Volta
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Revista SuiGeneris Nš8 - Dez 1995

Marina Livre

Mexe daqui, avisam que Marina está em Nova York. Remexe dali, Cristina foi prá Paris. E, de repente, alguém descobre: gente, Marina e Cristina estão de volta e estão no Rio! Não é possível... agora é o Zeca que tá em Nova York1?

Assim as semanas se passavam e parecia improvável juntar Marina Lima, Cristina Franco e Zeca Camargo para nossa entrevista especial de fim-de-ano. A própria Marina, tranquila, foi quem deu o veredito:"Vai dar pessoal, vamos tentando até todo mundo poder". E num desses sábados de Outubro, finalmente, todo mundo pôde e a entrevista aconteceu, no salão Debret do Hotel Glória.

E valeu a pena esperar! São oito páginas de um hype papo com nossa estrela maior: Marina Lima!.

(Capa: direção de arte Giovanni Bianco, foto Willy Biodani, moda Rui Cortes, cabelo e maquiagem Mauro Freire)

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Marina não quer dizer para as pessoas o que elas devem fazer - a não ser "façam o que vocês têm vontade de fazer". Enigmática?

Talvez equilibrada seja um adjetivo melhor para a Marina Lima de agora, disposta a somar forças sempre que algo do bem pode vencer.

Foi assim ao sugerir Cristina Franco e Zeca Camargo para assinarem essa entrevista e ouvirem que Marina está feliz por lançar seu Abrigo e pronta para lutar pela voz (e pela vez) da mulher. Com sua próprias armas.



...

Z: Dá para falar que cada disco é uma nova revelação onde você conta um pouquinho mais sobre você?

: Acho que sim, porque eu mesma descubro cada vez mais coisas sobre mim.




Z: Mas é natural do artista se sentir cada vez mais à vontade para contar mais sobre si?

: Bom, sempre procuro contar o que eu sei sobre mim, o que eu quero falar no momento. Mas, com esse disco é até uma ironia você dizer isso, porque não é um disco de autor - é um disco de intérprete. Estou falando de mim através de outros autores.




C: Bom, minha especialidade não é música, mas eu sinto que existe aí um... como eu vou dizer... o nome do disco é Abrigo - algo que você usa para se proteger, para se esconder. Como fica essa dualidade?

: Eu acho que você se esconde. Mas isso é uma coisa do instinto do ser humano, do animal. Cada pessoa tem seu abrigo - e isso não é a frescura. Então para mim, esse nome, significa um lugar onde eu me sinto bem e onde eu posso até me expor mais, porque me sinto protegida de ataques alheios.




Z: Dá para tirar mais uma conotação daí. Abrigo é algo que você procura quando cansada. É o caso?

: Não foi isso. Eu tinha feito um disco anterior, O Chamado, que era muito autoral, quase confessional, falando da minha vida, de mudanças, onde eu tinha chegado... Quando você lida com certas coisas como morte, ou perda, isso muda sua visão do mundo. E O Chamado era sobre isso, quase um disco melancólico.

Aí, eu fui muito surpreendida porque ele teve uma acolhida bárbara - e o show foi um sucesso. Fiquei feliz porque as pessoas se interessaram por essa fase minha - não queriam só o enfeite, a alegria - não era uma coisa tão rasa assim. Eu quis retribuir.

Por isso que a banda está na capa. Eu tive abrigo com aqueles meninos. Então é você se sentir abrigada por coisas boas que te dão coragem de ir, de continuar, de não desistir, de sempre querer descobrir coisas boas.




C: Bom, 40 anos... Eu não acredito em coisas muito esteriotipadas, mas essa idade não é algo muito simples na vida de uma mulher, por uma série de razões até por ser um "deadline" biológico.

: É, certas decisões têm que ser tomadas mesmo.




C: Como você está lidando com isso?

: Eu sempre tive um fascínio por essas idades importantes. Eu sempre quis envelhecer, viver os 30, os 40. Os 30, eu ligava à autonomia, realmente ia ser dona da minha vida. E os 40 ao momento posterior, depois que eu vivi os 30... eu já passei, já vivi, não tem como voltar para trás - e nem eu quero.

Primeiro tem a coisa da beleza física. Não sei se é aos 40, mas é aí que você toma contato com isso. É o que a Cristina disse, é um deadline mesmo, em relação até a filhos, por exemplo. Eu tive um instinto maternal muito grande, sempre tive vontade de ter filho - sempre não, depois dos 30. Isso é uma coisa que tenho que decidir. Porque depois não tem volta.

