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Letra, ... Conversas
 
ENTREVISTAS COM:

HERBERT VIANNA
RENATO RUSSO
MARINA LIMA
LOBÃO
ROBERTO FREJAT
SAMUEL ROSA
ADRIANA CALCANHOTTO
NANDO REIS

(GRYPHUS 1995)
 
Leoni RESUMÉ

   LEONI é compositor, músico e cantor. Aos 34 anos, já tem mais de 70 músicas gravadas.Começou sua carreira no Kid Abelha no começo da década de '80, saiu em '86 para fundar os heróis da resistência e em '93 partiu para a carreira solo. Diversas de suas canções alcançaram o topo da parada de sucessos, como "Fixação", "Como Eu Quero", "Só Pro Meu Prazer", "Exagerado", "A Fórmula do Amor" e "Garotos II", entre outras. Cazuza, Herbert Vianna, Leo Jaime, Paula Toller, Frejat e Vinicius Cantuária são alguns de seus parceiros.

 

Nota do Webmaster: Neste livro, "Letras, Música e Outras Conversas", Leoni faz entrevistas com oito artistas, focando em questões sobre composição. Entre as entrevistas, está a de Marina, que está reproduzida fielmente a seguir. Esta é uma obra da editora GRYPHOS - 1995

Prefácio Técnico

Antes das entrevistas cabe um pequeno esclarecimento técnico sobre alguns termos que aparecerão repetidamente ao longo do livro.

Canção

Canção é uma música cantada (não instrumental), onde a letra e a melodia são o mais importante. Uma boa canção se presta a ser tocada com pouco ou nenhum acompanhamento, o arranjo original é só uma moldura e a canção se sustenta sem ele; continua fazendo sentido.

Algumas pessoas têm a idéia errônea de que canções são baladas, músicas lentas ou românticas. Não! "Geração Coca-Cola" (Legião Urbana) é uma canção, "Bichos Escrotos" (Titãs) também, assim como "Me Chama" (Lobão) ou "Como eu Quero" (Kid Abelha). É dessa forma que a palavra canção será usada no livro.

A melodia da canção é o que se canta, é o que pode ser cantarolado ou assoviado. A harmonia são os acordes que emolduram ou sustentam a melodia.

Formato

Esta parte vai esclarecer um monte de termos ao mesmo tempo. O formato de uma canção é como as partes dela são agregadas, é como a música é montada.

Comecemos pelo formato padrão do rock'n'roll segundo Pete Townshend: A parte A (ou verse, como é chamado em inglês, ou verso, ou simplesmente o A) é onde você apresenta a música. Vamos exemplificar: em "Óculos" dos Paralamas do Sucesso a parte A começa: "As meninas do Leblon não olham mais pra mim (eu tô de óculos)".

Essa parte dura até a entrada do Refrão (ou Chorus em inglês) que é a parte que se repete na canção e que contém a mensagem principal, alguma coisa que resuma o sentido da letra. No caso de "Óculos" o refrão é: "Porque você não olha pra mim?/ Me diz o que é que eu tenho de mal / Porque você não olha pra mim? / Atrás dessa lente tem um cara legal".

Normalmente a letra vai ser mais explicada em um segundo A, no caso: "Eu quis te dizer que eu nunca fui o tal", e depois volta para o fundamental (o refrão) para reforçar a mensagem, afinal música toca no rádio e muito pouca gente vai ter a letra à mão para tirar dúvidas.

Apresentada a canção existem algumas possibilidades: a primeira é uma parte instrumental ou um solo para quebrar a monotonia de ficar repetindo indefinidamente A, refrão, A, refrão, A etc.; a segunda é uma parte especial ou C (por que não B? Veremos depois) com outra melodia e com uma abordagem diferente do mesmo tema, um outro enfoque - essa parte só acontece uma vez. Em "Óculos" temos um instrumental.

Feita essa digressão voltamos ao refrão para não deixar ninguém esquecer do principal. Essa é a estrutura mais simples e corriqueira na música pop, mas tem mais um elemento importante que é o B (que em alguns casos pode ser chamado de bridge, ou ponte) que serve para fazer a ligação entre o A e o refrão de forma mais natural e eficiente.

Agora, tudo isso é teórico. Diversas vezes com esse roteirinho à mão pode-se ficar inteiramente perdido. Uma canção pode ter apenas uma parte, ou mais de quatro; as partes podem ser simétricas ou inteiramente irregulares; diversas canções não têm refrão, ou este não tem a força que se imagina que um refrão tenha. Isso sem contar com o fato de que a nomenclatura não é padrão e muita gente pode chamar um especial ou C de bridge, pode chamar uma parte A mais forte de refrão etc.

Você se pergunta então: para que serve este Prefácio Técnico? Sinceramente? Para quase nada. Mas ao menos você já ouviu esses termos e se der sorte, em alguns casos, vai entender tudo sobre algumas músicas. Em outros vai ficar tão confuso quanto eu diante de algumas canções da Legião Urbana. Boa sorte!

ENTREVISTADO:


MARINA LIMA

      "Agora eu descobri que é muito importante para mim, para eu não me sentir seca, é não parar de estudar, não parar de estudar música, não parar de praticar. Não ficar contando com o que você já sabe, aumentar sempre o seu repertório, ampliando a técnica.

      Comecei a ler música de novo, para mim está sendo bacana. Não é nada, mas são coisas que você vai aprendendo melhor, o quebra cabeça vai ficando maior e mais claro também"

[Leoni]:Quando falei pela primeira vez com a Marina a respeito desta entrevista ela ficou superanimada com a possibilidade de falar sobre composição. Em geral, o artista é muito entrevistado sobre o último disco, sobre o show do momento, mas são poucas as oportunidades para falar da criação. Para um compositor, todo o resto é conseqüência da fagulha inicial.

Por uma estranha ironia do destino, quando fui marcar a entrevista, ela estava em fase de pré-produção de um disco onde é só intérprete. São canções que, segundo ela mesma, gostaria de ter composto. Se por um lado não compôs nada de novo, por outro, o fato de ter uma produção tão particular faz com que aborde as canções alheias com uma atitude autoral.

A Marina costuma estar sempre ocupada. São aulas de ginástica, de canto, às vezes de violão e tudo mais ligado ao seu trabalho. Somando-se a essas atividades o processo de preparação de um disco novo, ela teve que fazer milagres para arranjar um tempo para conversar comigo. Mas arranjou, e rápido.

A entrevista foi no apartamento dela, apartamento decorado com muito gosto e sofisticação, com uma vista linda da Lagoa Rodrigo de Freitas. Era uma tarde nublada e fresca do outono carioca. A conversa foi superesclarecedora sobre o amadurecimento artístico da Marina, dos caminhos que ela trilhou para dar uma personalidade ao seu trabalho. Ela é uma prova de que quanto mais pessoal, mais universal a arte se torna.

Começou relatando as suas experiências e seu código de valores e aos poucos foi arrebanhando uma legião de fãs que se identificavam com as canções que ela e o Antônio Cícero escreviam. Hoje está aberta a novas parcerias, a novas turmas, mas sempre fiel aos seus princípios. É uma mulher determinada, esforçada, compromissada com sua carreira, com controle de tudo que diz respeito ao seu trabalho.

A entrevista não foi muito longa mas foi objetiva. Menos de duas horas depois ela foi se encontrar com o Liminha para trabalhar algumas faixas do novo disco, mas tinha dito tudo que eu queria saber e deu uma das dicas mais interessantes para os novos compositores. Não vou estragar a surpresa, vamos deixar o melhor para o final.

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Leoni: O começo do seu trabalho era muito diferente do que você faz hoje. Antes parecia uma mistura de Rita Lee, Gilberto Gil, Mutantes, blues...

: Tudo isso misturado, eram muitas influências.



Leoni: Tinha muito samba, não é?

: Tinha um samba: "Avenida Brasil", mas tinha os arranjos do Lincoln Olivetti.1 Quando comecei era muito difícil uma mulher ter um trabalho solo. Eu não tinha nem um trabalho muito completo, tinha um esboço de uma coisa que queria ser, entendeu? Se para mim ainda não era muito claro, para os outros então era completamente obscuro.

O Mazola, 2 que foi o cara que me descobriu na época, tentava imaginar onde é que eu podia me adequar melhor. Então uma vez fui produzida pelo Gastão Lamounier, 3 uma vez pelo Pisca, 4 uma vez pelo Lincoln Olivetti, ele quis me experimentar em diferentes situações. E eu nunca me encaixava muito bem em nenhuma. Isso falando em relação a arranjar as canções. Porque eu compunha no violão e chegava o Lincoln, por exemplo, que estava começando aquela onda meio discoteca e queria me adaptar às coisas dele. Às vezes dava certo em algumas músicas e às vezes não. Ficava meio confusa a leitura, mesmo para mim.



Leoni: Você é contemporânea do Guilherme Arantes e do Marcelo entre outros, essa era a sua turma musical?

: Não tinha uma turma. Antes tinham pessoas da geração do Caetano, do Gil, da Gal e da Bethânia, aquela geração de ouro. Quem veio depois ficou um pouco espremido entre eles e o rock, mas também tinha uma voz como o Lulu Santos, por exemplo, o Lobão, o Léo Jaime mesmo, quando começou. O problema é que era pouca gente e todo mundo muito separado. O Guilherme Arantes morava em São Paulo, eu achava algumas coisas legais, mas não me identificava muito. O Marcelo até morava em Ipanema mas eu não tinha nada a ver musicalmente com ele.

