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  Sobre o Mochila Brasil
Prom Peru /Carlos Sala

Catedral de Lima

Lima
Em Lima, fiquei espantado com a cor do barro, não há igual no Brasil que vi. Estava contente por só ter a mochila e ter as duas mãos livres para ajudar a carregar as tralhas, isto é, as bagagens de Pastor e do corajoso casal de Santos. Ajustei o relógio para o Peru: atrasei mais uma hora - são três horas de diferença pelo horário de Brasília. Decidimos já comprar as passagens para Cusco. Um dia para passear em Lima. Devia ter comprado a passagem na agência de viagens em Curitiba. Quis economizar acreditando que os vôos internos eram mais baratos. Sr. José também achou caro e compramos uma passagem barata na Fuerza Aérea del Peru, 63 soles. O avião tinha sido o particular de Fujimori. Sr. José sempre falava: 'Quero ver a cara do meu filho quando eu disser que viajei com a mãe dele num avião militar'.

     Trocamos dólares por soles. Troquei 300 dólares por 798 soles. A taxa foi de 2,66. A taxa para o real já era de 1,17.

 

       Ainda recebemos uma carona, paga, de um amigo do irmão de Pastor para a pousada. E convite para visitar Pastor em Arequipa. No hotel, a moça que tinha conversado por telefone é muito gentil, Gisela, se pronuncia Djiséééllla. Moça cativante sem ser bonita. Cabelos negros e curtos pelos ombros, olhos escuros, voz doce. Quase da minha altura. Corpo não definido, mas ombros fortes, até largos. Não é o meu modelo de beleza, mas sei que não é só beleza que cativa. Acho que o coração bate mais forte pelo cheiro, pelo momento e circunstâncias. Doze dólares a diária. Fui descansar um pouco no quarto. Tinha onde dormir. Estava seguro. Havia feito um lanche nas redondezas, era só apontar para o prato no cardápio que o garçom trazia e tentar pronunciar. Dez minutos depois, +/-, vinha a comida, se pede a conta por gestos, paga-se e pronto. Não tinha ainda me acostumado com a moeda. Me confundia com os centavos de 50 e de 5. Mas tinha pessoas conhecidas que inspiravam confiança.

 

     Gisela me convidou para passearmos em Lima no dia seguinte, ela tinha um carro. Perguntei se o casal de Santos podia ir junto. Tudo bem. No dia

seguinte, antes do horário marcado com Gisela, fomos ao 'desayuno', 10

soles, bom. E conhecer Miraflores, onde fica a pousada. Uma 'plaza' bonita, igreja. Voltamos ao lugar combinado com Gisela. Sr. José:

- Será que ela vem?

- Vem sim.' Respondo. Veio. O trânsito é caótico. Todo mundo buzina. Eu

queria conhecer múmias. Só conhecia uma que tem em Curitiba, no museu da Rosa Cruz. Enjoei de ver múmias no 'Museo Arqueologico Larco Herrera'. Nem estava na minha lista de lugares a visitar. Achei cara a entrada. A sala erótica é interessante. Os índios faziam sexo de tudo quanto era jeito:

vaginal, anal, oral, nasal, umbigal, dedal, etc. Eram bem criativos. Ou os

artistas. Fiquei com vergonha de olhar aquelas peças em frente à Gisela.       Ela e eu quase não nos entendíamos. Mas como não gosto de deixar de falar quando o quero, o Sr. José às vezes nos ajudava. Conhecemos a Plaza de Armas - as primeiras fotos que saíram, com a Catedral em frente, o Palácio do Governo ao lado e a Lima Colonial. Conhecemos também alguns bairros, e vimos o Pacífico. A costa tem uma cor ímpar. Não há vegetação nas encostas. Bem diferente. Provei o cebiche. Ou quase. Não consegui comer. Muito picante.

 

      Numa tarde tranqüila na pousada, tentei fotografar um beija-flor laranja,

que nunca tinha visto no Brasil, mas não fui muito feliz. Recebi de Gisela

algumas lições de espanhol na pousada e riamos quando não conseguíamos nos entender. E eu com um dicionário de inglês achando que ia ajudar.

 

      Forget-olvidar, salir hoy, invidar-convidar. 'Ahh. Tá bom.' Havia aceitado

em 'salir con las chicas' amigas de Gisela a um café. Ela disse que me

imaginou bem maior por causa da voz. Bem, então pelo menos alguma coisa tenho grande: a voz. Fomos com Paola e Miriam para o Cafe Cafe, também em Miraflores, na mesma 'plaza' onde tinha passeado de manhã. Há nesta praça também o Naranja Café, um bar que faz muito sucesso pelas músicas brasileiras, muito apreciadas.