Ao mesmo tempo não depende só de mim porque eu acho que é bacana ter um pai, um pai que eu respeite, que eu acredite. Acho que a criança merece ter esses dois referenciais, um masculino e um feminino.

No momento, tudo isso está um pouco afastado. Talvez eu acabe exercitando isso adotando uma criança, eu não sei. Porque os pais que imaginei, os homens que eu imaginei que pudessem ser pais para os meus filhos, são meus amigos.




Z: Mas pelo que você está falando, você não está no espírito de ter um filho agora.

: Eu não estou não. Mas, engraçado, esse disco agora é o mais longo da minha carreira. Levou nove meses para ser feito. Eu coloquei muita criação, muita energia, tive que parir um trabalho. Até porque eu não fiz sozinha, eu tive vários parceiros.




Z: Vários pais?

: É, inconscientemente parece que joguei uma energia para isso. Mas, com relação aos 40 anos, eu estou muito interessada.Tem uma frase da Nélida Piñon, que é: O conhecimento me excita. Eu falei: nossa, que frase linda.

Tem muitas coisas que eu não sei, que eu quero saber. Quando eu aprendo coisas, eu fico tão feliz porque eu não sei tudo ainda.




C: Você fala que o conhecimento é importante. Quando é que você começou a sentir que a Marina começou a ter força, a ser até um pouco complicada para a Marina Lima?

: No disco Virgem. Ali foi um marco. Eu vi que existiam muitas armadilhas: eu podia virar uma bonequinha, perder muito minha identidade, minha individualidade. Ali eu poderia ficar aprisionada. Você pode de repente acreditar nessa coisa de mídia, virar uma prisioneira.




Z: Mas aí você se vende demais.

: É, mas essa é uma linha muito tênue, que você ultrapassa e não percebe. Acho que eu ultrapassei um pouco no Virgem. Isso tem um preço muito grande e eu fui cobrada. Tem que achar esse equilíbrio assim: o que eu quero dar e o que eu suporto de cobrança depois. Isso é um aprendizado do dia-a-dia.




C: É, é complicado lidar com todas essas personas.

: Em Virgem, senti que eu corri o risco de me confundir.




C: É engraçado, né? São várias histórias: Virgem, Próxima Parada, Chamado...

: É, são dicas do período que está se passando. Próxima Parada foi um disco de transição, onde eu tentava me recolocar, qual era minha posição diante da mídia, do público. Era um êpa! É assim que eu quero, é assim que eu permito, é assim que eu sou, e é assim que vai ser. Você tem que ir se reafirmando - uma mulher, que é difícil, porque a gente às vezes é vista como enfeite, como fetiche, acho que isso é uma coisa ancestral.

Na verdade, uma mulher, quando ela pensa e tem coisas a dizer e também ela é bonita, é muito fácil colocarem você logo como uma coisa de imagem. Eu percebi muito isso no lançamento desse disco. Certos jornais realmente não estavam interessados no que eu tinha a dizer, mas no que eles tinham a dizer sobre mim.

Os homens têm interesse em ouvir o que a gente tem a dizer. Publicar, eu acho que ainda não. Você entende o que eu estou falando, Cristina?




C: Entendo. Eu acho que os anos 80, foram eminentemente yang - aquela coisa toda do poder. E os anos 90 são eminentemente ying. O número de mulheres que têm espaço hoje e estão fazendo coisas interessantes é enorme. As mulheres que têm voz têm que lidar com essa coisa yang, da atitude, e seu lado ying. Como você administra isso?

: Essa é uma pergunta excelente porque, no começo eu não sabia administrar isso muito bem e caía nesse jogo e reagia com uma postura muito yang. Mas você briga e se enfraquece. E eu não queria abrir mão do meu discurso, que é mais ying, minha ótica é mais feminina. Porque é diferente mesmo, a Cristina sabe o que ela está perguntando.

Você quer ver? Têm muito poucas mulheres jornalistas. Eu lancei meu disco agora, falei com mais de vinte pessoas, mas só uma era mulher. Não é por nada, mas seria mais fácil. Se eu converso com uma cara de um jornal, ele se interessa, mas...




Z: Mas essas coisas não interessam a grande mídia. Por que você insiste em lidar com ela?