Quer dizer, a sorte é que eu tinha o Cícero e não ficava tão só. Tinha meu irmão que era o meu parceiro. Aí conheci o Lobão e outras pessoas. Mas só depois de uns três LPs gravados, porque até o terceiro LP eu não tinha mesmo uma turma. Eu tentava dar voz a uma coisa que estava começando, era diferente, mas que não era a cara de nada. Era o esboço da minha inclusive. Nem era a minha cara ainda.



Leoni: Uma coisa marcante, era a sua parceria com o Cícero. Vocês se tornaram cronistas de uma turma. Eram canções comportamentais de um determinado grupo...

: Eu fico assim quando você fala turma, porque a gente nunca teve turma. Tenho que esclarecer para você entender: sempre fui muito estrangeira lá nos Estados Unidos e aqui quando voltei. Não tinha turma nenhuma.

Eu conhecia o Caetano, me dava com a Gal, conheci bem a Gal, mas o que eu descrevia com o Cícero não tinha nada a ver com essa turma, eram situações especiais de vivências nossas, particulares, não tinha a ver com turma nenhuma. Era uma coisa muito nossa, que eu vivia, que eu me identificava, pegava e somava experiências minhas a experiências dele, era uma coisa muito nossa. Com o nosso trabalho saindo, começaram a pintar pessoas interessadas no trabalho. Até então não havia, era muito solitário o trabalho.



Leoni: Era você e ele?

: Eu e ele, não. Conhecíamos muita gente. Mas o trabalho musical era muito nosso. Comecei a compor com ele roubando um poema dele. Eu não estava vivendo bem aqui no Brasil, tinha dúvida entre estudar aqui ou no exterior, meus pais ainda estavam lá. E o Cícero estava no exterior, então meio que fugi do Brasil mesmo e fui tentar estudar música lá fora, entendeu? E ele estava lá.

Então eu, querendo fazer música mais do que estudar, roubei um poema e musiquei. Aí começou tudo como uma descoberta de dois irmãos de um possível trabalho que a gente poderia construir juntos. Um ajudar o outro a falar daquela família, daquelas pessoas que eram do Rio mas tinham morado fora... Começou uma coisa muito nossa, entendeu? A gente conhecia o Caetano, conhecia o Gil, conhecia a Gal, conhecia Bethânia, conhecia um monte de gente. Mas essas pessoas nem se identificavam com o nosso trabalho, muito pelo contrário, elas achavam meio estranho. As pessoas são muito críticas, não é?

Então, quando sai alguma coisa de algum amigo que não fazia nada de música e que de repente começa a fazer, a primeira posição é muito crítica. E a gente insistiu porque confiava no que fazia.



Leoni: Então os valores, as atitudes e tudo o mais que estava na música eram coisas suas e do Cícero exclusivamente.

: Eram. E de pessoas com quem a gente vivia a relação. Relação de amor, de desencontro, de encontro, dele, do Cícero, e de pessoas ligadas a mim. Não eram pessoas ligadas a música, era um universo muito menor, mais fechado, mais particular.



Leoni: Quando entrevistei a Adriana Calcanhoto, ela falou que o Cícero hoje só escreve letra de música sobre melodias prontas, pelo menos para ela. Como é que vocês fazem e como faziam?

: De todas as maneiras, porque ele começou comigo e eu com ele, não é? Então é diferente. Eu musicava poesias dele durante um tempo. O primeiro disco todo é assim. Tem "Memória Fora de Hora", "Transas de Amor". Todas aquelas canções eu musiquei poemas dele. Porque o Cícero no começo não sabia muita métrica de música, não tinha ouvido musical, era poeta, não é?

Ele ouvia mais música clássica, não música popular. Então para ele a métrica, onde era a vogal, onde era a sílaba forte, ele demorou para entender. Foi muito aprendizado prático. Nós dois começamos rachando juntos mesmo, eu não tocava violão tão bem. A gente tinha uma ambição muito grande de fazer coisas, de transformar o mundo, de dar vida a nossas histórias particulares. Mas não tinha muita técnica e é por isso que parece com tanta coisa diferente. Estávamos procurando ainda. Então ele não sabia métrica.

Com o tempo, trabalhando comigo, eu fui ensinando para ele: aqui não, aqui não pode, está sobrando, diminui e tal. E ele começou a entender. Aí, então, comecei a melhorar paralelamente a minha parte musical, a gostar de fazer música independente de letra, já conseguia achar uma melodia e botar uma harmonia para aquela melodia. Comecei a gostar de criar mais livremente. No começo a gente se ajudou, eu musicando as poesias dele, depois ele começou a botar letra em músicas minhas prontas. A partir do segundo disco: "Olhos Felizes", tinha "Só Você" e várias outras que já eram músicas em que o Cícero pôs letra.
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Leoni: "Só Você" é uma música que tem arranjo de samba, ela era samba?

: Ela era funk, não era samba. Não tinha uma levada muito definida. A questão do arranjo é muito complicada. Eu fui muito influenciada pelos Beatles, por Stevie Wonder, que compunham melodias lindas. E no começo eu criava melodias lindas, mas não sabia harmonia para traduzir aquelas melodias. Então chegava um arranjador, botava um outro acorde, mas eu não podia nem falar porque não sabia ainda qual era o acorde, não tinha esse conhecimento teórico. Fui melhorando com o tempo. Mas demore muito até conseguir dominar a coisa do ritmo.

Enquanto eu não tive uma bateria eletrônica (no disco "Fullgás" descobri aquela DX), ficava meio à mercê das pessoas porque também não sabia muito ritmo. Eu era uma pessoa que tinha um dom para compor, um talento que foi se aperfeiçoando com o tempo cada vez mais. Com a chegada da bateria eletrônica pude começar a programar e fazer músicas em cima de uma levada, ninguém podia mudar porque a levada já era parte da composição.



Leoni: A letra do "Só Você", foi você que sugeriu? Porque parece que o Cícero vestiu a sua persona.

: Muitas músicas que o Cícero fez, as que eu musiquei, eram letras dele mesmo. No primeiro disco todas eram dele, tem uma que eu canto com a Zizi, "Essas coisas que eu não sei", que é uma letra dele também. Algumas são histórias dele. Agora, quando faço a música, surgem palavras, não é? Vinham idéias de assunto que eu passava e ele se vestia realmente na minha pele. Às vezes fazia tudo mesmo, virava uma persona. Com o passar do tempo eu comecei a querer fazer um pouco de letra também, a sugerir refrões e tal. Foi um crescimento mesmo.



Leoni: Eu fiz um curso com ele na OLAC 5 e ele falava: "A Marina não me deixa colocar silaba fraca onde há uma nota mais aguda, a nota mais aguda tem que ser a silaba tônica..."

: É porque a gente se ajudou muito. Foi ótimo ter acontecido esse encontro. Morávamos juntos, passávamos o dia inteiro fazendo música, falando sobre música, tocando, com idéias de assuntos, trocando vivências. A gente vivia tentando descrever o nosso cotidiano, a nossa visão das coisas e eu nunca parei de ter aula. Eu fui melhorando e tendo uma visão melhor das músicas, de como queria o acabamento delas, entendeu?

Foi melhorando o trabalho, inclusive com relação à poesia, com relação à letra. Mas o Cícero também é muito exigente, quando foi entendendo como é que era feito não era nunca preguiçoso. A gente tentava fazer o melhor daquilo que podia fazer naquele momento. Se o próximo trabalho ficasse melhor, tudo bem. Mas aquele era o melhor naquele momento. Isso era bacana.



Leoni: Uma das características das suas melodias é espaço. Você é uma pessoa que compõe com muito silêncio entre uma frase e outra. Isso é para te dar mais possibilidades de interpretação ou é uma coisa espontânea?

: É uma coisa espontânea porque tenho um namoro de tempo integral com a melodia, sabe? Eu estava lendo num livro de teoria musical uma coisa que sabia inconscientemente: você pode compor uma melodia só com ritmo, pode não ter harmonia, os gregos compunham sem harmonia. Tinha melodia e ritmo. Mesmo que eu tenha uma melodia definida forte, tenho várias outras na minha cabeça.

Eu acho que músicas são camadas, arranjos são camadas. Quando você é ouvinte, se na segunda audição já entendeu tudo, já descobriu tudo, perdeu a graça. Você tem que poder sempre descobrir uma outra textura, um outro degrau, aquilo não acaba nunca. Então eu já penso um pouco nisso quando estou compondo. Para mim a graça é ter aquela linha principal e um monte de coisas acontecendo no meio daquilo. Tanta gente contando a mesma história de diferentes maneiras com uma só canção. Cada músico, cada instrumento conta aquela mesma história. Então eu componho já um pouco com a sensação dessas várias cores.



Leoni: E esse espaço também serve para os instrumentos...

: É, serve para os arranjos, para alguns silêncios, algumas paradas, algum instrumento comentar o que foi cantado. E espontâneo, mas eu sei porque faço isso. Às vezes não é tanto, eu tenho algumas músicas que são menos, que são mais busy, 6 que são mais rápidas. Mas realmente o estilo predominante é esse mesmo que você descreveu.



Leoni: Eu tenho uma coisa um pouco mais ansiosa de preencher os espaços da música lá no violão.

