Domingo Giribaldi / Promperú
Cholas tecendo em Puno |
Peru em 25 dias
Por Sanderson Oliveira
Duas semanas. Era o tempo que tinha para preparar tudo para a viagem. Foi quando o meu coordenador no trabalho disse, ou tira tuas férias agora ou as perde. Bem! Li tudo o que podia sobre o Peru, história, internet, jornais, revistas, conversas. O bilhete de passagem foi pego dois dias antes do embarque. A mochila e pochete compradas em cima da hora. O sonho era ir de bicicleta. Loucura. Fui de avião mesmo. No trem da morte que sai do Mato Grosso, Corumbá, sozinho, é muito doido e perigoso. Teria que dormir agarrado na mochila para não roubarem. Em dupla talvez. Dia 5, quarta, foi cansativo. Arrumei as últimas coisas e dormi.
Guarulhos
Dia 6 viajo. O atraso da Vasp foi de 2 horas. Afonso Pena sem condições, para variar. Encontrei um colega da faculdade. Estava indo trabalhar em São Paulo, depois iria fazer um curso nos USA. E eu indo para o Peru. Dormi no avião. Sonhei que estava solto no céu. Nada a meus pés. Senti medo e percebi que não caia. Voava. Fixei meus pés no chão. Acordei e percebi que estava num avião robusto, firme, que transmite segurança. A Lloyd Aereo Boliviano foi extremamente pontual. Espanhol é fácil. É o que dizem. Todo mundo entende. Em São Paulo, já tive exemplo. Procurar o portão de embarque da Lloyd Aereo Boliviano, Asa B. Andei por algumas 'asas' antes de encontrar o correto. Conexão em Guarulhos confusa. Pego ou não a bagagem? Não. Ela foi direto para o outro avião.Tinha recebido várias opções de pacotes das agências. Fui por conta mesmo.Meu médico: 'Como com a bronquite neste estado você vai para um lugar onde o ar é rarefeito? Leve pelo menos teu inalador?', 'Não! Faça-me ficar bom logo. O inalador é pesado e consome muito espaço na mochila. Quero fazer o Caminho Inca, uma semana no mato. Como levar a mochila pesada? Com o inalador não vou!' Levei. O inalador só saiu do fundo da mochila na volta. O pessoal do trabalho: 'Rapaz, você vai para um lugar onde falta ar. Frio, vai passar o mal das alturas, sentir vertigens, desmaiar, vomitar? Vá para a praia. Caribe, Cancún. Não seja louco!'.
Tinha viajado somente duas vezes de avião. Vou passar mal? Vou ter medo? O decolar, o pousar, são sensações muito boas. O medo não era meu. Algum bobalhão colocou em mim, e fui mais ainda por deixar. No avião para Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, 'de cara', as aeromoças só falavam espanhol: 'Jugo?' Apontei que queria suco de laranja. 'Ielo?' Respondi com um 'no' americano. Puxa, duas palavras e eu não tinha entendido nada. Não entendo nada do que elas falam. Estou sozinho indo para um país onde não sei o idioma. O cara do meu lado, parece um túmulo. Aí me vi na insegurança. Tinha ligado alguns dias antes para o Hostelling International de Miraflores em Lima reservando um quarto. Será que a moça entendeu? Ela pediu uma fita com samba. Se em Santa Cruz de La Sierra for a confusão de São Paulo, devo parar nas Guianas, menos em Lima. Olhava para um lado e para o outro. Meu anjo da guarda agiu. Ele é muito bom. Num banco atrás de mim, um boliviano puxou papo. Será que ele quer me roubar? Ele falava um portuñol estraño, mas eu entendia. Cabelos negros enrolados. Barrigudo e de bigode. Parece que era empresário, tinha uma loja de produtos eletrônicos em alguma cidade boliviana e foi comprar em São Paulo uma peça que não encontrava em seu país. Simpático. Com dicas. Falou do Brasil, das mulheres, do futebol.
Aliviou o tempo e comecei a ter contato com o idioma. +/-. Não gastei nada com comida. Café na Vasp e almoço na LB. Um pouco de música andina.
Santa Cruz de la Sierra
Pelo menos já tinha tomado vacina para febre amarela. Em Santa Cruz de la Sierra um rapaz me viu tentando tirar informações com uma moça no aeroporto.
'Eu quero ir para Lima. Lima. Entendeu?', disse para a moça. O rapaz se aproximou, e falou que ia para Lima também e podia mostrar o caminho para o portão de embarque. Ótimo. Ele falava um portuñol bem melhor de português que o outro. Será que este me rouba? Não. Era o meu anjo da guarda agindo de novo. Pastor é pequeno, com feições de descendente inca, voz mansa, jeito tranqüilo, maduro. Cabelos negros penteados para o lado. Nariz firme e delgado. Magro. Olhos expressivos.
