JÁ PASSAVA DAS 8 DA NOITE, QUANDO UMA MARINA LIMA
alegre e confiante recebeu Vogue para entrevista no Estúdio Mega, localizado no bairro do Humaitá, no Rio de Janeiro. Foi lá que a cantora passou dias trabalhando na mixagem das vinte músicas do show Síssí na Sua, para o projeto de um CD duplo e outro mais simples com 14 faixas, ambos ao vivo, que a Universal lança no mercado em dezembro.
O flerte com a modernidade garante novos sabores a antigos hits que compõem boa parte do show. Síssi na Sua colheu elogios de público e crítica, na estréia em agosto, em Juiz de Fora. A partir daí, foram quase 30 apresentações nas turnês em São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Florianópolis. "Precisava atualizar canções como Fullgás (1984) ou Virgem (1987), para fazê-las de novo interessantes para mim. Para tanto, estudei linguagem eletrônica", explica. A base do show são dois álbuns que nunca foram apresentados ao vivo: Registros à Meia Voz e Pierrot do Brasil. Mas outros sucessos colhidos em 21 anos de estrada ganham modernização nos arranjos e mostram que a carioca de 45 anos está longe de parar no tempo.
Prova disso são as três novas composições feitas para o show, duas delas em parceria com a escritora e amiga Fernanda Young: “Estou Assim" e Síssi, que serviu como nome de batismo do show. Do ostracismo voluntário, pontuado por consultas a fonoaudiólogas e psicanalistas, Marina resgatou a paixão pelo teatro e utilizou largamente os recursos cénicos no palco, com direção de Enrique Diaz, iluminação de Maneco Quinderé, cenografia de Gualter Pupo e figurinos de Alexandre Herchcovitch. Se no show “O Chamado” Marina testava seu poder de fogo trocando a blusa de costas para a platéia, nesse ela incorpora dramaticidade ao vestir uma camisa-de-força assinada por Herchcovitch.
No imaginário de milhares de fãs, Marina Lima é um ícone de sensualidade e estilo. Como esquecer a cabeleira farta ostentada na capa do primeiro álbum Simples Como Fogo (1979), da linha activewear em Fullgás (1984) ou da sua fase rocker, de calça jeans com emblemáticos rasgos no joelho em Todas ao Vivo (1986)? Nos anos 90, o minimalismo chegou ao guar-da-roupa e ao repertório da cantora, que se define como uma jeansmaníaca inveterada. No figurino de Síssi, alterna um top de losangos de Herchcovitch com calça de índigo e vira Gucci Girl com uma poderosa calça e camiseta básica, comprados na Daslu com a amiga Érika Palomino.
Descobriu São Paulo enquanto trabalhava: "Como morei muito tempo nos Estados Unidos, na infância e parte da adolescência, a cidade representa conviver com o cosmopolitismo e o avanço tecnológico de lá, sem precisar sair do meu próprio país". É o lugar que vou quando tenho minhas instigações. Fiz isso em 1991 para estudar guitarra e voltei tempos depois para aprender música eletrônica.
Foi aí que conheceu o músico e produtor iugoslavo Mitar Subotic, o Suba (morto durante incêndio em 1999 e famoso pela adoração à cidade de São Paulo), que produziu o álbum Pierrot do Brasil. Ainda com ele, Marina se juntou ao DJ Felipe Venancio e estreou em trilhas para desfile. O trio misturou bossa nova com sussurros e barulhos do mar, para o verão 2000 da marca Fórum, inspirado no Rio de Janeiro. "Foi um trabalho de poucos dias, mas tão intenso e criativo que renderia um CD tranquilamente. Sem falar que foi ótimo trabalhar diretamente com o Felipe", avalia.
E São Paulo continua na rota de Marina Lima. Primeira artista a aparecer na telinha da MTV brasileira, em 1990, a cantora voltou a entrar em contato com a emissora, depois de um longo período sem negociações diretas. "Agora estou em fase inaugural com a MTV. Depois que me convidaram para fazer o primeiro clipe da casa, sofri com o estigma da antiga diretoria, cheia de preconceitos. Me excluíram durante muito tempo, cedendo espaço para Marisa Monte e Fernanda Abreu, que despontavam na época", conta. O ano que vem chega com uma promessa de Marina Lima em versão acústica.
(Por Ailton Pimentel - VOGUE Brasil 270-2000)