: Mas talvez às vezes eu até deixasse espaços por não saber o que fazer com o violão. Agora até acho que toco melhor, naquela época não. Os músicos que trabalhavam comigo diziam: "Engraçado que você não sabe o que quer, mas você sabe o que não quer". Eu sabia reconhecer o que queria quando ouvia, entendeu? Agora, arranjo é muito importante. Tem gente que já faz tudo pronto, eu preciso muito de músicos para embelezar uma canção.



Leoni: Eu acabo fazendo muita coisa sozinho, esse último disco fiz em casa. Não toco teclado mas tenho computador e programo várias linhas. Ando querendo mudar, no próximo disco quero passar mais a bola.

: É, eu acho que bacana é você se cercar de umas três ou quatro pessoas em quem confie muito, mostrar a música, a harmonia, o ritmo e cada um vai dizendo o que sente e salpicando coisas na sua canção. E acaba fazendo algo junto sobre a canção pronta.



Leoni: "Avenida Brasil" é um samba com um sotaque da Banda Black Rio, mas que em termos de melodia já apresenta uma conexão com o seu trabalho posterior. Aquele começo: "Eu estou engarrafado", me lembrava o "Eu Estou Grávida" de "Grávida" do "Marina Lima"...

: É, é uma outra harmonia.



Leoni: É uma outra harmonia mas a melodia já tem um...

: E pode ser que tenha... Aquela música, ficou daquele jeito porque eu tocava batendo no violão, então foi assim que eles entenderam, mais para samba. Mas a gente quis fazer realmente um samba porque ela ia entrar no festival Abertura da Globo e eu era tida como uma coisa diferente. "Então vamos fazer um samba!" E na realidade é uma coisa ambiciosa minha e do Cícero, para chatear, falando da Avenida Brasil, entendeu? Era uma coisa meio para aparecer naquele programa Abertura.



Leoni: "Dessa Vida, Dessa Arte" é uma reviravolta estilística, apontando o caminho que veio depois com "Fullgás".

: Eu acho que sim, é um disco de passagem, de transição, não é? Eu vinha de um disco anterior chamado "Certos Acordes", que é muito bonito; onde eu toco mais violão... Tudo é resultado do instrumento, sabia? Tudo vem de começar a tocar melhor, ficar mais confiante, de fazer uma levada e apontar para um caminho que eu queria.



Leoni: E tinha uma coisa do rock que estava aparecendo e que você adaptou ao seu sotaque. "Acho que dá" é meio rock.

: É, "Acho que dá" eu fiz uma levada no violão e fui para Búzios com o Tavinho Paes, o Léo Jaime e o Lobão. Fui para casa de umas amigas e com essa turma que era a minha. Era o Lobão, o Tavinho e o Léo que eu tinha conhecido através do Tavinho. Fiz a música e a gente fez a letra lá! E começamos a arranjar . A levada era do Lobão. Ele fez a levada junto comigo. Não no violão, mas quando foi arranjar. Ele fazia parte da banda. Já estava apontando para um caminho mais assim realmente.



Leoni: Era outra turma. Você gravou uma música do Lobão: "Noite e Dia".

: Gravei, conheci o Júlio...



Leoni: Aliás, eu falei com Lobão que você foi a primeira pessoa que percebeu que ele é um ótimo baladista. "Noite e Dia" é lindo, "Me Chama"...

: Mas sabe por que? Ele tocou bateria comigo muito tempo e ficamos muito amigos. Então a gente convivia e conversava, Lobão ia muito lá em casa, mostrava as coisas que ele tinha, eu mostrava as coisas que eu tinha. A gente ficou com intimidade, entendeu?



Leoni: Vocês fizeram "Cena de Cinema" juntos...

: Fizemos juntos, complementei, melhorei a segunda parte que estava inacabada. Aí o Lobão entrou para a Blitz e a gente meio que se afastou. Mas tínhamos uma afinidade muito grande naquela época.



Leoni: Eu achei que seu jeito de cantar mudou também, ficou mais segura, não sei.

: No começo da minha carreira, eu estava ainda muito sem cara. Havia uma influência grande da Gal, tinha histórias minhas particulares com o Cícero, mas eu convivia com aqueles baianos. Para mim, soar diferente seria meio uma traição, eu ficava meio dividida. Depois, comecei a sair da toca, a procurar o meu caminho, paciência se alguém se chateasse.



Leoni: A sua carreira foi amadurecendo gradativamente, mas naquela época tinha-se tempo para amadurecer. Hoje em dia as coisas são muito imediatistas. Por exemplo, se a gravadora vê que o artista não deu certo em um, dois discos, não criou um estilo e um público específico, provavelmente ele vai ser descartado. Eu vi que havia uma boa vontade em esperar que o artista fosse aos poucos encontrando o seu lugar. Acho que você teve essa oportunidade.

: O mundo ficou mais rápido mesmo, parece que há menos tempo, as pessoas têm menos tempo a perder, tem menos dinheiro no mercado, o Brasil está pior do que naquela época, as pessoas têm mais pressa, ficou tudo mais caótico. De vez em quando tem alguém com essa oportunidade: a Adriana Calcanhoto é uma que está melhorando a cada disco, compondo melhor. Mas não existe mais tantos espaços para isso como antigamente.

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Leoni: Eu acho que "Fullgás", é o disco da sua maturidade. Ele vendeu mais que os anteriores?

: Talvez, eu acho que ele vendeu uns 80.000. Naquela época era muito pouco porque tinha muita gente vendendo mais. Vocês mesmo ganharam um disco de ouro quando saíram com o Kid Abelha. Foi um disco onde as pessoas viram que realmente havia uma outra corrente, que eu tinha me tornado outro tipo de cantora/compositora. Mas só vendeu 80.000 que era muito em relação ao que vinha vendendo, mas não era muito em relação a outras pessoas que estavam nas rádios e na mídia.



Leoni: Eu acho que o que "Desta Vida Desta Arte" apontava, o "Fullgás" definia, era mais claro.

: Eu acho que o "Desta Vida Desta Arte" é um disco que tem muita ponta, é muito mal acabado. Tem boas idéias ali. Como você falou, ele inicia um novo caminho, mas não realiza muito bem e "Fullgás" já realiza bem. Mostra: a história é essa. O que eu queria mesmo era dizer isso aqui, é o que eu venho tentando falar, é por aqui a minha praia.



Leoni: Quem fez o que em "Nosso Estilo"? Porque parece muito com o trabalho do Lobão e os Ronaldos.

: O Lobão fez a música [cantando]: "Bateu tão forte/e não vai cair..." e eu comecei a fazer a melodia daí: "Agora e aqui/ Sim, não / Está tudo aqui dentro..." E o Cícero botou a letra comigo e o Lobão palpitando. Mas a estrutura, a base da música foi o Lobão quem fez com um Casiotone. 7 E eu comprei um por causa dessa música, porque tinha aquela bateriazinha eletrônica e eu compus "Fullgás" nesse Casiotone (risos).



Leoni: Mas você compôs tocando teclado também?

: Não, foi programando aquela bateriazinha e tocando violão. Mas foi uma maravilha aquilo. Tinha uma bateria "pop rock" ali e eu compus "Fullgás" em cima disso.



Leoni: E foi a mesma batida que o Lobão usou?

: Não, primeiro que a música dele é muito mais rápida, é outro ritmo. Acho que a dele era só rock, era outra daquelas opçõezinhas do Casiotone MT 40.



Leoni: E as letras das canções tinham uma coisa meio guerrilheira, não é? Você falando dos caretas, parecia que queria abrir espaço para um tipo de comportamento que não...

: Eu queria abrir espaço para nós, para mim e para o Cícero. A gente se sentia muito estrangeiro, Leoni. Porque eu saí daqui muito cedo, morei nos Estados Unidos anos e quando você mora lá pequeno, é do terceiro mundo mesmo. Quando voltamos também. A gente não se sentia muito aqui. Depois o Cicero teve problemas de movimento estudantil, estudava filosofia na Nacional 8 na época da ditadura, teve que sair correndo para Londres para não ser preso, entendeu?

Então era cada hora num lugar, a gente só tinha a gente, quer dizer, não tinha turma. Queríamos dar lugar e vazão para aquilo que vivíamos e que achávamos que era bom. Nossos desejos e anseios mesmo, nossas opções. Não era igual a todo mundo, mas muita gente se identificou. É impressionante como tivemos vários simpatizantes logo. Vinham pessoas dos mais diferentes lugares. Eu tenho um Fã-Clube de Campina Grande, imagina! Um dos primeiros. Além de ser uma mulher também compondo. Mas tinha muito isso, a gente querer poder ter espaço para existir com a nossa cor, com o nosso jeito.

A primeira música que o Cícero fez, que eu roubei a letra, foi "Alma Caiada" que era a letra dele que me dizia assim: "Aprendi desde criança que é melhor me calar e dançar conforme a dança, do que jamais ousar. Mas às vezes pressinto que não me enquadro na lei, minto sobre o que sinto, esqueço tudo o que sei". Já falava de uma inquietação. Quer dizer, ele já tinha isso muito forte e eu também. Então juntamos a fome com a vontade de comer. A gente pregava liberdade total, qualquer escolha. Sem preconceito nenhum. Não é só sexual, de nenhuma espécie.