: Vale a pena lidar com ela sim. Não quero me isolar, me sentir num gueto. Eu acredito no mundo, acredito nas pessoas. Eu estou falando disso, mas volta e meia tem matérias que são bacanas, que me deixam muito contente. Sou brasileira. A gente tem fé, a gente tem uma coisa otimista, que é bonita, que é inocente. Vou sempre tentar, se uma coisa boa pode vencer.

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Z: Mas então você lida com uma grande frustração também.

: É Zeca, eu lido, mas acho que faz parte. Eu sou mulher, deve ter mulheres que viveram isso muito pior do que eu. Eu estou tentando me preparar para lidar melhor com isso, não ter tanta raiva.

Tem duas palavras que acho maravilhosas no Cristianismo: compaixão e desprendimento. Não adianta, as pessoas não são o que você espera e você tem que aprender a lidar com frustração.




C: Como é que você lida com perdas?

: Eu tive que encarar com a morte do meu pai. Ele era um homem muito cerimonioso, muito culto, muito inteligente - um homem por quem eu tinha um respeito enorme, uma admiração, mas também uma cerimônia.

Então, acabava que eu tinha uma relação assim com os homens, distante, sem intimidade. Mesmo tendo um irmão que eu gosto como o Cícero, mas o pai é o pai. E quando meu pai ficou doente, ele ficou mais frágil. E aí nós nos aproximamos. Ele morreu nessa hora. Então foi foda para mim, foi muito dificil.

Ao mesmo tempo foi um ganho, porque a morte do meu pai, de certa forma, mudou minha relação com os homens. Meus olhos começaram a ver os homens muito mais sensíveis, sem tanto preconceito.




Z: E eu acho que perda alguma é igual. Parece que, quando você perde alguém, você nunca aprende. Cada pessoa que você perde, você tem que lidar com uma parte do emocional.

: Eu acho, porque você vê como é que você reage, quais são suas fraquezas. Prá mim, meditação foi muito bom prá isso, eu queria entrar em contato com minha emoção e crescer aí.




Z: Você aprendeu muito com a meditação?

: Sabe quando você sonha? Você vê coisas no sonho que são reveladoras sobre você? Meditação é assim, como se você entrasse em contato com teu inconsciente, só aquilo vem e você logo tem consciência de tudo. São como "insights" muito rápidos que não escapam, ficam.




Z: Eu nunca fiz meditação, posso estar perguntando uma bobagem, mas que Marina você via?
C: Zeca, você já trabalhou com televisão. É aquela coisa sofisticadíssima da tua imagem estar projetada no vídeo. Meditação é altíssima tecnologia individual. Eu hoje em dia só acredito numa coisa que se chama energia.

: Eu também. E quando você começa a lidar com ela, você já sabe quem vale a pena ou não. Você já não perde muito tempo com o que não vai ser bom para você. Não insiste mais no que dá errado.




C: Acho isso muito importante e é um caminho sem volta.
Z: Sem misticismo?
C: Não é religião, pelo contrário. Eu fiz análise com pessoas geniais, mas depois que a gente entra nesse processo, perde totalmente o interesse. Quando você estuda filosofia chinesa, tudo o que eles ensinam é você lidar com a tua emoção. Pense com o coração e sinta com a cabeça.

: A gente trabalha muito com o lado esquerdo do cérebro que é o lado das obrigações, da disciplina. Todo o resto, o lado direito, que é ligado à sua graça, ao seu talento, a gente não trabalha. Quando a gente medita, entra mais em contato com esse lado. É o lado que te faz uma pessoa mais feliz, mais equilibrada com o que você quer e com o que você tem.




Z: Então você está bastante feliz?

: Acho que estou. É o que eu falei. Aqui no Brasil, a gente tem que ter fé, tem que acreditar nas coisas, tem que ter boa vontade.




Z: É a felicidade de estar bem.

: Não estou em todos os momentos. Mas estou mais equilibrada.




Z: Eu tenho a impressão de que você diz que está meio que crescendo emocionalmente sozinha. De alguma maneira, uma relação amorosa não te eleva emocionalmente também? Parece que você está considerando muito você e pouco as pessoas que você amou.

: Eu acho que a gente tem a obrigação de chegar, pelo menos um pouco pronto para o outro. Eu acho que é muito chato que alguém espere tudo de você e ache que não tem que entrar com nada, que você é responsável pela relação. Eu acho que cada um é responsável. Não é uma subtração, é uma soma.




