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a mais legal da turma

Todo mundo ia querer ter uma Marina na turma.
E não só pela voz que ela tem. São mil motivos,
mil histórias que você logo vai saber...
estrela

Passou um bom tempo desde o dia em que combinamos fazer essa entrevista. Acontece que entre os amigos de muitos anos o tempo toma outras proporções. Para quem é amigo recente, dois meses sem se ver é perder o contato. Para velhos amigos é "um dia desses" ou quase nada. Por outro lado, em poucas palavras nós detectamos tudo. Quase que só de olhar já dá para perceber como é que vão as coisas lá no íntimo. O resto são essas histórias. E são essas histórias que eu fui ouvir, interrompendo um ensaio em que estavam o Antônio Cícero, o Luiz Oscar (empresário), fora a equipe enorme que trabalhava freneticamnete para que você veja, qualquer dia desses, um show superbem-feito, como é aliás tudo o que vem assinado por Marina.    LEO JAIME

LEO - Para começar, você é meio fujona, não é?

: Por quê? Você diz que eu demorei para marcar essa conversa, não é? (Eu balancei a cabeça). Mas não é isso. É que eu sou meio arredia, eu não gosto de enrolação. Então quando é para falar eu quero falar tudo mesmo. Eu penso muito antes de dar uma entrevista. Eu penso muito antes de tudo (parou e pensou um pouco), eu penso muito o tempo todo. Eu acho importante saber como é que eu vou me mostrar. O que eu vou dizer. Eu também penso muito antes de fazer um disco.


LEO - Até porque as coisas que você diz podem estar sendo muito importantes para uma porção de gente... e como quando a gente está fazendo música e tem a sensação. principalmente quando se está fazendo a letra, de que tem umas 100 mil pessoas assistindo por trás do ombro.

: Ah. com música eu não sinto isso. Não. Eu fico super à vontade e totalmente envolvida no que eu estou fazendo. Quer dizer, eu sei que depois as pessoas vão ouvir. Vão ler aquilo e vão gostar ou não. Mas isso não muda nada na hora. Porque compor já e para mim uma coisa menos objetiva, é um dom que eu tenho, falar, não. E depois tem o lance de tempo. E tanta coisa para a gente fazer que sobra muito pouco tempo para cantar. compor, estudar, essas coisas... Você viu uma entrevista que a Laurie Anderson deu sobre isso?


LEO - Não.

: Bom, ela disse que desde que começou a fazer sucesso que não conseguiu mais arrumar tempo para compor. Então ela tinha arrumado um clone (uma réplica, ou sósia) para dividir as funções com ela. Dai que ela resolveu que o clone - que ia fazer as músicas, enquanto ela ficava dando entrevistas, fazendo fotos, essas coisas. (Eu devo ter ficado olhando para a cara dela feito uma anta e ela explicou). O engraçado é ela dar o miolinho, o mais importante para o clone fazer.


LEO - E você continua com as coisas que estava fazendo, os cursos, o grupo de estudos e tal? (Esse grupo se reúne para ler e discutir alguns livros, anote a idéia.)

: Mais ou menos. Eu continuo com a Vera (Maria do Canto e MelIo, nossa professora há muitos anos, virginiana como a Marina e a Paula Toller, duas de suas muitas alunas, queridíssima e linda). Com o grupo também, embora esteja parada agora por causa dos ensaios, mas guitarra eu parei... Ah, eu andei estudando inglês também.


LEO - Ué, mas você morou nos Estados Unidos.

: E, eu sei falar bem, mas se você não pratica seu inglês vai piorando, eu estudei mais para ficar praticando. A verdade é que eu gosto de estudar. Eu sinto falta de saber, eu queria saber mais sobre filosofia... Na verdade, eu queria ser psicanalista. Se tivesse feito vestibular, eu teria feito para cursar psiquiatria e naquela época era chato, tinha que fazer um curso de medicina primeiro.


LEO - Eu também sinto uma certa falta de ter ido à universidade - mais pela convivência, para a gente fazer amigos...

: Ah, eu não. Para mim, o importante era aprender, porque eu sempre achei escola um troço muito chato.


LEO - É, mas a escola só fica um negócio legal mesmo quando a gente chega na faculdade e encontra um pessoal que tem mais a ver com a gente. Daí saem grandes amizades. E você, quem era a Marina na turma da escola?