Leoni: Tem uma canção que eu gosto muito: "Mesmo se o Vento Levou", porque é uma das poucas canções positivas sobre um amor que não deu certo, mas quase deu. Porque ao invés de ficar naquela dor de cotovelo, tem uma análise favorável: foi legal, quase deu. Existe uma outra chance daqui pra frente.

: Com o tempo a gente tem que aprender a lidar com perda (risos). Num belo dia alguém deixa a gente e você vai ter que lidar com aquilo. E o melhor é não condenar, não ficar alimentando rancor ou ressentimento. E isso que essa canção fala de forma positiva.



Leoni: E é legal porque normalmente a perda dá belas canções de dor de cotovelo, não é? Raramente dá uma canção assim, positiva.

: Mas aí é a questão da gente tentar sofisticar o sentimento também, não é? Se não a vida vira uma eterna repetição. O negócio é tentar aprimorar para cada vez ficar mais sofisticado teu sentimento, conseguir lidar com as coisas, entendeu? É saber envelhecer nesse sentido.



Leoni: A impressão que eu tinha, era que você nunca escreveria numa canção, algo que não fosse um reflexo de você mesma. Como entrar num personagem que pensasse diferente, entendeu? Dar voz a um personagem que não fosse você.

: Você achou alguma?



Leoni: Não, não achei.

: Tem uma sim, é: "Já Fui". Uma música que a gente fez para um filme.



Leoni: "Já Fui" eu achava que era para os seus pais.

: Não, essa música era para um filme do Lui Faria: "Com Licença Vou à Luta", que a Fernandinha Torres fazia. E essa era a canção do filme, quando ela saía de casa. A gente fez para Eliane. Não é sobre mim, é um personagem mesmo. Mas dá para imaginar como a pessoa se sente, não é?



Leoni: Mas eu acho raro encontrar isso no seu trabalho. Normalmente são declarações, algo que você tem que dizer.

: Outra música também é uma que a gente fez para a Maria Bethânia: "O Lado Quente do Ser" que era para Bethania cantar (cantando): "Eu gosto de ser mulher..." e uma coisa para ser bonito ela cantando.



Leoni: Aquela eu fiquei achando que era uma coisa que você tinha sugerido ao Cícero escrever.

: Não, a Bethânia pediu uma música e o Cícero fez a letra. Eu estava fazendo a melodia e brincando com harmonias. Achei o ritmo, porque saquei pelos discos dela, que ela gostava de cantar coisas meio beguine, meio shuffle 9 , que ela gostava desse ritmo. Então comecei a procurar um ritmo e uma harmonia brasileira que desse para ela e o Cícero teve essa idéia porque era seu fã. Achava-a uma mulher incrível, adorava os shows dela e acho que ainda gosta. Mas eu me lembro que isso era uma coisa muito forte na época, eu era mais fã da Gal e ele da Bethânia. Ele fez para ela.



Leoni: Porque muita gente escreve para outros personagens, não é? No Kid Abelha tinha muito. Como eu escrevia muito para Paula cantar eu lá não escrevia as coisas que eu ia dizer. "Como Eu Quero", por exemplo, é uma música que não é o que a Paula pensa, não é o que eu penso. Essa música é muito cruel, se a Paula pensasse aquilo seria um absurdo. Mas parece que você tinha uma certa preocupação com isso. Eu não vou dizer isso porque eu não penso assim.

: Sabe o que acontece, Leoni? Vocês eram uma banda, e uma banda pode brincar de camuflar. E a gente não era, o Cícero e eu não éramos uma banda. Queríamos muito começar uma coisa nova de letra. O Cícero foi muito importante para a letra popular, foi uma ponte entre o que o Caetano e o Gil faziam e as novas pessoas. Dominava muito a escrita, uma pessoa que também só pensava coisas loucas, não queria dizer o óbvio, não queria alimentar nenhum tipo de coisa convencional. Tinha um puta instrumento na mão, entendeu? Então a gente queria falar das nossas idéias, não tinha muito tempo nem desejo de falar do que não éramos.



Leoni: E quando você é confessional, é autobiográfica? Quando fala de relações, são sempre relações suas ou do Cícero?

: Tem algumas que eu compus com o Cícero que são relações dele. Muitas vezes não, eu pego carona de uma outra história e dou vida. Porque acho que vou viver ainda aquilo algum dia ou já vivi.



Leoni: Mas você tem canções extremamente autobiográficas?

: Tem muitas, muitas: "Virgem", a própria canção Confessional"...

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Leoni "Confessional", você confessaria para quem fez? É uma coisa sua mesmo?

: Eu prefiro não falar. E uma coisa minha, é para uma pessoa da música que prefiro não citar. Mas tem muitas que eu fiz para pessoas por quem estive apaixonada, muitas e muitas...



Leoni: E tem alguma que você, olhando para trás, fala: "Hum! Fui confessional demais, de via ter guardado alguma coisa"? Alguma coisa te incomoda depois?

: Não, não tem.



Leoni: "Doida de Rachar" é uma versão com letra sua, não é?

: É, foi a primeira vez que fiz uma letra assim. Isso porque estava com mania desse disco. Eu e o Nico Rezende. Trabalhei muito com ele nessa época. A gente estava ouvindo muito o disco do Donald Fagen, e ele tocava muito essa música no teclado. De repente, comecei a cantarolar uma letra e tal, que é bem autobiográfica também. Talvez essa eu tenha um pouco de inibição de ter feito, justamente essa, um pouco.



Leoni: E você estava escrevendo outras coisas na época?

: Não, foi uma coisa mesmo que não deu para conter e estou acostumada a escrever junto com o Cícero. Gosto de dar muita idéia de letra para ele. Essa foi a primeira que eu fiz só.



Leoni: No "Muda Brasil", a idéia da letra veio antes da música?

: Não. Veio a música e a letra juntas. A gente combinou fazer uma música que falasse disso.



Leoni: E nessa época você já estava um pouco mais aliada com o pessoal do rock: "Se Sou Descartável", já começa com uma coisa que todo mundo falava do rock. Só que ninguém nunca te acusou de ser descartável

: Não, mas tinha um problema aí, porque eu não era rock. Não era Kid Abelha, não era Ronaldos, não era Barão. Não era da turma do rock e também não era parte da turma da MPB. E eu sentia quando tinha alguns eventos, por exemplo, aquele 505 Nordeste que o Chico Buarque organizou, eu achava que ficava sobrando, me sentia mal, me sentia meio nada. A Paula, por exemplo, era reduzida a cantora ligada ao pop rock porque fazia parte de uma banda. Eu não era e também não era Gal Costa e Maria Bethânia, então ficava meio sem cara. Parecia que eu não existia e aquilo me incomodava e eu comentava isso com o Cícero.

Então a gente fez essa música um pouco para o Chico, por causa daquele 505 Nordeste. Adoro o Chico, admiro e até o conheço agora. Mas naquele evento especial parecia que ele me olhava e não me via, parecia que eu não existia. Aí a gente conversou e o Cícero também quis fazer...



Leoni: E, tem uma coisa cruel da mídia, não sei se é pelo fato do Chico, Gil e Caetano serem muito geniais, mas de vez em quando eu leio que depois da década de 60, não aconteceu nada na música brasileira. Pô! Teve o Clube da Esquina que foi maravilhoso, as pessoas isoladas: você, Jorge Ben Jor, Tim Maia, Luís Melodia, depois tem todo o pessoal do rock, mais um monte de gente ao redor e a mídia continua em cima de Chico, Gil, Caetano...

: Eu acho que é uma questão de tempo, que tem uma necessidade no ar. Desses compositores, também de não envelhecerem; chato envelhecer, não é? Caetano, Gil e Chico ocupam um lugar muito bonito na história do Brasil, mas daqui a pouco neguinho já vai estar tranqüilo com isso e vai poder ter espaço para reconhecer outras coisas que pintaram e vão pintar. E uma questão de tempo. São ondas, são coisas meio cíclicas.



Leoni: O pessoal do rock ainda pode ser considerado um pouco recente para se ter uma distância crítica. Agora até estão começando a avaliar isso melhor. Mas Milton Nascimento, Lo Borges, Luís Melodia já estão aí há anos.

: Mas aí acontece que tem pessoas que são melhores articuladoras e sabem fazer melhor a sua autopromoção. Enfim, pessoas que têm muitos talentos... Mas eu acho que tudo isso é uma questão de tempo...



Leoni: Você falou que tinha dificuldade com o ritmo no começo.

: É, porque eu não dominava, não tinha munheca 10 ainda.



Leoni: Talvez seja por isso que você tenha tido uma preferência por músicas lentas. É o que tem mais no seu repertório, músicas lentas onde as melodias aparecem, não é?

: Nem é isso, nem é isso. Tem esse lado, mas também porque comecei a implicar com essa obrigação de ter que dançar e ficava meio que de saco cheio dessa obrigatoriedade. Tudo tem que ser suingado 11 para dançar. Às vezes meu ritmo é lento, quero dirigir meu carro e ouvir uma coisa lenta, pensar num outro tipo de fundo musical. Foi uma reação quanto a isso, junto com a falta de domínio. Embora esse disco agora esteja cheio de coisas rápidas. Eu estou dominando mais o violão (risos).



Leoni: E você não está compondo nesse disco?

