Prom Peru /
Alejandro Balaguer

Trilha Inca
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Camino Inca
Dia 10 Acordo cedo para ir ao Camino Inca. 'Hablaram para llevar agua,
galletas, choco, mani, dulce y granola'. Comprei tudo isto. Diminuiu as
saudades de Gisela. No ônibus não entendo direito o guia, Luis, que se
pronuncia 'Lutcho'. Sou o único do grupo que o chama assim. Para os europeus é difícil. Quero perguntar se ele vai dar lanterna e ele responde que sim: 'La tienda. Sí. Carpas.' Pergunto mais uma ou duas vezes. 'Lan-ter-na', 'Sí, sí, carpas, hay sí'. A mesma resposta! Desisto.
São 18 pessoas além do guia e dos 6 'los portadores', o qual um é cozinheiro: 3 japoneses, 3 britânicas: Pia, Dhili, Mary, 2 irlandesas, 1 irlandês (que não ouvi falar), 2 primas suíças: Catherine e Rarel (que nome difícil de pronunciar), 2 adolescentes norte-americanos: Mike e Paul, mais 2 norte-americanos , 1 alemão, 1 canadense e eu, brasileiro. Paramos numa vila. O guia escolhe meia dúzia de 'los portadores'. Parecem bugres mesmo de tão fortes, sem ofensas. A maioria dos turistas são caracteres
interessantes. Cabelos loiros e grandes até a cintura, só que com enormes 'rastafaris', grossos como um punho. Tatuagens mil. Olhar vago, jeito hippie. Dos anos 90.
Como estamos atrasados, vamos um pouco mais de ônibus. Começamos numa ponte, onde o ônibus não pôde mais ir. Atravessamos esta ponte por sobre o Rio Urubamba. O trem passa por ali. Alí em todo lugar propaganda da Pepsi. A subida é cansativa, mas relativamente fácil. Em alguns pontos, no início, há pessoas vendendo água e refrigerante, mas depois acaba. Algumas crianças ainda vão correndo na frente, também com água e refrigerante para aqueles que ficaram desprevenidos. Uma irlandesa é muito simpática, puxa conversa comigo e anda bem depressa, mas ela se machuca e fica para trás nos outros dias, junto com um senhor canadense, de bengala. Este senhor, sempre de chapéu, dá um ar de 'gentleman'. Até no meio da selva. Ao parar e enxugar o suor do rosto com um lenço, para ele talvez bonito, dá um ar de desbravador europeu de filme americano. O guia me dá uma bronca: estou andando muito rápido. Se eu não estivesse numa selva sabe lá onde, dependo daquele cara, mandava ele às favas. E o pior que entendi toda a bronca, em español. Como não compensava discutir, fiquei na minha. Ele disse que fazia todos os cinqüenta e poucos quilômetros em 3 horas e meia. Não acreditei sem falar. Melhor.
Paramos às 4 horas da tarde. O barulho do rio. Um condor voando ao longe no alto de uma montanha, segundo o guia. Neste caso, melhor acreditar. Deixei a bota solta e ganhei calos no primeiro dia. 'Deixei a bota solta e ganhei calos no primeiro dia'. Repeti a frase para realça-la. Que droga. Fiz todo o resto do trajeto com estes calos.
Vale a pena levar lanterna e capa de chuva, que se compra na tão famosa feira de Chinchero. Famosa lá. Principalmente a capa de chuva. A mochila deve estar bem junto ao corpo, pois nos trechos estreitos, pode-se perder o equilíbrio e cair no penhasco. 'Não é assim tão perigoso, mas vale o lembrete como sinal de aventura.' Descansávamos 5 minutos aos comandos do guia, para nos ambientarmos com a altitude. Uma inglesa, Pia, acho que é isso, tenta falar comigo. Também a irlandesa, mas como percebem que nem no espanhol, desistem. Os pássaros são lindos. Beija-flores e pássaros amarelo-verdes. Morcegos. A paisagem compensa todo esforço. Fizemos 'la sena ' e fomos dormir, 5 horas. Todos na mesa, bem rústica, diga-se, o lorde canadense dá um arroto. 'Pardón'. Sai-se com um belo francês e ar de realeza.