O checkin em Viru-Viru, contra meus temores, foi descomplicado. Pastor é de Arequipa. Me mostrou fotos da sua cidade. Muito bacana. Percebi um casal andando para cada pessoa e o senhor perguntava, falava e ia para outro.
Pastor, o peruano, disse que fazia mestrado em São Carlos, e tinha feito faculdade em Brasília. Ia visitar a família. O casal apareceu e o senhor falou que estava indo para Lima e queria informações de alguém. Pastor foi prestativo com eles também. Eles não tinham onde ficar em Lima.
- Olha, eu disse, vou para o Albergue da Juventude. Os senhores podem ir
comigo.
- Mas não é só jovem e não tem que ser associado?
- Não. Vão pessoas de todas as idades. Fiz a minha carteirinha em
Florianópolis, num que fiquei lá, mas é só para pagar menos nos próximos que vou ficar.
Eles decidiram vir comigo. Que bom! Já encontrara pessoas bacanas que falavam português e 'estavam no mesmo barco'. É bonito. Um casal de velhinhos viajando sozinhos. O Sr. José racotiava em tudo. Ele José é
aposentado, mecânico da Ford, tamanho de Pastor, olhos claros, cabelos
grisalhos, com o rosto marcado, parece ter uns 55 anos, a mesma idade que ela aparenta ter. Ela também com os cabelos grisalhos, mas encaracolados, cabelos curtos (as senhoras geralmente os mantém curtos por praticidade - exceto as 'crentes').
Estou mais tranqüilo. Ajustei o relógio para a Bolívia: 2 horas a menos. Tentei meu primeiro espanhol. Eles riam quando eu falava: grachias, ou gratchias. A viagem para Lima foi muito boa. Comi toda a comida do avião. Não passava mal mesmo! Pastor me ensinou algumas palavras básicas, dias das semanas e outras. Me mostrou quando sobrevoamos o Titicaca. Claro que minha foto não deu para ver nada de dentro do avião. Até puxei conversa com algumas moças cariocas.
Eu tinha o desejo de conhecer Machu Pichu havia alguns anos. Seduzido pelos rumores de magia e cultura das cidades. Não por Cusco, a capital arqueológica da América do Sul, mas a viagem. Até quando criança, ouvi falar pela minha irmã sobre a capital do Império Inca. Havia anotado lugares para visitar e características de algumas cidades peruanas e algumas da Bolívia.
Queria conhecer Machu Pichu e fazer o Camino Inca, depois escolheria o resto. Sabia que dormir em barraca não há nenhum conforto, é 'um saco'. Não gostaria de ter aventura ou medo, apenas relaxar, mas um risco e sair-se legal seria bom.
Antes de viajar, li um pouco da história do Peru, que a primeira epidemia de varíola matou o imperador Huayna Capac. O quéchua era o idioma dos incas, ainda falado por alguns. No Lago Titicaca também fala-se aymara. Os efeitos do 'El niño', muito forte nesta época. Significa 'O menino' pois sempre acontecia na costa peruana no final do ano, e os pescadores colocaram este nome por causa do Natal. Os chás de coca.
Conta a lenda que os primeiros incas eram quatro irmãos e quatro irmãs que saíram de uma gruta no Lago Titicaca (o sol nasceu de uma rocha sagrada nesta ilha), não longe de Tiahuanaco e foram procurar um bom lugar para ser o 'umbigo' do reino. Quando o cajado não caísse havia sido encontrado o lugar. O cajado fixou-se em Cusco. Faz sentido. No deserto não é bom lugar para viver, mas a selva em Cusco sim, com boa terra para plantar e colher.
Um dos irmãos voltou à gruta, dois viraram pedra e Manco Capac foi o inca fundador de Cusco, o primeiro governante que também se transformou em pedra, o filho do sol. Marcou a terra servindo-se de uma funda para atirar 4 pedras para os quatro cantos do mundo. Manco Capac ou pedra é transportado para as batalhas por todos os guerreiros incas. Pachacutec, foi o grande homem dos incas, seu pai foi Viracocha Inca. Inca é uma denominação como 'czar' por exemplo, empregada aos imperadores. Manco Capac viajou 400 km até fixar o cajado no Templo do Sol, hoje a Igreja de São Domingos. Pachacutec e seu filho Tupac Yupanqui (Topa Inca), com uma pequena e posterior contribuição de Huayna Capac criaram o império. Pachacutec reorganizou o Estado e reconstruiu Cusco. Os incas não tinham escrita, como os maias e astecas, mas foram pioneiros na fundição do bronze. Foram dizimados pelos espanhóis.
Tahuantisuyu, o Império Inca, quer dizer mundo dos quatro quartos. As pedras eram veneradas. O deus criador faz os homens a partir de pedras. As construções resistem aos terremotos, que os colonizadores espanhóis, desgostosos por suas construções irem por terra, construíram então em cima das antigas construções dos Incas.
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