: Ah, eu era popular. Eu me dava bem com as pessoas e era respeitada também, porque sempre tive uma personalidade forte - era meio rebelde. Não esse tipo bagunceiro. Também não era do tipo militante, reclamona. Eu era uma garota que estava ligada em música. Meus ídolos eram rebeldes: Janis, Gal, Caetano. Eu tinha um namorado cabeludo, de moto, essas coisas.


LEO - E era boa aluna?

: Nos EUA, sim, aqui, não. Quando estudava nos EUA, eu sentia que a escola me incentivava a estudar. Então era uma coisa gostosa. No Brasil, era tudo com castigo. Ou taz isso ou vai de castigo. Isso é o tipo de coisa que eu não suporto, por isso é que eu fui mandada para fora da sala millhões de vezes e depois ia suspensa e tudo. Eu nunca aceitei essa idéia de conseguir as coisas através de ameaças, castigos. Quando eu sinto isso, fico defensiva e quero brigar pelo que acredito. Estudar tem que ser um lance gostoso. É que nem guitarra, eu acho difícil chegar em casa e ficar estudando guitarra - o que é mais dificil de aprender dá mais preguiça. Dentro de uma escola careta, é mais dificil ainda.


LEO - E você era da turma doidona da escola?

: Não. Era mais revolucionária de uma forma geral. Mas drogas, por exemplo, era uma coisa que não nos interessava. Ser revolucionária não implica ser doidona nem careta. O importante era não se deixar dominar, viver as coisas intensamente, ousar. E eu ousei tanto, vivi tão intensamente que uma hora tive que ir para o analista para poder botar tudo em ordem na cabeça.


LEO - Marina, pelo que eu conheço, eu tenho a impressão de que você foi uma garota muito mimada.

: Mimada, eu? Ah, um pouquinho em casa afinal eu era a caçula e filha única, tinha o Cícero, depois o Beto e só eu de menina. É natural que eu tenha sido um pouco mimada em casa, mas eu nunca fui mimada pela vida. Eu comecei numa gravadora aos 18 anos e tive de lutar muito, enfrentar muito cedo coisas que são difíceis de lidar até hoje em relação ao trabalho e a vida mesmo.


LEO - Você assinou com a Warner aos 18? Mas quando o Simples Como Fogo saiu você já tinha um pouco mais, não é?

: Pois é, demorou três anos porque eu me assustei muito com as coisas que o André (Midani) queria que eu fizesse. Independente de serem legais, resisti e ele me pôs de castigo... (risos). Hoje nos damos bem, mas naquela época eu me sentia muito mal, porque diante de tantas mudanças eu tinha sentido que nada do que eu já tinha feito tinha valor. Se o que eu era não estava bom, por que me contratar?


LEO - Mas a sua cara naquele primeiro disco escondia um pouco uma das faces mais evidentes da sua música: a suavidade, a doçura e a delicadeza

: É. Era dificil para mim me ver daquele jeito ou só daquele jeito: mas eu gostava daquela imagem mais decidida. Era a forma como o Carlinhos Prieto (um amigo que produziu várias vezes o visual da Marina) me via. (Pausa para pedir uma pizza. Diz a Marina que se ela ficar muito tempo sem comer ou sem dormir dança tudo - fica num mal-humor IN-SU-PORTÁ-VEL. Fim da pausa com uma pizza a carninho.)


LEO - Uma coisa que eu sempre admirei muito em você foi essa habilidade em combinar essas caracteristicas, muitas vezes antagônicas de uma forma tão simples: uma musica super-romântica e ao mesmo tempo rebelde. Um jeito meio mandão e uma generosidade imensa. Coisas assim.

: Há várias formas de você mudar o mundo - falar de amor, assumir as suas diferenças, enfim, lutar por uma mudança no plano subjetivo, mudar você mesmo por dentro e mostrar isso, às vezes, é mais revolucionário do que fazer música de protesto. Eu sempre fiz o que estava ao meu alcance e sempre tentei uma atitude mais ousada falando sobre os assuntos que me interessam mais. E o amor é uma questão superimportante. Eu não saberia fazer músicas como o Legião, por exemplo. Mas isso não incomoda, pois eu sei que existem muitas coisas para ser trabalhadas e de muitas formas também. E quanto à generosidade esse é um outro ponto que eu acho importante na vida. Eu gosto de ser assim porque eu gosto que sejam assim comigo.