O guia sugeriu duas opções para o dia seguinte que seria o mais difícil: ou andaríamos para caramba e ultrapassaríamos o lugar mais alto da caminhada.Ou faríamos acampamento antes e só no outro dia passaríamos o tal topo difícil. O pessoal ficou calado. Eu disse: 'Avançar'. A Pia também me imitou: 'Avançar'. Iríamos ter um dia pesado o próximo.
Em Llullucmayu ficamos acampados vários grupos. Aquelas duas moças bonitas e sua mãe estão em outro grupo. Fico numa barraca com um alemão. 'Do you speek english? No.' 'Hablas espanhol? No.' Bem ele ficou olhando os óculos e eu rolando na 'carpa'. 6, 7, 8, 9 horas. Depois dormi. Não dormi bem. Coceira. Frio. Chão duro. Banho gelado no rio. Lutei contra minha timidez e olhei algumas vezes as britânicas de sutiã e bermudas se lavando no rio. Por sinal, dos europeus, os únicos que vi se lavando. Os americanos sempre faziam sua higiene também. Tive curiosidade de isso observar pelos relatos de colegas que viajam à Europa e contam histórias de mal cheiro.
Necessidades no mato. 'Fiquei uns três dias sem conseguir. Inibido.' As nuvens cobriram a neve e a lua, se juntaram em cima do acampamento e choveu em cima da gente a noite toda. E eu tinha deixado as meias fora da barraca para - secar! Acordamos às 4 horas. Ainda escuro. O rio aumentou bastante. O barulho também.
Dia 11 É muito difícil chegar a 4200 metros de altitude. Com barraca e
comida é extremamente difícil. Todos do grupo falam inglês, menos eu. Droga. Formou-se 'panelas' no grupo. Os dois americanos mais velhos tentaram 'azarar' as moças britânicas, eles por volta dos 30, elas dos 26 anos. Fiquei mais na frente com os japoneses. O alemão se entendeu melhor com as suíças. Eu ficava calado e tentando subir. Para passar o tempo andando, ficava brincando pensando em chegar o quanto antes ao topo, na frente. Mas foi impossível alcançar um dos japoneses e a japonesa. Fiquei contente em passar um dos japoneses. Será que eu fazia aquela cara de dor também? Chato foi ver os 'los portadores' passarem por mim feito formiga, com três mochilas de mantimentos. Eles chegavam antes até os acampamentos, armavam as barracas e faziam a comida. Descansavam, esperavam-nos irmos embora, desmontavam acampamento, e carregavam tudo para o próximo, passando-nos no
caminho.
Fiquei pensando no que o pessoal do trabalho falou sobre ir passar as férias na praia. Eu queria estar em qualquer lugar, menos ali, até na minha mesa de trabalho (que horrível). Cada passo pesado. A mochila não devia ter mais só doze quilos. Doze só o inalador. Tinha pendurado uma camiseta suada na mochila para ver se ela secava com o vento. O caminho perigoso, se escorregar, cai-se no precipício. Mesmo! Um dorzinha incômoda na cabeça que as folhas de cocas não estavam resolvendo. O 'chachar' era insuficiente. 'Chachar' é colocar algumas folhas de coca entre os dentes e a gengiva, do lado, e deixar o líquido ir saindo aos poucos. Ainda bem que o guia tinha arranjado uma planta, 'muña', que quando eu cheirava passava a dor de cabeça. Parecia erva-doce ou arruda. Mas logo a dor de cabeça voltava. E eu 'chachando', cheirando e andando. O ar tem cheiro. É um cheiro quase de cinzas.