 

     Não entendia o que as três moças falavam direito. Entendi que Gisela estava 'en cumpleaños' e 'ellas' estavam comemorando. Olhei para o lado e vi todos aqueles jovens limeños, era um bar para jovens de classe média alta, pelo que parecia. Quando que eu iria sair com peruanas num bar no primeiro dia, se estivesse com um pacote turístico? Provei o Pisco Sour que a Gisela  queria tanto que eu tomasse. Achei bom e pedi outro. Paola é sensual, corpo bem definido, longos cabelos, mas o rosto não me agrada, com jeito de mulher que sabe o que faz. Miriam é bonita, cabelos curtos, mais feminina, aspecto mais jovem. Fomos embora lá pelas 2:30 da madrugada. E eu tinha que acordar às 4:00 horas.

 

     Quando passamos em frente ao Naranja Café, quiseram que eu dançasse samba. Disse que estava cansado, pois fiquei com vergonha e medo de perder as novas amigas se dissesse que não sei. Gisela deixou as amigas em casa e depois me deixou na pousada. Conversamos um pouco no carro e então disse boa noite, até a volta. Fechei a porta de novo e nos beijamos. Ela namora há 5 anos.

     Melhor. Assim não gasto dinheiro e nem esperança. Não foi um beijo bom. Usava aparelho nos dentes. Fui dormir, tinha que acordar cedo no dia seguinte para viajar com o casal santista. O idioma espanhol na minha cabeça ficava latejando. Mas estava feliz.

 

     No dia seguinte estava chateado de novo. Queria ficar todas as três semanas com a Gisela agora. Mas já tinha comprado a passagem. Ia para outra cidade, ficar sozinho de novo. Sem pensar nos chifres do namorado dela, nem se o que ela fazia era certo ou não, embarquei no ex-avião do Fujimori. O avião até que é bom. Só um pouco apertado. E os caras grandes? Como vão caber? Decidi minha viagem. Viajaria a Cusco, me ambientaria dois dias, faria o Camino Inca. Depois iria visitar Pastor em Arequipa, já que esta cidade estava na minha lista, com o Museo Santa Catalina, Múmia Juliaca e Cañon del Colca.

     Antes em Puno e conhecer o Lago Titicaca, os índios, as ilhas de totoras, os sapos gigantes, dormir numa ilha, conhecer o barco de totoras e também as cabanas. Depois para Lineas de Nazca, após Pisco, ver os 'animales mariños' e chegar ainda à Lima e ficar alguns dias com a Gisela antes de voltar ao Brasil. Viajaria só pelo sul do Peru, deixaria o norte e a Bolívia.

 

     No aeroporto de Lima tivemos que ficar esperando um tempão o avião da força aérea sair. Será que chega? Há duas moças lindas viajando com sua mãe, também bonita. Conversam com dois rapazes, que encontraria depois. Estou com saudades de Gisela. Acho que ela pensa em mim.

 

Cusco

 

Prom Peru / Carlos Sala

Calle Hatum Rumiyoc em Cusco

     Logo no aeroporto de Cusco várias pessoas cercam os turistas oferecendo pousada. Sr. José, Dona Sueli e eu vamos ao Hostal Pardo. Fico logo com dor de cabeça. Soroche. O mal das alturas. No Hostal brindamos um mate de coca.

     Tomo dois. É um saquinho e algumas folhinhas para melhorar. Duas noites no Hostal dá 24 soles. O Sr. José negocia seu passeio e eu o sigo no negócio. O Camino Inca custa 68 soles, mais 25 de City Tour. Mais 27 soles da viagem de trem para Puno. Na tarde do dia 8 fizemos o City Tour. Amanhã vales em torno de Cusco. Depois de amanhã me separo do casal santista e vou fazer o Camino Inca. Descanso. Os quartos, banheiro e tudo o mais na pousada é bem melhor do que esperava. Está tudo indo muito bem. As ruínas de Cusco são interessantes. Mas falta ainda emoção e aventura. Tentamos caminhar de noite, conhecemos a pedra dos 12 ângulos e a ficamos contemplando algum tempo, 'grande' pedra. Mas o soroche nos pega: é melhor voltarmos ao Hostal e descansarmos.

 

    Levei pouca grana. Me disseram que era melhor. Podia ser roubado, etc. Levei cerca de US$400,00. Não aceitariam 'travels checks' nem reais. Papo furado. Todo banco aceita os tais cheques de viagem. E reais também. E fui sem quase nenhum. Ainda guardei para usar em São Paulo. No quê? Más informações só dificultam. Trocava dólares em bancos ou em agências de viagens, como em Puno. Mais garantido. E roubo? Bem, o Peru não é TÃO perigoso quanto dizem.