: Não. Mas estou pegando essas músicas que escolhi como se fossem músicas minhas. Então, sei lá, o disco vai ter onze músicas e em sete eu toco, tornando um pouco minhas essas canções que não fiz mas gostaria de ter feito.



Leoni: A partir do "Fullgás" parece que você assumiu um compromisso com a modernidade musical, não só uma modernidade comportamental que já existia nas suas letras, mas também uma modernidade musical Tinha sempre alguma tendência pop internacional que você captava e filtrava para o seu trabalho...

: Bateria eletrônica! Isso foi tão importante para mim! Fiquei com a bateria DX, programando e ficou tão fácil! Tinha uma sonoridade, um padrão musical que tinha a ver com bateria eletrônica. Então começei a compor melodias lindas sobre harmonias simples, porque a levada já estava lá. Era a minha trilha sonora.



Leoni: Você ainda compõe com bateria eletrônica?

: Está mais sofisticado. Hoje em dia começo no violão, acho um dedilhado, depois acho a levada. Mas parte do violão mesmo. Uma época eu programava uma levada, ficava tocando em cima e saía alguma coisa. Agora não. Quero começar fazendo uma canção, como "O Chamado", por exemplo, como "lt's Not Enough", esse tipo de música que começo a tocar, faço uma música e depois vejo qual a levada. Nem sempre com bateria eletrônica, às vezes com o próprio baterista. O Cezinha 12 por exemplo, a gente achou uma levada para "lt's Not Enough". "O Chamado" não, eu já tinha uma programação que dava certo. Programo levadas como rascunho, não é a levada que vai para o disco.



Leoni: "Zerando", quando começa parece uma música dos Tiltãs...

: "Zerando" é uma música que eu não gosto do arranjo, é o que sempre falei para o Léo. 13 Se tem uma música que eu não gosto...



Leoni: Aquele riff 14 já existia?

: Tinha aquele (canta o riff) não era com sax. Era uma coisa que eu fazia com a corda Lá e com a corda Mi do violão. A música é feita em Lá, não é? Eu fazia um picking 15 com essas notas, mas ele transformou numa coisa de sax, de naipe que descaracterizou o que era. Não gosto muito daquele arranjo. Gosto daquela música, tanto que eu fiz no show com outro arranjo.



Leoni: Depois a canção segue outro caminho. Começa daquele jeito e depois vira outra coisa...

: É um arranjo que eu não gosto muito. Porque ficou impessoal. Tudo bem, às vezes você falha em alguma. Eu adoro esse disco "Virgem", adoro aquela música "Preciso Dizer Que Te Amo" do Cazuza, "Uma Noite e Meia" eu adoro. "Pseudo-blues" acho que tinha que ter sido feita com mais músicos, só o Nico 16 fazendo comprometia um pouco. Só ele tocando todos os instrumentos. Mas "Zerando" falha; descaracterizou, não era minha. Parecia que tinha voltado para a época dos "Olhos Felizes", terceiro disco sabe? Onde eu tinha que vestir o arranjo que me davam.



Leoni: O Samuel tem uma teoria hilária de que música com muito acorde fica meio viada...

: Samuel deve ser mineiro...



Leoni: Ele é mineiro.

: (Risos). Tudo tem a ver com viado, para mineiro não é?



Leoni: Ele diz que a música perde virilidade. Você, nas suas músicas, tem optado por ter bastante acorde. Nem por ter bastante acorde, mas por uma riqueza harmônica. Você acha que esse é um caminho feminino?

: É um caminho de sensibilidade. Cuidado, Samuel, se você aprender mais acorde, como é que vai ser?

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Leoni: Ele falou que sabia mas que parou de tocar.

: O medo era tão grande que até na música teve que se proteger.



Leoni: Eu acho que mesmo quando você faz canções pop com a cara do que está acontecendo no momento, as harmonias têm uma outra estética.

: Eu tinha. Tive muita influência da Bossa Nova. Tirava muita música do Tom Jobim no violão, adorava as músicas dele.



Leoni: Você tirava de ouvido?

: Tirava de ouvido. Eu tive muito tempo de aula de violão, anos atrás. Então sabia muito aqueles caminhos harmônicos. "Charme do Mundo" tem a ver com isso, "Só Você" tem a ver com isso, "Olhos Felizes" tem a ver com isso, "Seu Nome" tem a ver com isso, o próprio "Fullgás"...



Leoni: "Doce Espera" é quase uma música instrumental. Como ela surgiu?

: Olha, essa música foi feita para a Maria Bethânia. Em algum lugar ela se identifica com as músicas que a gente faz. Essa é só minha. Eu estava com a DX, tocando uma levada assim, com uma afinação solta. Era uma afinação em Mi.



Leoni: Você troca de afinação?

: Às vezes troco.. "Acontecimentos" e uma afinação em Mi. E "Doce Espera" era uma afinação diferente com uma levada do Kiko Zambianchi. Ele tinha passado o fim de semana lá em casa e feito uma porção de programações loucas. Então peguei uma das programações dele e fiz "Doce Espera" tocando solto e tal. E a Bethânia gravou. Caetano estava produzindo o disco dela e me pediu uma música bem típica minha. Aí eu mandei uma fita com essa música e essa bateria. Na época do Virgem o Léo disse: "Eu adoro aquela música". E eu disse: "Então vamos gravar como instrumental, uma música que você pode tocar no disco, eu canto um pedacinho". Nós fizemos uma música instrumental minha com o Léo tocando. Como ele tinha produzido o disco, era um pouco uma homenagem a ele o fato de ter uma faixa instrumental.



Leoni: É, a melodia só aparece lá no final, não é? Fica um tempão instrumental

: Mas ela não era instrumental. Foi composta com letra e música e gravada assim.



Leoni: E como é que surgiu parceria com Arnaldo Antunes? Como foi o processo de "Grávida"?

: Foi engraçado. Eu passei três meses em São Paulo. Antes de fazer o disco "Marina Lima" eu estava estudando violão com um professor que o Wander Taffo 17 tinha me indicado. Um professor de guitarra. Ele morava lá então eu falei: vou pra lá! Fiquei morando num Apart Hotel perto da casa do cara tendo aula todo dia. Ele me dava muitas harmonias de guitarra que fui aprendendo, muita levada, comecei a aprender a solar. E os Titãs, independentemente uns dos outros, queriam trabalhar, sempre me ligavam.

Antes do Nando compor com a Marisa, ele me ligou para compor. Tinha uma coisa com o Herbert também, eu sempre tinha uma história, uma possível música, um possível trabalho com alguns compositores de banda, sempre tinha esse namoro e tal. Ia ficar em São Paulo três meses e só alguns músicos sabiam. Aí o Charles foi lá em casa mostrar uma música. Um dia fui à casa do Arnaldo, que eu tinha conhecido numa outra circunstância, eu, Cícero e tal e combinamos um dia, quem sabe, fazer alguma coisa juntos. Eu compus "Grávida", fiz a música só no violão.



Leoni: Foi só melodia, sem letra?

: Sem letra, nenhuma sugestão. Eu vou mostrar (vai até a sala ao lado, pega o violão e mostra a levada de violão e canta a melodia sem letra. Nã, nã nã nã etc.).Tinha melodia, música, um ritmo. Eu queria dar a música para ele mas tinha vergonha, não sabia como mostrar. Aí o Arnaldo esteve no Rio por causa de um livro que estava lançando e a Márcia, que era minha empresária na época disse: "Chama ele aqui!".

Fiz um almoço para o Arnaldo e estava morta de vergonha! Acabou que numa hora a gente foi para o estúdio que eu tinha no Leblon, morava no Leblon, e mostrei num fôlego só. Mostrei e ele adorou. "Pô! Me dá essa música! Vamos fazer!" Eu gravei uma fita e ele levou. Depois me entregou a letra exatamente em cima da melodia, tudo certo. Inclusive os sons que eu fazia, as vogais que eu fazia ele usou. Danado! Saca muito, ele! E foi a nossa primeira parceria, foi assim. Eu adorei! Ele pegou o telefone e disse: "Ouve aí", "Eu tô grávida". E eu achava lindo aquilo, aquele homem com aquela voz viril cantando aquilo.

Foi uma música que senti quando fiz, que era uma coisa nova para mim, que tinha um caminho harmônico diferente, que eu estava dominando mais o meu instrumento. Senti que já conseguia ir um pouco adiante. Então era muito especial, tinha que entregar também para alguém que eu achasse que fosse encarar como uma novidade. Que fosse ficar estimulado por ser a primeira música junto e tal. Foi isso.



Leoni: No "Marina Lima" você se discrimina do Cícero totalmente. Tem só duas músicas dos dois, tem outros letristas, tem Ronaldo Bastos, Pedro Pimentel, o Arnaldo Antunes, o Reinaldo Arias compondo música. Você teve que se expor um bocado mais, não é? Precisou desse tempo para sentir segurança e se expor assim?

: Tive que me expor, mas eu queria isso. Mas fora isso, também tem o lado de lá. O Cícero estudou lógica, matemática. Para mim, música é a minha expressão, é cantar, compor, tocar, esse é o meu lugar; mas não é exatamente o lugar dele. Ele é um filósofo. Então ele fez, foi bom, gostou, deu dinheiro, para ele, deu um certo treino. Mas ele também queria falar de outros assuntos e fazer um trabalho mais dele. Então foi uma necessidade mútua, cada qual viveu da sua maneira essa vontade de ficar um pouco mais solo, de não ser tão dependente um do outro. Na realidade, aconteceu junto, ele começou a abrir e eu também.