No topo tinha algumas pessoas já, o primeiro japonês logo saiu, a japonesa um pouco depois. Fiquei descansando. A foto para baixo não mostra o quanto é alto. Algumas crianças vendendo água e refrigerante. Até aqui! O terceiro japa apareceu. O guia também. Disse para eu trocar a camiseta, pois não pode ficar com ela molhada de suor. Pode ficar doente. Não me deixou descansar mais lá em cima. Tive que partir logo. Também, já estava ficando congelado. A descida foi legal. Uma escadaria que acompanha um córrego que vem lá do topo.
Os 3 japoneses chegaram antes no almoço. São dois rapazes, 22 e 21 e uma moça, 22 anos. Os três bem magros e bacanas. Cheguei logo após eles. Necessidades. Muito bonito o acampamento perto da cachoeira. É bom com o guia, mostra o caminho e o explica. Os outros chegaram bem depois. As irlandesas e o senhor canadense só depois que tínhamos almoçado. 'Almuerzo' pois embaixo de chuva. Como não gosto de comer papa com chuva no prato, achei um arbusto para sentar num cantinho debaixo de uma lona junto com 'los portadores'. Brasileiros sempre dão um jeito. O guia disse que tínhamos que sair logo, pois havia uma outra subida até 4000 metros. Todos 'pregados', claro que reclamaram. À tarde o caminhar foi só embaixo de chuva. Saímos de manhã, às 5:30h de 3800 em Llullucmayoc, onde fizemos o primeiro acampamento para chegarmos às 9:30h a 4200 metros de altitude em Warmiwa;usca. Depois descemos a 3600 às 10:30h para 'almuerzo' em Pacamayo. Quase duas horas depois (12:10h) caminhar até 4000 (13:10h) para Runcuracay.
Acompanhei os japoneses. Ficávamos felizes quando nos comunicávamos em inglês ou espanhol. Eles queriam saber muitas coisas do Brasil. Falaram dos jogadores de futebol que fazem sucesso no Japão. O ídolo deles é Zico. O caminho é muito bonito. Tem até pequenos lagos lá em cima. Como os japoneses e eu chegamos cedo ao acampamento, pudemos desbravar bem as ruínas de Sayamarca, a 3500 metros de altitude. Que visual. O mais bonito é lá de cima ver a floresta, depois as montanhas, depois os picos nevados, depois o céu. Maravilhoso.
Após, descemos até o acampamento. Acordamos hoje às 4:00h, 'desayunamos y salimos' às 5:30h, caminhamos até às 14:00, quando paramos para dormir. Não consigo 'baño' no mato. 'Almuerzo' e 'la sena' são 'similares': sopa + comida. Sempre mate de coca. Sempre enxugar barraca suja com camiseta. Às 17 horas 'la sena'. 17:30 Consegui: 'Baño'. Precisa-se cambiar camiseta molhada para não ficar doente assim que ela estiver molhada. Mais um banho gelado no rio.
A paisagem é realmente linda: as montanhas, os rios, as cachoeiras. Não sou capaz de descrever. Era isso que eu buscava na viagem para o Peru. Contato com a natureza. Um 'trekking' sadio.
'Los portadores' que "lavam" e fazem a comida. Água do rio. As mãos fazem as partes de detergente e esponjinha. Melhor não olhar o fundo do copo. Saiu sangue do nariz na primeira noite. Deve-se levar pelo menos três camisetas, de preferência com estampas do Brasil. Uma jaqueta para o frio.
Dia 12 O amanhecer foi gelo, montanhas com neve e a cachoeira. Toda roupa volta suja. Limpei a barraca de novo com a camiseta. Na primeira noite se alguém deixou alguma coisa fora da barraca molhou tudo, argh!, como as minhas meias. Coloquei um saco plástico em cada pé antes das meias molhadas, os calos estão incomodando.
Pergunto a Pia como se chama mosquito em inglês, ela diz que é mosquito mesmo. Não existe esta palavra no idioma inglês porque não há insetos na Europa. Bom por um lado. Frio por outro.