    Está mais moderno, já tem o Fujimori que acabou com o Sendero Luminoso, grupo guerrilheiro que quis dar o golpe. E só fui roubado uma vez. E só conheci umas dez pessoas em toda a viagem que tinham sido furtadas. Roubadas com armas de fogo em punho só umas três pessoas.     E essa história de pularem em cima dos ônibus e jogarem na estrada as bagagens acabou. Acho. Nem mais ouvi notícias de pedirem "voluntariamente" contribuições para a guerrilha.

    Sem essas preocupações fui ao City Tour. Encontrei um casal de franceses, chatos, que me perseguiriam por um bom pedaço do passeio. Outros turistas simpáticos e bacanas. E uma bonita americana, fechada. Que saudades de Gisela. No fim da manhã Dona Sueli deixou no ônibus: 

 

'Sanderson

Tudo de bom

Boa sorte

Gostamos muito de sua companhia, tem meu cartão escreva-me Sueli José

Um abraço'

 

    Eles queriam ir logo a Machu Pichu. Iam de trem. Depois à Arequipa visitar Pastor.

 

    Ganhei um certificado por conhecer Cusco. Queria a chave. Plaza de Armas, grande. Catedral, poeirenta. Na Igreja de São Domingos (ex Coricancha - Templo do Sol) encontrei Juciara, uma carioca. Trocamos endereços e nos  correspondemos até hoje. Na Igreja de São Domingos gostei das andorinhas que ficam uma do lado da outra nos beirais. Juciara e eu tiramos fotos junto com as lhamas, são dóceis e bonitas. Só que cospem em ti quando incomodadas.

 

Urubamba

 

    Conheci o Vale Sagrado. As ruínas são interessantes. Mas o melhor são as paisagens. As montanhas. Os rios. Os picos nevados. O vale, com o Rio Urubamba em seus meandros é muito bonito. Algumas fotos minhas parecem cartões postais, modéstia à parte. A máquina é normal e nunca fiz curso de fotografias, mas o visual ajuda muito. Na feira de Pisac, encontrei um senhor muito parecido com o Paulo Coelho. Acho que era ele. Este senhor  disse-me que era o primeiro brasileiro a ver. Também aquelas cariocas do avião, mas não pude conversar muito, tinha que comprar uma blusa (Puno faz muito frio). Pechinchei 10 soles: ficou em 28s/. Disseram que era de alpaca, acho que é de algodão. Não, pelo cheiro, parece de alpaca mesmo. Lama baby é mais macia. Encontrei ainda dois rapazes das Minas Gerais em Ollaitaytambo, só querendo 'azarar'.

 

     Chinchero fica há 3850 metros do nível do mar. É um bom teste de

ambientação. Interessante são que todas as casas tem, em cima, dois boizitos de barro: superstições, sorte, etc, ditas por Nico, um garotinho de uns nove anos. Afastei-me do grupo de turistas, pois as falas dos guias estavam muito chatas e o garoto, singelo, mostrou-me várias figuras feitas nas pedras em volta da Igreja. Muito humilde e meigo. Tive (por consciência) que comprar os dois boizitos em troca do serviço de guia. Estava atrasado e quis correr para o ônibus. Dez passos e páro ofegante. Cusco fica a 3400 metros de altitude e estou há quase 4000 metros. Parece incrível, mas é muito mais difícil andar. Parece-se estar mais pesado. Mas estou bem. Um pouco de dor de cabeça. Dei uma volta por Cusco com Miluska, a moça da agência R&C.

 

     Encontramos uma multidão olhando um casal de jovens, bonitos. Ela disse que formam um conjunto musical peruano. O ar superior não me incomoda, nem me atrai. Miluska fica olhando-os. Ela me ajuda a comprar uma mochila peruana, bem colorida para colocar as coisas que vão ficar no hostal e não vão para o Camino Inca, ela conhece bem o comércio local e sabe pechinchar. Ou puxou pela pobre vendedora. Tudo bem. Paguei o jantar para ela: 12 soles.

    Acompanhei-a até perto de sua casa, ela não quis que eu fosse mais, não insisti. Não rolou nada, não forcei também porque ela não me pareceu muito atraente. Voltei ao hostal com um pouco de medo de andar por aquelas ruas estreitas e desertas, solitário, aquela hora da noite. Paguei mais 8 no hostal, 70 no 'trekking inca', 12 na bolsa de dormir, 25 no trem, 80 no avião. Almoço 3,50 soles. Lanche 4. Boletos 10. Entradas 2 soles. Entendo pouco o espanhol. Mas me viro. Chato quando peço algo no restaurante e vem outro. Demorei para entender que frango é 'pollo'.

 

 

Veja também:
   
Peru em 25 dias
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Camiño Inca & Machu Picchu
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