Claro que tinha algumas horas que eu queria que ele estivesse ali, queria me sentir um pouco protegida, não é? Mas foi tão importante para mim, porque fiquei mais dona do meu trabalho, entendeu? E posso voltar a compor com o Cícero a qualquer hora que a gente queira. Mas foi bom porque eu pude tomar um pouco mais conta só do meu trabalho, me deu um pouco mais de autonomia. Pude escolher coisas diferentes que me interessam. Não tenho obrigação, nunca tive também. Se eu não tivesse mudado, talvez se tornasse obrigação, mas não tenho obrigação de ter que ter tantas músicas com ele ou com qualquer outro. E conforme eu quero. Posso até, como agora, gravar um disco de músicas de ninguém, de músicas que não são minhas, de outras pessoas, entendeu? Quer dizer, me deu essa liberdade. Só que você se expõe mais.



Leoni: Eu entrevistei o Herbert, que não tem muitos parceiros e o Renato Russo, que não tem muitos parceiros também. E por incrível que pareça, apesar de serem bons compositores, ótimos compositores, são muito inseguros. Às vezes é necessário muita coragem para mostrar alguma coisa no meio do caminho.

: Mas eu não tenho muita não. É porque o Ronaldo é insistente, ele sempre falou para a gente fazer. E no caso do Reinaldo Arias, ele mandou algumas músicas e escolhi uma e fiz a letra com o Ronaldo. O Ronaldo fez e eu fiquei achando assuntos em comum e arrematando a letra com ele.

O Alvin L. é porque eu gravei aquela música "Eu Não Sei Dançar" e fiquei muito impressionada. A gente não se conhecia, eu recebi uma fita com a gravação dele que é muito bonita, muito pessoal e eu falei: "Nossa!" E quando comecei a ver que eu tinha que abrir mesmo, que teria que compor com outras pessoas, o Alvin foi uma pessoa que me ocorreu logo. Fiquei muito interessada no universo dele. Achei que a gente deveria ter muitas afinidades e que eu gostaria de me abrir para ele e de saber também como ele é. Quer dizer, deixar rolar essa intimidade, entendeu? Então propus a ele, a gente começou a compor e foi muito bom. Mas não é fácil...



Leoni: Ele me disse que as pessoas falam: Ah! O Alvin que compõe com a Marina! E que na verdade vocês só têm uma parceria onde você escreveu um pedaço de letra. Que é uma coisa que não é a sua característica, não é?

: Até já é hoje em dia. As coisas estão mudando, não é? Eu não vou gravar aquilo que não sinto, aquilo que não gosto.



Leoni: Ele me falou que você reescreveu milhares de vezes aquele pedaço e que ele gostava de todas as versões, mas que depois você sempre ligava e dizia: "Mudei, mudei agora é outra coisa". Você reescreve muito, quando está fazendo letra?

: É o seguinte: essa música "Deve Ser Assim", a idéia do Alvin era um cara com ciúme de uma mulher e eu adorava certas frases: "Tive medo de fechar a porta e perder algum detalhe"... Eu adorava certas frases, mas não gostava da história, achava a história meio banal, então falei: "Vamos aproveitar isso e fazer uma história de alguém que foi embora, mas que foi melhor ter ido embora. Que quando olhar para trás, vai saber que perdeu algumas coisas, mas perdeu porque tinha que seguir".

Então isso para ele era complicado mas eu queria deixar clara essa idéia: um tempo que tinha passado. Então até conseguir adaptar na minha cabeça varias coisas que tinham dele para as duas frases que não tinham, demorou. Ele não entendia porque (risos). Mas eu não queria falar de ciúme. Eu queria falar de alguém que seguiu um caminho. Isso pra mim era diferente.



Leoni: Quando você escreve letras, reescreve muito?

: Eu reescrevo certas palavras. Muito de "O Chamado" saiu de uma vez, mas eu demorei para achar certas palavras, rimas que eu queria que ficassem perfeitas. E um trabalho de acabamento, você não muda tudo, muda para ficar uma coisa mais inteligente, sofisticada, para não ficar tão primitiva: "Ah! Fiz e é isso". Não, tem que pensar um pouco em cima daquilo, tem que trabalhar, aprimorar.



Leoni: Não, porque o Renato tem uma música, "Há Tempos", que ele escreveu oito letras. Mas oito letras mesmo. Jogava tudo fora e começava de novo.

: O Cícero fez muito isso comigo, de fazer coisas inteiramente diferentes. Eu não.



Leoni: A Adriana falou que o Cícero se tortura muito com a forma e que ela começou a ficar assim também, eu até achei engraçado, ela disse que já que ia compor, ia ser rigorosa. Eu acho que música pop não é tão rigorosa. Claro que você não vai fazer mal feito. Mas às vezes é uma coisa que apareceu do nada e que se você for "consertar" pode estragar uma emoção...

: Eu acho que tem que parecer assim para os outros.



Leoni: Mas nunca aparece uma coisa assim para você? Algo que você sente que não pode mexer?

: Algumas coisas sim, outras não. Tem que fazer ficar mais ainda assim, você está entendendo? Tem uma lapidação, tem sim. É o que o Alvin não entendia muito. Eu acho que pela forma dele trabalhar, que é diferente.



Leoni: E o que o estudo de filosofia trouxe de novidade para o trabalho: temática, abordagem...?

: Mais repertório, mais temática, mais assunto, outros assuntos, tanta coisa. E filosofia, religião, metafísica, é morte, é Deus e o tempo. O tempo vai passando e surgindo outros assuntos, fica menos papai e mamãe. As histórias ficam mais sofisticadas, mais interessantes, os detalhes são outros. Isso que eu falei em relação a música: outras camadas. Tem sempre uma camada que você descobre, outra porta para abrir. E eu acho que compondo também é assim. Quanto mais você estuda, quanto mais conhecimento, de música ou no geral, mais opção de assunto, de temáticas, de dúvidas, de questionamentos. O trabalho fica mais rico.



Leoni: E você já teve alguma crise de achar que nunca mais ia compor? Porque o Elvis Costello diz que a saída para essas crises, é que você cresce e muda de assunto. Porque se ficar adolescente, tem uma hora que acabam os assuntos de adolescente, mas aí você cresce e muda para outros assuntos. Ele nunca acha que vai parar de compor porque não vai parar de viver e crescer.

: E isso aí, respondida a minha pergunta. Eu acho que é por aí.



Leoni: Já teve alguma época em que você não conseguia compor nenhuma melodia?

: Não. Eu trabalho bem sob pressão. Agora descobri que muito importante para mim, para eu não me sentir seca, é não parar de estudar, não parar de estudar música, não parar de praticar. Não ficar sempre contando com o que você já sabe, aumentar sempre o seu repertório, ampliando a técnica.

Comecei a ler música de novo. Para mim está sendo bacana. Não é nada, mas são coisas que você vai entendendo melhor, o quebra-cabeça vai ficando maior e mais claro também. Então eu acho que se parar de estudar, de cantar, de tocar, vou achar que não vou conseguir. Porque eu já fiz tudo com esse repertório e aí? Então, eu acho que uma coisa puxa a outra. Uma desvantagem das cantoras é não tocar nenhum instrumento. Tem que tocar algum instrumento, não atrapalha cantar, ao contrário, te dá mais segurança tocar uma guitarra, um violão. Porque não tocar nada é difícil.



Leoni: Uma coisa que me chama a atenção, é que tem mais cantoras intérpretes do que compositoras. Então os assuntos tipicamente femininos são menos cantados, as mulheres acabam cantando o que os homens dizem. O Chico compõe muito bem para mulher, mas é um homem compondo, e quando uma mulher fala, fala diferente.

: É, mas acontece também, Leoni, que o mundo está ficando mais igual. Tem certas coisas que não, tem assuntos que são mais femininos mesmo. Mas as pessoas estão com menos medo um do outro. Está mais fácil para eu entender o mundo masculino. Para mim isso não é muito importante.

Hoje em dia as questões que interessam às pessoas são menos segmentadas, menos masculino e feminino. O que interessa à gente? A questão do tempo, do mundo que não deu certo, não deu certo todo o ideal que a gente tinha. Não deu, os governos não deram certo, nada deu certo. Tem que se reinventar uma nova coisa, eu fico achando que essa questão do homem e da mulher é uma questão menor. Mas eu acho que a gente tem que estar unido para saber qual a nossa função aqui neste lugar, entendeu? Essas são questões, que importam agora. Elas são comuns ao homem e à mulher como ser humano, entendeu? Achamos um ponto em comum, paramos de prestar atenção em tanta diferença para prestar atenção nas nossas semelhanças mesmo. Eu acho que o momento é esse.



Leoni: Por que você acha que tem menos mulher compondo?

: Eu acho que sempre teve menos mulher. É uma questão mesmo da estrutura, é uma coisa atávica. No decorrer da história toda, a gente sempre foi mais reprimida. Foi-nos dada a oportunidade de sair da porta dos fundos há relativamente muito menos tempo do que aos homens. A mulher era muito importante quando a gente a associava à natureza, a que gera o homem, a que gera a humanidade. A Camile Paglia diz uma coisa que tem a ver com isso: depois da revolução industrial, o homem conseguiu aprender a se virar com comércio, com uma porção de coisas, a mulher perdeu um pouco a importância.