Z: E cada relação amorosa é uma nova exploração? Eu acho que, assim como a perda, nunca é igual quando você começa a se mostrar emocionalmente para outra pessoa.

: Reparei que algumas coisas que me atraíam quando eu comecei a amar, quando eu era adolescente, não são o que importam hoje. Os interesses são diferentes agora, eu não sou a mesma pessoa que eu era.




Z: Você não procura o mesmo tipo de pessoa que você procurava?

: Eu não sou mais a mesma pessoa.




C: Eu acho que para as pessoas que lidam com criatividade, com arte, é muito importante essa coisa da paixão. Quais são os sentidos da paixão?

: Isso é um quebra-cabeças, acho que até hoje não consegui entender a paixão. É uma coisa que me enlouquece, às vezes eu evito mesmo. A paixão mexe com o irracional, não tem explicação. Mas eu acho que uma pitada disso é importante sempre, porque te sacode.

Quando você acha que está tudo sob controle, a vida perde um pouco a graça. Comigo então, que sou virginiana, uma pessoa muito organizada, com toda uma rotina, quando aparecem coisas que puxam meu tapete eu fico desesperada. Mas eu não consigo resistir.




Z: Não há por que se arrepender disso?

: Arrepender, nunca!




Z: Já se arrependeu?

: Não. Depois, nunca. Durante, muito (risos).




Z: Mas o que acontece quando você se entrega, que te faz às vezes se arrepender?

: O que acontece? Nossa, aprendo que não sei nada, que sei muito pouco. Tudo que eu acho que consegui, certos crescimentos, ser menos egoísta, ser menos geniosa - você fica vendo os aprimoramentos que ainda faltam (risos). Mas acho que é muito importante. A paixão move, ela modifica tudo.




Z: O público está sempre pensando no que você está cantando atrás dessas músicas. Você diz que isso aconteceu em Virgem muito forte e isso nunca te abandonou. Você não acha que o público está sempre escavando alguma coisa?

: O público é sempre curioso, mas você responde ou não - responde com um disco, pode dar menos, pode dar mais, e o público tem que se conformar, porque é assim o jogo.




C: A gente sente que você é uma pessoa tímida e eu vi essa foto agora (a da capa) que é ousada, com esse decote, produção do Giovanni (Bianco)... aí é engraçado, a foto, a foto e você, como eu vi vestida em outras vezes. Por que isso? 40 Anos?

: É verdade. Eu nunca gostei muito de foto - sempre achei que pudesse ficar aprisionada - eu fico mais à vontade em vídeo, porque acho que ele pega um todo, o movimento. Mas fiz uma seção de fotos nos Estados Unidos com o Paulo Sunday e me entreguei mesmo, olhei para a câmera, foi reveladora a seção. O Giovanni gostou da foto e eu falei que queria uma coisa parecida com isso.

Tem uma coisa que é a meu favor mas também é contra: eu quero ter 40 anos. Dizem muito que eu não pareço, mas eu quero ter (risos), tenho o direito de ter. Me deixe com meus 40 anos. Não quero ficar parecendo que tenho menos, como se fosse um problema. E queria estar com a minha banda na capa. A partir disso o Giovanni, que é muito inteligente, pensou e voltou com essa idéia.

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Z: Você é mestre em controlar sua imagem e é com grande facilidade que você pode se arriscar tanto a ponto de se vestir de homem (como já fez no palco) e, ao mesmo tempo se resguardar. Você gosta um pouco de provocar o público e a mídia?

: Quando falo assim da imprensa, não estou querendo me queixar porque sou uma pessoa que quer que as coisas boas vençam mesmo. A mídia, o bacana dela é educar, ela mostrar às pessoas as opções que existem. Não quero que certas coisas fiquem mais importantes que meu trabalho.




Z: A sexualidade, por exemplo?

: Às vezes isso nem é tão importante para mim, eu descobri isso com o tempo. Nesse momento, de uns dois anos para cá, eu descobri que muito mais do que ficar falando questões pessoais da minha vida, preferências, eu me identifico muito mais com questões coletivas. Então eu, ficar fingindo que não são importantes palavras como solidariedade, fraternidade seria fingimento.




Z: Mas talvez, falando de sexualidade, a partir de uma opção pessoal, você possa falar de uma coisa que é coletiva também. Aí, você teria um papel talvez mais coletivo, podendo abrir o nível da discussão.