Acordei bem disposto. Alguns já haviam saído. Assim que acabavam o 'desayuno '. Comprei um 'choco' amargo, dou a 'Lutcho' 'hacer con leche'. Ficou contente que todos tomaram 'desayuno' com 'leche' e quebra um pouco o mate de coca. Saí só, cantando as três músicas que conheço a letra completa: Exagerado, Sina e Se. A paisagem novamente é deslumbrante. Catherine me esperou para conversar. Ela estava aprendendo o espanhol. Além do alemão, italiano, francês e outro idioma pouco falado e conhecido, oficiais da Suíça, ainda conhece o idioma inglês. Disse-me que era professora de jovens deficientes e que estava de férias. Pelo jeito como ela já viajou, do Nepal à América do Sul deve ter mais férias no ano do que trabalho. Disse que o esporte mais praticado na Suíça é o esqui e que ela esquiava bem. Gisela foi para o espaço. Por enquanto. Conversamos por um longo tempo, ela é bem interessante. Até chegar Rarel, ou algo assim e a acompanhar.
Vou andando, estou bem e passando o pessoal. Até encontrar Luiz. Ele me fala bastante, mal, dos europeus, da colonização, dos espanhóis, que há uma equipe do governo que busca uma cidade perdida na selva peruana. Como ele já contou 'lorota' uma vez fico com um pé atrás ao escutá-lo. Mas ele fala um monte e tento não contrariá-lo. Agora ele reclama do pessoal que anda muito devagar. Mudou de idéia e agora, eu acho, quer chegar o quanto antes. Acabar logo o serviço talvez. Ele se identifica comigo por sermos sul-americanos. Pede-me para continuar a caminhar, não há como errar o caminho, ele vai tentar apressar os outros. Passamos por Phuyupatamarca (sempre nublado) a 3650 metros de altitude.
Chego a um museu. Estou só e tenho tempo de olhar todo o museu e fico escrevendo, esperando o pessoal chegar. Chegam primeiro os japoneses. Catherine senta ao meu lado e pergunta o que escrevo. Respondo que vou fazer um relatório e colocar na Internet para os meus amigos que querem visitar o Peru, desejam de boas dicas e informações.
Machu Picchu
Em Wiñaywayna ficamos para a última noite. A paisagem é belíssima, vendo o Rio Urubamba abaixo. É mais uma hora até 'Puerta del Sol'. Ver Machu Pichu.
Não poderemos subir à Huayna Pichu (montanha velha e montanha nova), pois um incêndio a queimou, e quase pegou em Machu Pichu também. Quase foi para o espaço o sustento deste lado do Peru. Após almuerzo, o guia sugere para os que já chegaram - alguns ainda estão caminhando, irem à 'Puerta del Sol'. A sensação de conquista pessoal de ver Machu Pichu é ótima. Conseguimos. Todos estão contentes e satisfeitos. O visual é deslumbrante. Canto 'Garota de Ipanema' e um dos jovens americanos diz que é a música que mais gosta. A cidade é linda mesmo, a estrada que fizeram para o ônibus ficou peculiar, as
montanhas em volta que protegem a cidade, o mundaréu de gente lá embaixo e nós tranqüilos ali. O Rio Urubamba. Muito bonito é pouco.
São 25 minutos de helicóptero, mas caminhando é melhor. Pode-se fazer em 2 dias, mas fica bastante difícil e cansativo. Em 3 é até cômodo. Quem vai de trem dorme em Aguas Calientes e pega o primeiro ônibus para Machu Pichu. Bebi e banhei-me na água sagrada de 'Puerta del Sol'. Mais bonita são as montanhas, os rios, as cachoeiras, os pássaros, os sons dos pássaros, o som do rio e das cachoeiras. São mais bonitos que os mercados e as ruínas.