LEO - Nunca rolou com você aquele tipo de patrulha que rola muito no Brasil, de achar que por você ter se popularizado você se vulgarizou?

: Já, principalmente quando eu gravei Uma Noite e Meia. Diziam que aquela era uma música vulgar porque era uma música simples e falava de desejo, de verão. Mas eu fiz mais para implicar mesmo, e porque eu gostava, é claro. Na verdade, eu nunca dei muita bola para a elite. E nem acho que os conceitos de certo e errado ou de modernidade possam ser ditados por alguém.


LEO - E o fato de ser mulher, influi em alguma coisa quando você pega a guitarra e vai liderar a banda? : Quanto mais civilizado um pais, mais tranquilo fica nesse aspecto. Nos Estados Unidos eu acho que isso é visto com muito mais normalidade do que aqui, onde eu acho que de início sempre torcem um pouquinho o nariz. Mas se você sabe muito bem o que quer e vai à luta, fica mais fácil quebrar o tabu.


LEO - Me diz uma coisa: sendo uma mulher bonita, sensual, talentosa, bem-sucedida, isso tudo não atrapalha um pouco para quem está do seu lado?

: Fica mais difícil para os dois. Existe uma idéia de que mulher inteligente é feia, e ser bonita ao mesmo tempo em que se tem sucesso amedronta muito. O ideal é que os dois sejam bem-sucedidos.


LEO - E o que é que você diz para as meninas que lêem Capricho e sonham em ser vitoriosas com a guitarra em punho, igualzinho a você?

: Ah, tem que ter muita força de vontade, se preparar bem e saber muito bem o que quer para depois ir à luta. Depois é encarar a tempestade e saber que só depois de muito tempo é que vem a bonança. E a bonança só dura cinco minutos. (Risos.) Eu sempre quis muito, como na música de Caetano, eu sempre fui muito ambiciosa, nunca gananciosa. Eu nunca quis ter coisas de que eu não precisasse. Por exemplo, agora eu acho que está na hora de ter um apartamento. Vou lutar e sei que vou ter um do jeito que eu quero, vou trabalhar para isso. Quando eu quero uma coisa, quero aquilo profundamente.

(Depois de pegar com a Marina as dicas sobre roupas, produtos de beleza, coisas que ela está curtindo, deixei ela em paz com sua música e fui embora. Fui descendo pelas ruas tranquilas do Cosme Velho, onde fica o estúdio em que eu também ensaio, e pensando em tudo o que ela tinha acabado de dizer e no quanto gosto dela, e numa daquelas coincidências em que ninguém acredita mas todo mundo vive, liguei o rádio e ela estava lá. E a primeira frase que ela disse foi: "Mas os momentos felizes nao estão escondidos nem no passado nem no futuro. Meu amor, eu lhe juro".)

"É disso que eu gosto"

Moda: eu acho legal misturar jeans surrados com um blazer chique, roupa da Maria Bonita com roupa da Forum, esse tipo. Também gosto de mandar fazer umas roupas na costureira, principalmente biquini. Quando eu vou comprar, nunca dá certo. Para mim tinha que ser a parte de baixo 42 e a de cima 40. É melhor mandar fazer.

Beleza: óleo de amêndoas da Natura e Nívea alemão para a pele. Gosto dos produtos da Clarins, uma marca francesa. Xampu, eu uso Politar e Betnovate para dar brilho, que é o máximo. De vez em quando uso uns xampus americanos tipo Head'n Shouder. Maquiagem eu gosto da Dior e faço limpeza de pele uma vez por mês da Doce Beauté

Coisas que está curtindo:
Discos: dos Paralamas, do Djavan, os novos. O Born to Blue do Stevie Miller, o do Terence Trent DÁrby, o da Madonna e do Donald Fagen.
Livros: Hegel, Prust. Li recentemente Fogueira das Vaidades e conheci um cara igualzinho ao do livro logo em seguida.
Cinema: Bagdá Cafe (de Percy Adlon) e a Insustentável Leveza do Ser.

Coisas que mais gosta:
O que eu mais gosto é ouvir música enquanto dirijo e de reuniões pequenas com amigos para bater papo.

Marina - Tchau
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