: O que eu acho Zeca, com relação a isso é: eu sempre tive horror a rótulos, sempre tive, porque sempre me sinto perdendo alguma coisa, sempre me impossibilita de ser mais alguma coisa que eu queria e não posso porque só posso ser aquilo - parece que diminuem as possibilidades.

Eu acho que eu sou uma pessoa livre. A vida me deu essa chance de poder escolher o que eu acho que é bom para mim e experimentar rninhas opções em determinado momento. Eu sou uma pessoa livre e isso é que tem que prevalecer - é isso que eu tento.

Não quero nunca dizer para as pessoas o que elas devem fazer. Eu quero dizer é o seguinte: façam o que vocês têm vontade de fazer, vocês têm uma vida. Se você passar a vida inteira com medo e com problemas, não vai ter valido a pena, é tudo muito rápido. Tempo é muito precioso. Essa revista, por exemplo. Eu acho importante ter uma revista como a Sui Generis no Brasil no momento. Tem que segmentar um pouco, para pessoas que precisam.

Eu falo muito do Brasil porque eu viajo, eu faço muito show. Então você chega em lugares muito atrasados - e tem aquelas pessoas que, a. alegria que elas têm é quando vem um ou outro artista e que elas podem achar que é possível não é nem ser cantor - é ser mais livre, ser mais feliz. Então, uma revista dessas, que fala para o público que é mais gay, ou bissexual, acho mais importante.

Quem me dera que, na adolescência, tivesse uma revista assim no Brasil. Teria sido bacana. Eu leio a seção de cartas, tem cartas do Brasil inteiro, de gente feliz porque existe essa revista - parece que o exercício de liberdade que elas têm é quando chega a revista.




C: E até que ponto a pessoa que canta e compõe pode ajudar a quebrar essas barreiras?

: Você não pode exigir isso de algumas pessoas que talvez não tenham essa visão e essa capacidade de ver o mundo de uma forma mais global. Você não pode exigir que elas agora tenham uma visão política. Não pode, é uma questão individual.




C: Mas eu acho que, sem dúvida, quando você fala, nos seus subtextos, você está dando uma contribuição.

: Eu espero, eu quero dar, na medida em que não diga ... que eu não tenha que fingir uma coisa que não sou, nem bancar uma coisa que eu não seja.




Z: Uma militante.

: É. Porque não é isso. Eu acho que essa coisa obrigatória que tem agora, especialmente nos Estados Unidos, ligada à coisa gay, que fica quase que delatando as pessoas...




Z: "Outing?"

: É, isso é uma loucura. As pessoas têm o direito de escolher o que querem falar ou não. Tem uma pessoa no Brasil que eu respeito e acho muito inteligente, que é Luiz Mott. Ele fala um pouco disso, das pessoas dizerem o que elas são ou não. Mas nem todo mundo é o que você espera, o que você quer. Cada um tem uma cor, as pessoas são singulares.




Z: Mas essas pessoas têm tanta necessidade de alguém que as defenda, especialmente com relação à sexualidade. É como se um "outing" de alguém famoso pudesse detonar um processo de aceitação maior.

: Na hora que eu li a Sui Generis, e comecei a ver a seção de cartas, eu me interessei em fazer a matéria, porque eu senti que era importante. E muito importante ter esse tipo de veículo. Mas ao mesmo tempo, não poderia estar aqui dizendo o que não acredito.

Eu acho bacana dizer assim: olha, eu sou livre, eu acho que eu estou aqui para correr atrás das coisas que eu quero, que acredito, que eu possa vir a ter. Acho que a vida vale a pena assim. As vezes, até a abstinência me interessa. As vezes, sexo é uma coisa que me dá tédio, uma coisa que você vai lá, mata o desejo e dá um vazio. Se não é com quem você goste muito, dá um vazio depois.

Então são diferentes fases que uma pessoa passa. Eu quero poder sentir tudo isso, ter todas essas fases. Tudo isso faz parte da vida de um ser humano e não só regras e regras e regras.




Z: Mas há uma insistência da mídia em te rotular.

: Eu não gosto de rótulo. É uma prisão. Mesmo quando eu falo essa coisa da mulher, eu não estou querendo ... é um fato. É difícil para mulheres serem ouvidas, difícil mesmo. Tem uma mulher no Brasil muito inteligente, Rosiska de Oliveira (feminista brasileira). Ela fala muito disso, a mulher na política, por exemplo, mas não num lugar masculino, estar lá enquanto mulher, ter uma visão feminina lá.