A mulher tem muita importância à medida que representa a geradora de tudo, uma ligação com a natureza. Mas enquanto a gente estiver distante da natureza, como agora, a mulher não tem essa importância mais. O homem se vira, até pílula para o homem estão inventando. O mundo mudou, entendeu? Mas eu acho que certas questões que são comuns da gente, são muito importantes de serem vistas neste momento do mundo.

Nós sempre fomos muito diferentes e segmentadas, era difícil o homem e mulher serem amigos, namorados, confiarem um no outro. Isso está acabando, isso é bom. A gente fica com menos medo um do outro, a gente descobre muita coisa em comum. E bom falar disso também. Agora as mulheres estão mais fortes. Elas começaram a se acostumar mais a esse lugar, sair da toca para um lugar de liderança. E aos poucos vão surgindo mais, é uma questão de costume. Você não acha não? Costume, daqui a pouco isso vai ser normal.



Leoni: Eu já fiz muita música para mulher, gosto de compor para mulher, porque ela permite uma abordagem e uma visão diferentes...

: Mas é uma visão que o homem também pode ter. É questão de trabalhar mais. A mulher trabalha muito a espera. Homem é ação, mulher é espera. É muito diferente, mas todo mundo tem. Nós temos isso um do outro. Nós somos diferentes, mas não somos tanto. Isso na realidade me tranqüiliza muito, porque quando era muito diferente, aquilo me incomodava, eu ficava com medo, entendeu? Achava que era clube da Luluzinha, acho que o mundo não é bom assim. As pessoas têm que se unir.



Leoni: E com o Pat McDonald? 18 Como é que foi o seminário, a parceria com ele?

: Ele foi uma espécie de Cícero que eu conheci, só que do Texas. Acho que atraio esse tipo de ET. Ele escreve muito bem, tem o domínio da língua inglesa, é um cara completamente cult. A gente se encontrou em um seminário, era um encontro de compositores na França e estávamos juntos eu, ele e um arranjador da Califórnia chamado Reed Ver Telney para fazer uma música. Eles não tinham nada para apresentar. Eu tinha uma musica, só música, não tinha letra, meio que nem "Grávida". Eles gostaram e trabalhamos nessa música. Ele fez a letra comigo e o Reed fez o arranjo. Mas era um grupo de três para serem parceiros, era isso e foi muito bom. Foi tão legal que ele veio para o Brasil depois, passou duas semanas aqui, a gente compôs outras músicas, umas quatro. Eu gravei um disco que saiu lá, gravei "Chamado" em inglês, gravei "Meus irmãos" em inglês, gravei "Carente Profissional" em inglês, quatro ou cinco músicas .

Mas essa coisa de exterior é legal e tal, mas minha carreira é aqui, eu não tenho muita vontade de investir numa carreira no exterior. Moro aqui, se é difícil começar aqui estando aqui, imagina lá não estando lá. Eu não tenho vontade de sair do Brasil. O mercado é muito competitivo, se quiser tentar, tem que, ao menos, morar lá.



Leoni: O que mais que teve nesse encontro?

: Uma coisa que dá muito dinheiro lá fora é edição. Então o Miles Copeland, empresário do Sting e irmão do Stewart Copeland, é um editor podre de rico, tem um castelo no sul da França e uma vez por ano ele organiza um grupo de compositores, convida, hospeda, alimenta para fazerem músicas para publicarem com ele.



Leoni: E você editou "It's Not Enough" com ele?

: Editei. Você não tem obrigação, mas ele espera que você retribua.



Leoni: Ele só juntava as pessoas?

: Só juntava as pessoas, reunia todo mundo que conhecia, ele mesmo organizava de um jeito que achava que ia funcionar. É um empresário. Muito inteligente.



Leoni: Acho que só no Brasil o grosso do dinheiro não está na edição, pelo menos no que diz respeito aos compositores. Porque em todo livro de music business que eu já li as opiniões são unânimes quanto a isso.

: O que tinha de gente que só compunha e que ganhava muito mais dinheiro que eu, gente que tinha rancho e que eu nunca ouvi falar.



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Leoni: Agora um pouco da sua rotina. Você compõe e grava, você confia na memória?

: Olha, quando eu acho que está boa a idéia mas não está muito amadurecida, não vale a pena gravar, entendeu? Se eu for de novo pegar no instrumento e vier de novo o esboço e sentir que aquilo é uma coisa forte, eu gravo. Como uma linha, como um ponto de partida, porque depois vou querer ficar trabalhando para ter certeza de que aquilo realmente é bom, não é só uma mera inspiração, mas que não tem pé nem cabeça, que não tem uma base.

Eu gravo sim, eu gravo, ouço muito, aí tento de novo...



Leoni: Grava em K7, quatro canais?

: Gravo primeiro em cassete. Depois começo a gravar já num outro lugar. Primeiro tento me concentrar naquela harmonia com aquela melodia e aquela levada. A mão direita é muito importante porque te inspira a melodia. O Djavan por exemplo, o violão dele é que o inspira compor daquele jeito.

Eu gravo tudo em cassete, depois quando começo realmente a trabalhar mais a música, tento já gravar um pouco melhor do que aquilo. Tenho um quatro canais, aí eu gravo um violão, uma voz, uma idéia de arranjo, uma idéia de levada. Mas não logo no início. Trabalho com aqueles poucos elementos para ver se é aquilo mesmo.



Leoni: Você deixa músicas um tempão antes de terminar, tem músicas que começou há dois anos e que não conseguiu terminar?

: Não. Posso ter uma música que deixo durante um mês sem terminar e já fico achando que não devo estar gostando muito. Tem músicas que fiz e que já não lembro mais, eu esqueço. Tem músicas que já gravei que não sei nem como tocar. Primeiro, não tenho os meus discos, tenho muito poucos. Uns dois, não gosto, ouço muito defeito.



Leoni: É, em geral os artistas não têm seus discos. Eu não tenho, o Evandro não tem todos os discos dele, o Herbert não tem todos...

: Eu tenho uns treze discos gravados e acho que tenho uns dois ou três.



Leoni: Quais daquelas músicas que você acha que acertou, aquelas que você gosta? Que olhando para trás no seu repertório, pensa: "bom, essa é um clássico prá mim".

: Quantas que eu posso escolher? Posso escolher uma de cada disco? Então vou escolher uma de cada disco. No primeiro, acho que é "Transas de Amor"...



Leoni: Essa foi um poema que o Cícero musicou?

: Não, foi mais ou menos. Essa foi uma das últimas daquele disco e foi quando a gente começou a fazer uma coisa meio que cantarolando a melodia, mas não era uma melodia inteira, eu fiz um pedaço, ele musicou. A gente estava começando a fazer junto.

Do segundo eu não sei, não gosto muito dos arranjos assim, é um disco que me incomoda mas tem "Só Você" que é uma música que eu gosto.

O terceiro já tem, tem "Charme do Mundo", tem "Seu Nome".



Leoni: "Charme do Mundo" era uma música que me inspirava muito para escrever letra. Eu gostava da melodia mas tinha uma coisa da letra: "tudo o que eu quero, sério...", essa coisa de brincar com o ouvinte, como se tivesse conversando. Aquilo eu achava tão despretensioso, e tão bem feito...

: Mas é isso, aquilo não era à-toa. A gente fazia aquilo sabendo o que estava fazendo. No quarto disco tem "Acho que Dá", tem "Depois me Diz" também que eu acho bonita, mas escolho "Acho que Dá". "Fullgás" tem "Fullgás", tem "Prá sempre e mais um Dia", que eu adoro. Em "Todas" tem "Por querer" e "Já Fui". Depois tem o "Todas" ao vivo que tem "Prá Começar" de música inédita e que eu adoro.



Leoni: O "Próxima Parada" é um disco meio estranho. Eu achei que não era nem o trabalho que estava vindo antes nem o trabalho que viria depois.

: É um disco também meio que nem "Desta Vida Desta Arte", é um disco de transição. Mas tem uma música que eu adoro que é "Encarando você". Essa música é bonita, é meio uma crônica do dia-a-dia no Rio.

Ah! Mas o "Virgem" tem "Virgem" que eu gosto muito. No "Marina Lima" tem várias que eu gosto. Tem "Grávida", eu gosto de "Criança", gosto de "Acontecimentos", gosto do "O Meu Sim"... E no "Chamado", eu adoro essa música "O Chamado", gosto dela. Gosto daquela com o Alvin, mas o que eu mais gosto é "It's Not Enough" e "O Chamado".



Leoni: Quem que você admira como compositor no Brasil e no mundo?

: No Brasil. Bom, vamos pela geração mais velha? Eu admiro muito o Chico, acho que ele escreve muito bem e tem umas melodias e harmonias muito bonitas. Comprei um songbook dele que eu fiquei besta de ver. O Chico Buarque é um, o Gil eu gostava mais antigamente, já me inspirou muito. Ultimamente não estou tão ligada e Tom Jobim eu acho que é o maior compositor brasileiro de todos os tempos.

