|
Marina Livre Mexe daqui, avisam que Marina está em Nova York. Remexe dali, Cristina foi prá Paris. E, de repente, alguém descobre: gente, Marina e Cristina estão de volta e estão no Rio! Não é possível... agora é o Zeca que tá em Nova York1? Assim as semanas se passavam e parecia improvável juntar Marina Lima, Cristina Franco e Zeca Camargo para nossa entrevista especial de fim-de-ano. A própria Marina, tranquila, foi quem deu o veredito:"Vai dar pessoal, vamos tentando até todo mundo poder". E num desses sábados de Outubro, finalmente, todo mundo pôde e a entrevista aconteceu, no salão Debret do Hotel Glória. E valeu a pena esperar! São oito páginas de um hype papo com nossa estrela maior: Marina Lima!. (Capa: direção de arte Giovanni Bianco, foto Willy Biodani, moda Rui Cortes, cabelo e maquiagem Mauro Freire)
|
![]() |
|
Marina não quer dizer para as pessoas o que elas devem fazer - a não ser "façam o que vocês têm vontade de fazer". Enigmática?
Talvez equilibrada seja um adjetivo melhor para a Marina Lima de agora, disposta a somar forças sempre que algo do bem pode vencer. Foi assim ao sugerir Cristina Franco e Zeca Camargo para assinarem essa entrevista e ouvirem que Marina está feliz por lançar seu Abrigo e pronta para lutar pela voz (e pela vez) da mulher. Com sua próprias armas. |
|
... Z: Dá para falar que cada disco é uma nova revelação onde você conta um pouquinho mais sobre você?
Z: Mas é natural do artista se sentir cada vez mais à vontade para contar mais sobre si?
C: Bom, minha especialidade não é música, mas eu sinto que existe aí um... como eu vou dizer... o nome do disco é Abrigo - algo que você usa para se proteger, para se esconder. Como fica essa dualidade?
Z: Dá para tirar mais uma conotação daí. Abrigo é algo que você procura quando cansada. É o caso?
Aí, eu fui muito surpreendida porque ele teve uma acolhida bárbara - e o show foi um sucesso. Fiquei feliz porque as pessoas se interessaram por essa fase minha - não queriam só o enfeite, a alegria - não era uma coisa tão rasa assim. Eu quis retribuir. Por isso que a banda está na capa. Eu tive abrigo com aqueles meninos. Então é você se sentir abrigada por coisas boas que te dão coragem de ir, de continuar, de não desistir, de sempre querer descobrir coisas boas. C: Bom, 40 anos... Eu não acredito em coisas muito esteriotipadas, mas essa idade não é algo muito simples na vida de uma mulher, por uma série de razões até por ser um "deadline" biológico.
C: Como você está lidando com isso?
Primeiro tem a coisa da beleza física. Não sei se é aos 40, mas é aí que você toma contato com isso. É o que a Cristina disse, é um deadline mesmo, em relação até a filhos, por exemplo. Eu tive um instinto maternal muito grande, sempre tive vontade de ter filho - sempre não, depois dos 30. Isso é uma coisa que tenho que decidir. Porque depois não tem volta. Ao mesmo tempo não depende só de mim porque eu acho que é bacana ter um pai, um pai que eu respeite, que eu acredite. Acho que a criança merece ter esses dois referenciais, um masculino e um feminino. No momento, tudo isso está um pouco afastado. Talvez eu acabe exercitando isso adotando uma criança, eu não sei. Porque os pais que imaginei, os homens que eu imaginei que pudessem ser pais para os meus filhos, são meus amigos. Z: Mas pelo que você está falando, você não está no espírito de ter um filho agora.
Z: Vários pais?
Tem muitas coisas que eu não sei, que eu quero saber. Quando eu aprendo coisas, eu fico tão feliz porque eu não sei tudo ainda. C: Você fala que o conhecimento é importante. Quando é que você começou a sentir que a Marina começou a ter força, a ser até um pouco complicada para a Marina Lima?
Z: Mas aí você se vende demais.
C: É, é complicado lidar com todas essas personas.
