmo. Me conta mais sobre isso.

: Para mim, as melhores canções são aquelas em que o verso obedece a uma métrica já existente na melodia, ou seja, a música é que comanda a letra. Não tem jeito, sempre acho essas as melhores canções. É raro eu musicar um poema. A música é uma outra linguagem diferente da poesia, e ela induz a outros caminhos e soluções.


Fernanda Young - É comum que as pessoas idealizem os artistas, achando que suas vidas são tão interessantes quanto sua obra, ou que o autor está sempre inteligente e inspirado. O que, no meu caso, está longe de ser verdade. Como é a Marina sem idealizações?

: Mais ou menos como o seu caso (risos). É difícil corresponder a tantas expectativas. Quando componho ou me apresento ao vivo, é resultado de muitos ensaios, de uma busca do meu melhor para apresentar ao público. Agora, se eu tiver 24 horas num palco, ou se tiver que passar o dia todo conversando como se estivesse dando uma entrevista, é melhor me internar, porque eu vou cometer loucuras... (risos)


Fernanda Young - Você vai mesmo posar para a Playboy?

: Vou.


Fernanda Young - Por que agora? O que aconteceu em Marina para que, com 20 anos de carreira, conduzida com discrição e uma dose de timidez, resolvesse despir-se?

: Primeiro, sinto que isso seria bom para desatar um nó que tenho em relação a minha vaidade, a um exibicionismo natural que a minha cabeça critica. Acho que, posando para a Playboy, vou mexer com uma gama de emoções tão grande que me permitirá ter vários insights sobre essa dificuldade. Também vai ser importante mostrar aos outros que, aos 43 anos, estou viva, bonita, vivendo uma espécie de apogeu da minha feminilidade. Talvez, mostrando esse apogeu, fique mais fácil abrir mão dele depois, ao envelhecer. E claro, tem a grana.


Fernanda Young - O que você faz para manter esse corpão?

: Desde muito cedo cuido do corpo tanto quanto da cabeça. Sempre precisei dos dois. Ginástica, yoga, caminhadas, tudo isso ajuda. Levo uma vida muito saudável e disciplinada, com alimentação certa e horários certos. Acostumei a viver assim desde os 20 anos.


Fernanda Young - Você tem se apaixonado?

: Não. Não sou de me apaixonar muito. Quer dizer, eu me apaixono muito por uma mesma pessoa, é assim que funciono. Depois de um bom tempo sozinha, agora é que comecei a sair de novo, rever amigos, jantar fora.


Fernanda Young - Você é tão exigente afetivamente quanto é profissionalmente?

: Acho que sim, mas tenho repensado tudo isso, pois não tenho sido muito feliz afetivamente. É muito doloroso esperar dos outros o que eles não podem ou não querem dar. O que eu quero mesmo é aprender a aceitar os limites de quem eu amo, e me sentir aceita também com minhas falhas e dificuldades. Quem não erra, quem não precisa de compreensão?


Fernanda Young - As vacas produzem leite quando estão em descanso. O ócio é importante para a sua criação? O que você tem feito musicalmente? Eu sei que você gosta de estudar, e sei sobre o seu interesse pela música digital.

: O ócio é bom por um período curto, senão acostuma. O contato com a música digital me interessa, me traz recursos para compor e criar novos sons e arranjos. Eu gosto muito de estudar, me estimula, me ajuda a evoluir musicalmente e facilita a minha relação com os músicos.


Fernanda Young - Existe algum artista novo que lhe chame atenção?

: Na cena internacional tem algumas pessoas que curto muito. Há poucos anos surgiu uma cantora excepcional, a k.d. Lang. É um absurdo o que aquela mulher canta. A Alanis Morissette também é muito boa, faz um trabalho visceral, acho que ela injetou um sangue novo na cena rock. E também a nossa querida Madonna, cada vez mais bonita, sacudindo os pilares da caretice geral. No Brasil, gosto muito do Jota Quest, uma banda pop ótima, com um cantor excelente. A cena axé eu gosto...


Fernanda Young - Marina, seja honesta, você gosta de Jota Quest e axé music? Você não tem cara de quem escuta isso!

: (gargalhadas) Gosto... gosto sim.


Fernanda Young - Queria que você falasse sobre o que aconteceu com a sua voz...

: Perto de fazer 40 anos, tive uma grave crise existencial que acabou resultando numa depressão. Eu vinha de algumas perdas significativas, e, embora estivesse aparentemente bem (eu estava casada, amando), tinha muitas dúvidas a respeito do rumo que a minha vida teria dali por diante. Quarenta anos é uma idade decisiva para a mulher. Chegam questões fundamentais que precisam ser resolvidas com convicção, e eu não tinha nenhuma. Então fui ficando sem força, perdida, sem identidade e conseqüentemente perdi a voz. Minha voz sempre esteve sintonizada com minhas crenças e emoções. Sempre cantei aquilo que sentia e acreditava, e de repente, não sabia mais nada. Não tinha ar nem para falar. Foi um período muito difícil, constrangedor, pois sendo cantora, as pessoas me cobravam, não entendiam nada! Ora, se fosse um problema físico, era tão mais fácil, era só operar. Mas a questão era outra. Depressão não se opera. Foi duro.


Fernanda Young - E como você superou essa história toda?

: Da única maneira possível: indo até o fundo do poço. Com a ajuda de um grande psiquiatra, fui entrando em contato com aquela tristeza toda e, a partir disso, enfrentando o medo e as perdas que vieram depois... Aí, devagarinho, a voz começou a voltar. É como diz a mãe da Preta Gil, a Sandra: "No fundo do poço tem mola." Ela tem toda razão.


Fernanda Young - Que conclusões uma pessoa chega depois de passar por uma barra dessas?

: Percebi que não quero mais colocar a minha energia só no trabalho, só lidando com imagem, palco, compromissos profissionais... Foram anos fazendo isso. Não agüento. Tem todo um lado afetivo meu tão importante quanto a minha carreira. Me relacionar com os outros não como uma estrela, mas como uma mulher que quer compartilhar de uma vida a dois. Saber dividir tarefas, fora do palco também.


Fernanda Young - Eu entendo isso. Mas é difícil encontrar alguém que segure essa onda. Porque o artista não fica 24 horas no palco, mas tem uma cabeça que pensa demais, e por isso se esgota...

: É, mas é possível encontrar alguém que saiba lidar com isso, sem se sentir diminuído nem melindrado... Não são só os artistas que são complicados... Eu acredito no amor. Vejo a Fernanda Montenegro e o Fernando Torres, esse casal maravilhoso que já passou por barras e que permanece junto até hoje. Porque o amor falou mais alto.


Fernanda Young - E a música?

: Eu nunca vou parar com a música. Esse é o meu dom. É o que eu amo e sei fazer. Eu precisei de um tempo, mas vou voltar. Estou só juntando coisas boas para poder contar na volta.


Fernanda Young - Entrevistas sempre são duvidosas. Existe alguma pergunta que você sempre quis responder e ninguém perguntou?

: Você fez perguntas ótimas, não me ocorre mais nenhuma... Mas eu queria aproveitar esse encontro pra lhe fazer um convite: você toparia escrever alguma coisa sobre o ensaio da Playboy? Eu me sentiria tão bem acompanhada...


Fernanda Young - Nossa!! Claro. Só espero conseguir colocar a poesia certa na sua métrica.

: (risos) Você vai conseguir.
(Jornal do Brasil, 12 de Setembro de 1999 - Revista de Domingo)

Home