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C: Mas eu acho que o grande problema da ameaça que os homens estão sentindo todo o tempo, é quando as mulheres - com a visão feminina, porque eles não conseguem se relacionar com isso. Entre quatro paredes ninguém vai dizer nada. Mas nessa coisa do trabalho, a grande dificuldade ainda é essa.
Z: Mas é isso que eu acho que, nos homens, gera um medo de lidar com o homossexualismo.
C: Eu não acredito em nada tão straight, eu não acredito em nada tão gay, eu não acredito em nada tão nada. Eu acredito que as pessoas são seres mutantes.

: Eu também.




Z: Mas isso não é um pensamento muito sofisticado para cultura de massa?

: Mas a gente tem que dizer essas coisas, porque isso é uma opção para as pessoas que não conseguem se classificar em nenhum desses rótulos, porque são pessoas mutantes. Não temos que explicar tanto. Explicar seu gosto? Explicar o que você quer? Não tem que se explicar, não tem que se justificar. Por que passar a vida inteira se justificando?




C: Eu acho muito complicado essa coisa sexual no Brasil. Ninguém está te perguntando por que você está de preto ou de laranja. Então por que as pessoas vão ter que explicar?
Z: Se estão transando com homem ou mulher?

: A gente tem que elevar essa questão. Eu, quando leio matéria com as pessoas, não me interesso a mínima quando elas começam a contar: ah, um dia eu transei e foi assim... ah, por que minha vida, não sei o quê. O que me interessa são pessoas falando de suas experiências já com uma certa elaboração. Aí me interessa. Mas, ficar contando? Não gosto de fuxico. Se a gente puder ajudar a elevar um pouco o nível da discussão e de possibilidades de definições, isso me interessa.




Z: Uma mensagem como essa, você conseguiria passar numa mídia mais superficial ou mais perigosa no sentido de formar uma opinião como a televisão, por exemplo?

: Eu gosto de responder o que eu penso. O que eu faço é o que eu faço, não interessa, nem com quem eu faço ou se eu faço. O que eu penso das coisas é o que importa. Se não, a gente fica alimentando nas pessoas uma coisa muito barata. A gente pensa que isso ajuda, mas isso não passa de uma coisa boba e hipócrita.




Z: Mas o Hugh Grant sobreviveu àquilo, talvez por ter um pingo de integridade. Você sobreviveria a um escândalo armado desse?

: Eu acho que eu sobreviveria sim. Eu acho que eu sofreria muito, porque eu teria de ficar exposta num nível... Mas eu sobreviveria.




Z: Pela sua integridade?

: Não morreria, mas sofreria em ver como você pode ser usado.




Z: Você sofreria mais na época de Virgem?

: Não, sofreria agora também. É o que eu falei: existem certos conceitos, certas palavras que me interessam muito. Fraternidade, solidariedade, desprendimento, compaixão. Tem uma coisa tão legal que o Leonardo Boff fala: ele fala que a Santíssima Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, o que rola é uma relação de igualdade, de equivalência, nenhum é superior ao outro.

O que o pai tem a dizer é tão importante quanto o que o filho tem a dizer. Eu fiquei tão feliz quando li isso, porque no dia-a-dia eu vejo tantas vezes pessoas exigindo respeito, atenção, só pelo fato de serem mais velhas, de terem vindo primeiro. Então essas pessoas parecem que não respeitam os mais novos.




Z: Talvez essa fosse a atitude do seu pai?

: A dificuldade que eu tinha com meu pai era que ele era muito hermético. Eu não sabia o que se passava na cabeça dele. Não havia esse tipo de diálogo. Mas eu digo na minha carreira mesmo, no trabalho - em música fala-se muito de geração.




Z: Em jornalismo também.

: Por exemplo, eu gravo muitas canções de gente mais nova. Não me sinto dona da verdade. Eu quero, na realidade, dar passagem, você não pode colocar uma rolha no tempo. Quero dar passagem às pessoas que eu acredito, que eu acho que têm talento, porque eu sinto que elas vão me dar passagem de alguma maneira.




Z: Mesmo porque, você não tem nada a temer. Nada pode te ameaçar. Ou pode?

: A gente não é tão segura assim...


(Agradecemos ao Hotel Glória, cenário desta entrevista no Rio de Janeiro.)
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