C: É engraçado, né? São várias histórias: Virgem, Próxima Parada, Chamado...
Na verdade, uma mulher, quando ela pensa e tem coisas a dizer e também ela é bonita, é muito fácil colocarem você logo como uma coisa de imagem. Eu percebi muito isso no lançamento desse disco. Certos jornais realmente não estavam interessados no que eu tinha a dizer, mas no que eles tinham a dizer sobre mim. Os homens têm interesse em ouvir o que a gente tem a dizer. Publicar, eu acho que ainda não. Você entende o que eu estou falando, Cristina? C: Entendo. Eu acho que os anos 80, foram eminentemente yang - aquela coisa toda do poder. E os anos 90 são eminentemente ying. O número de mulheres que têm espaço hoje e estão fazendo coisas interessantes é enorme. As mulheres que têm voz têm que lidar com essa coisa yang, da atitude, e seu lado ying. Como você administra isso?
Você quer ver? Têm muito poucas mulheres jornalistas. Eu lancei meu disco agora, falei com mais de vinte pessoas, mas só uma era mulher. Não é por nada, mas seria mais fácil. Se eu converso com uma cara de um jornal, ele se interessa, mas... Z: Mas essas coisas não interessam a grande mídia. Por que você insiste em lidar com ela?
|
![]() |
|
Z: Mas então você lida com uma grande frustração também.
Tem duas palavras que acho maravilhosas no Cristianismo: compaixão e desprendimento. Não adianta, as pessoas não são o que você espera e você tem que aprender a lidar com frustração. C: Como é que você lida com perdas?
Então, acabava que eu tinha uma relação assim com os homens, distante, sem intimidade. Mesmo tendo um irmão que eu gosto como o Cícero, mas o pai é o pai. E quando meu pai ficou doente, ele ficou mais frágil. E aí nós nos aproximamos. Ele morreu nessa hora. Então foi foda para mim, foi muito dificil. Ao mesmo tempo foi um ganho, porque a morte do meu pai, de certa forma, mudou minha relação com os homens. Meus olhos começaram a ver os homens muito mais sensíveis, sem tanto preconceito. Z: E eu acho que perda alguma é igual. Parece que, quando você perde alguém, você nunca aprende. Cada pessoa que você perde, você tem que lidar com uma parte do emocional.
Z: Você aprendeu muito com a meditação?
Z: Eu nunca fiz meditação, posso estar perguntando uma bobagem, mas que Marina você via? C: Zeca, você já trabalhou com televisão. É aquela coisa sofisticadíssima da tua imagem estar projetada no vídeo. Meditação é altíssima tecnologia individual. Eu hoje em dia só acredito numa coisa que se chama energia.
C: Acho isso muito importante e é um caminho sem volta. Z: Sem misticismo? C: Não é religião, pelo contrário. Eu fiz análise com pessoas geniais, mas depois que a gente entra nesse processo, perde totalmente o interesse. Quando você estuda filosofia chinesa, tudo o que eles ensinam é você lidar com a tua emoção. Pense com o coração e sinta com a cabeça.
Z: Então você está bastante feliz?
Z: É a felicidade de estar bem.
Z: Eu tenho a impressão de que você diz que está meio que crescendo emocionalmente sozinha. De alguma maneira, uma relação amorosa não te eleva emocionalmente também? Parece que você está considerando muito você e pouco as pessoas que você amou.
Z: E cada relação amorosa é uma nova exploração? Eu acho que, assim como a perda, nunca é igual quando você começa a se mostrar emocionalmente para outra pessoa.
Z: Você não procura o mesmo tipo de pessoa que você procurava?
C: Eu acho que para as pessoas que lidam com criatividade, com arte, é muito importante essa coisa da paixão. Quais são os sentidos da paixão?
Quando você acha que está tudo sob controle, a vida perde um pouco a graça. Comigo então, que sou virginiana, uma pessoa muito organizada, com toda uma rotina, quando aparecem coisas que puxam meu tapete eu fico desesperada. Mas eu não consigo resistir. Z: Não há por que se arrepender disso?