O pessoal mais novo agora, vamos ver: acho que o Lulu tem algumas: "Condição", é uma música maravilhosa, o melhor de Lulu está ali, sabe? Lobão fez "Me Chama" que é uma canção linda, fez mais algumas bonitas que não apareceram tanto. Você fez músicas lindas com o Kid que foram muito marcantes, essa mesmo "Como eu Quero" é uma música muito interessante, que fala coisas que você não espera. "Fixação" também. Não conheço a fundo o repertório, tem algumas que eu me lembro. Grandes sacações também, coisas que como quem não quer nada mudavam tudo, mudava todo o rumo da história, o final era diferente, não é? As pessoas tinham outro tipo de questionamento, outro tipo de angústia, eu adorava o nome daquele disco "Educação Sentimental". Achava inteligentíssimo aquilo.



Leoni: E, tinha a ver com a gente. Estávamos amadurecendo em público.

: Herbert, eu acho um grande compositor. "ê batumaré" é um disco que tem músicas lindas. Cazuza! Você sabe? O Stevie Wonder foi um cara muito importante para mim na época. John Lennon e Paul McCartney é uma aula, uma escola de como fazer boas canções. Você ouve aqueles discos, ouve Abbey Road, Sargent Peppers, aquilo é uma aula. Tem influência até no Nirvana. Kurt Cobain para mim é um grande compositor. Não é à toa que tanta gente grava, é porque aquilo é muito bom de cantar.



Leoni: Às vezes fica meio escondido naquele arranjo pesado, meio sinistro, aí você pega, toca no violão...

: É lindo, lindo! Eu adoro as canções desse cara, ele é muito bom. Stevie Wonder é um gênio, eu ouvi o último disco dele e não sei. Talvez já tenha tido suas melhores sacadas, não sei. Mas é um cara que permanece para mim com uma importância enorme.



Leoni: Você tem alguma dica, alguma coisa que descobriu como compositora e que funciona para você?

: A mesma coisa que eu digo para cantor: tem que saber tocar algum instrumento, porque se não souber, tem metade do caminho contra você. Quando você compõe, pode ter um dom para compor uma melodia, mas o arranjo é como se fosse a roupa. Se não sabe um pouco de música, pode vir alguém e fazer aquilo ficar lindo, mas pode acabar com aquilo. E muito importante saber ou pelo menos ter noção de algum instrumento. Tentar investir num instrumento, porque é a base. Se não, você fica muito indefeso para defender aquilo que é teu. Porque na realidade não sabe expressar, não sabe explicar, não sabe mostrar, outra pessoa vai ter que criar e você vai ter que aceitar.

Então é importante, porque quanto mais conhecimento você tenha sobre o que se propõe a fazer, mais chance de realizar um bom trabalho. Se você fica apostando muito em intuição, no puro talento, isso é muito bonito, mas não funciona hoje em dia. Tem muita gente que tem isso e tem a teoria. Então é muito importante não ter medo do conhecimento teórico, do conhecimento musical. Porque isso tudo é feito para te ajudar, não para atrapalhar. Se você não toca nada, como é que pode evoluir? Vai ficar na mesmice sempre. E a única forma de ter uma carreira que tem um começo, uma evolução, um desdobramento ali, de ter uma carreira interessante, se garantir em diversas coisas, quer dizer, tocando instrumento. Se você faz música então saiba tocar.

Essas cantoras de ópera, todas elas sabem tocar piano. São cantoras de ópera, e tocam para ajudar, para treinar, para poder criar, entendeu? Para o compositor, saber tocar um instrumento é lei. Para o cantor também. Vai sempre ser uma força, isso eu aprendi com o tempo. As vezes em que eu me afastei um pouco, em que a carreira me solicitou demais, que tive que ficar fazendo o social da carreira, me dei mal porque meu trabalho em qualidade caiu muito. Tento sempre um jeito de deixar metade do ano para que eu possa estudar canto, estudar violão, sabe? Estudar é muito importante. Leoni: Os artistas e especialmente os de rock passam uma imagem de que as coisas caem do céu e na verdade todo mundo trabalha; um bocado, mas faz questão de esconder esse lado. O Herbert, por exemplo, estava falando que trabalha muito, tem a disciplina de todo dia entrar no estúdio para trabalhar, porque a idéia não aparece ali quando ele está no "escritório"...

: Eu acho até que aparece, mas aquilo é pouco, ele quer mais, ambiciona mais.



Leoni: Ele falou que não aparece. Se ele diz: "Vou sentar e compor uma música", não sai nada, tem que estar brincando, às vezes não dá em nada e às vezes aparece alguma coisa. Aí ele vai para estúdio e trabalha, trabalha, e trabalha. Isso a gente esconde um pouco das pessoas, não é nem a gente...

: Tem umas pessoas que escondem, não é? Tem gente que gosta de ficar criando mito e tal. Eu não...



Leoni: O Renato fala, por exemplo, "mas eu não sei tocar violão!" O Renato não sabe tocar violão? Ele toca bem, gravou um disco tocando músicas dos outros, tocando violão pra cacete. Ele diz que não é assim, "eu componho desse jeito porque não sei tocar"

: Então, não dá para entender.



Leoni: E o que te inspira? Você senta e compõe ou bota uma música antes, lê alguma coisa?

: Não! Tudo isso vai pesar num momento, alguma coisa que eu fiz e que ouvi, alguma coisa que li. Tudo isso vai aparecer depois. A gente fica se alimentando e as coisas vão para o inconsciente e na hora que você começa a dar à luz uma criação tua as coisas aparecem das formas mais diferentes. Elas não estavam perdidas, estavam ali só esperando a hora de sair. Tem certas coisas que você ouve, que são, de certa forma, dicas e influências.

Esse disco "O Chamado" tem muito a ver com perda, então eu estava meio impregnada de um sentimento melancólico, de uma coisa que não era derrotada, era realista. Eu tinha me machucado e tive que lidar com coisas que eu não estava preparada. Não podia sair chutando o pau da barraca, tinha que saber lidar de uma maneira civilizada com a vida, tinha que aprender com aquilo. Então "O Chamado" tem muito a ver com isso, são músicas sutis que vieram de formas sutis também, não foi simples. Porque realmente aqueles assuntos do começo não me interessam mais. Eles nem vêm mais, já foram vetados há tanto tempo.

Naquele disco "Próxima Parada" já estavam vetados, então os assuntos já mudaram mesmo. Atualmente eu falo de coisas que me emocionam, coisas que eu quero dar vida, algumas coisas que vivi, às vezes pequenas histórias, nem uma história inteira, com começo e fim. Pode ser uma pequena coisa que aconteceu que me trouxe alguma luz, quero tornar aquilo vivo, quero eternizar. Eu acho que componho, toco e canto para eternizar momentos da minha vida. Momentos muito importantes que eu cantando, gravando, vão estar sempre ali para serem lembrados. O Drummond disse uma vez: "Cansei de ser eterno, quero ser moderno", eu não quero ser moderna, eu quero ser eterna.

Esse negócio de disco fica para vida inteira, show passa, um dia é bom, no outro nem tanto. Mas disco é para vida toda.



Leoni: A minha impressão é que disco a gente faz mais para a gente e show faz mais para o público. No show, aquele contato ali cantando, você tem que agradar aquelas pessoas naquele momento. No disco você pode dizer outras coisas, nem tudo vai tocar no rádio.

: O disco é uma obra, um álbum, um registro sobre aquele momento, é como escrever um livro. É o que conta na realidade, é meu. Quero descobrir a eternidade das coisas, achar essas coisas. Ser moderna, quando a gente está ligada, atenta a tudo o que está acontecendo, está viva, faz parte. Agora você achar o que realmente tem importância e valor em tudo isso, para mim pelo menos é algo que está me interessando.



Leoni: Teve uma vez que eu estava discutindo com o Beni, meu parceiro, essa coisa do rat race 19 que é uma atitude meio americana. Todo mundo briga por si mesmo, briga por dinheiro, por poder e os valores vão se deteriorando e em alguma hora vai ter que voltar a ser moda, ter valores, ter ética, se a gente não pensar em coisas maiores vira esse caos que está aí.

: Meus interesses são estes nesse momento, acho que sempre, mas agora é muito claro para mim. Escolhi o repertório desse disco um pouco baseada nisso. São coisas que gostaria de dizer, que poderia ter escrito. São grandes músicas que não fiz, que têm a ver com o que eu quero dizer neste momento.

-F I M-

1 Tecladista, organizador e produtor muito requisitado nas décadas de 70 e 80.
2 Produtor de diversas estrelas de MPB como Simone, Milton Nascimento e Ney Matogrosso.
3 Produtor.
4 Guitarrista, compositor e produtor.
5 Oficina Literária Afrânio Coutinho, no Rio de Janeiro.
6 Cheias.
7 Antigo teclado eletrônico, barato e limitado, muito usado na época do new wave.
8 Universidade Federal do Rio de Janeiro.
9 Tipo de música que tem uma visão mais blues, menos reta. 10 Fluência rítmica na mão direita.
11 Outra palavra de definição impossível. Suingado pode ser, mal traduzido, por balançado. A música do Jorge Ben Jor é muito suingada.
12 Baterista da banda da Marina.
13 Léo Gandelman, saxofonista, compositor e produtor.
14 Frase musical marcante e repetida que é a base de uma parte da música.
15 Dedilhado.
16 Nico Resende, tecladista, compositor, cantor e produtor.
17 Guitarrista que já participou do Rádio Táxi e hoje tem uma escola de música em São Paulo.
18 Compositor e cantor da banda americana Timbuk 3.
19 Corrida de rato.

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