Z: Já se arrependeu?
Z: Mas o que acontece quando você se entrega, que te faz às vezes se arrepender?
Z: O público está sempre pensando no que você está cantando atrás dessas músicas. Você diz que isso aconteceu em Virgem muito forte e isso nunca te abandonou. Você não acha que o público está sempre escavando alguma coisa?
C: A gente sente que você é uma pessoa tímida e eu vi essa foto agora (a da capa) que é ousada, com esse decote, produção do Giovanni (Bianco)... aí é engraçado, a foto, a foto e você, como eu vi vestida em outras vezes. Por que isso? 40 Anos?
Tem uma coisa que é a meu favor mas também é contra: eu quero ter 40 anos. Dizem muito que eu não pareço, mas eu quero ter (risos), tenho o direito de ter. Me deixe com meus 40 anos. Não quero ficar parecendo que tenho menos, como se fosse um problema. E queria estar com a minha banda na capa. A partir disso o Giovanni, que é muito inteligente, pensou e voltou com essa idéia.
|
![]() |
|
Z: Você é mestre em controlar sua imagem e é com grande facilidade que você pode se arriscar tanto a ponto de se vestir de homem (como já fez no palco) e, ao mesmo tempo se resguardar. Você gosta um pouco de provocar o público e a mídia?
Z: A sexualidade, por exemplo?
Z: Mas talvez, falando de sexualidade, a partir de uma opção pessoal, você possa falar de uma coisa que é coletiva também. Aí, você teria um papel talvez mais coletivo, podendo abrir o nível da discussão.
Eu acho que eu sou uma pessoa livre. A vida me deu essa chance de poder escolher o que eu acho que é bom para mim e experimentar rninhas opções em determinado momento. Eu sou uma pessoa livre e isso é que tem que prevalecer - é isso que eu tento. Não quero nunca dizer para as pessoas o que elas devem fazer. Eu quero dizer é o seguinte: façam o que vocês têm vontade de fazer, vocês têm uma vida. Se você passar a vida inteira com medo e com problemas, não vai ter valido a pena, é tudo muito rápido. Tempo é muito precioso. Essa revista, por exemplo. Eu acho importante ter uma revista como a Sui Generis no Brasil no momento. Tem que segmentar um pouco, para pessoas que precisam. Eu falo muito do Brasil porque eu viajo, eu faço muito show. Então você chega em lugares muito atrasados - e tem aquelas pessoas que, a. alegria que elas têm é quando vem um ou outro artista e que elas podem achar que é possível não é nem ser cantor - é ser mais livre, ser mais feliz. Então, uma revista dessas, que fala para o público que é mais gay, ou bissexual, acho mais importante. Quem me dera que, na adolescência, tivesse uma revista assim no Brasil. Teria sido bacana. Eu leio a seção de cartas, tem cartas do Brasil inteiro, de gente feliz porque existe essa revista - parece que o exercício de liberdade que elas têm é quando chega a revista. C: E até que ponto a pessoa que canta e compõe pode ajudar a quebrar essas barreiras?
C: Mas eu acho que, sem dúvida, quando você fala, nos seus subtextos, você está dando uma contribuição.
Z: Uma militante.
Z: "Outing?"
Z: Mas essas pessoas têm tanta necessidade de alguém que as defenda, especialmente com relação à sexualidade. É como se um "outing" de alguém famoso pudesse detonar um processo de aceitação maior.
Eu acho bacana dizer assim: olha, eu sou livre, eu acho que eu estou aqui para correr atrás das coisas que eu quero, que acredito, que eu possa vir a ter. Acho que a vida vale a pena assim. As vezes, até a abstinência me interessa. As vezes, sexo é uma coisa que me dá tédio, uma coisa que você vai lá, mata o desejo e dá um vazio. Se não é com quem você goste muito, dá um vazio depois. Então são diferentes fases que uma pessoa passa. Eu quero poder sentir tudo isso, ter todas essas fases. Tudo isso faz parte da vida de um ser humano e não só regras e regras e regras. Z: Mas há uma insistência da mídia em te rotular.
|
![]() |