Consegui chegar em Machu Pichu e não fiquei enfermo. Que bom. Graças a Deus e a Jesus. Por todo o Camino Inca há begônias e orquídeas. Para outros turistas é apenas mais uma ruína, para os cusqueños é Machu Pichu, a cidade sagrada de seus ancestrais. A cidade está iluminada. O sol. Abaixo, junto ao Rio Urubamba está uma ponte em ruínas e atrás da montanha, antes de Machu Pichu está Aguas Calientes. Somente os sacerdotes e nobres no povo Inca iam
à Machu Pichu. Pobres nem sabiam que ela existia, segundo relatos do guia. Até os incas elitizaram um belo lugar. Os pássaros são magníficos,
papagaios, periquitos, beija-flores e outros, verdes, amarelos, vermelhos,
azuis. Lindos.
Ainda é cedo, pergunto ao guia porque não descemos até Machu Pichu - ele já é mais meu camarada. Então ele sugere que desçamos correndo de 'Puerta del Sol' (os primeiros raios de sol do dia vem deste lugar para Machu Pichu) e subamos correndo também porque às três horas o portão, que separa Machu Pichu de Wiñaywayna, é fechado. Correndo ninguém topa. Está todo mundo cansado. Só eu quero ir, dei a idéia agora não posso desistir. Convenso Catherine a ir junto e um japonês também quer ir. O guia diz para os outros irem voltando senão o portão será fechado antes deles passarem. Vamos os quatro descendo, são uns três a quatro quilômetros. Quero esperar Catherine, mas o guia dispara na frente. Suíça que se dane, quero ver Machu Pichu. Alcanço o guia e sigo suas passadas em cada pedra. Cuidado para não tropeçar e cair. Ôpa. Passamos alguns lugares que ele explica, ofegante: ficavam 'porteiros'. Chegamos a Machu Pichu e há um porteiro, mesmo, que não quer
nos deixar entrar. O guia explica que as entradas do grupo são para amanhã e ele só desceu hoje para me mostrar ali de cima, onde ficava o cemitério.
Luiz é amigo do irmão do garoto e seguimos em frente. Estou tão contente que nem sinto cansaço. Outro guarda, este amigo mesmo de Luiz conversa conosco e me explica algumas coisas da cidade. Tiro a primeira foto da cidade, 'Lutcho ' tira outra minha em frente à Machu Pichu com Huayna Pichu queimada atrás (esta fica num porta retrato). Que jóia.
Ele diz que precisamos voltar logo pois já são quase 2 horas da tarde. Catherine
Sanderson Oliveira /Arquivo Pessoall
Sanderson em Machu Picchu |
e o japonês ficaram para trás e parece, estão voltando. Começamos a subir correndo. É muito pesado e estou cansado. 'Lutcho' corre nas subidas e dá passadas largas nos planos. Não consigo correr nas subidas e ando, mas nos planos dou piques e alcanço o
peruano. Ele parece incomodado que estou 'na cola' e faz um comentário mais ou menos: 'temos que mostrar para estes gringos que nós sul-americanos somos melhores'.
Quando chegamos à 'Puerta del Sol' as britânicas batem palmas e dão
gritinhos: 'Congratulations'. Tímido, abaixo os olhos e vou tomar mais da
água sagrada. Aliás, tudo é sagrado por ali. Alguns para os incas outros
para o comércio. O guia fica incomodado que todos ainda estão ali. O portão vai ser fechado pessoal. 'Gringos F.P.' deve ter pensado. Acho engraçado. Ele vai na frente de todo mundo, mal consegue esconder a irritação. Vou tranqüilo, afinal tem vários atrás de mim. Aproveito bem a paisagem agora. Alcanço de novo o guia que parece cansado. Vou na frente e ele volta para apressar os outros. De novo. Quando todo mundo volta ao acampamento os últimos já chegaram do Camino Inca. Bom. Tomo banho, 1,50 sol, água de um cano dolorido e frio para dedéu. Mas pelo menos é água encanada e tem quatro paredes para trocar de roupa.
De novo observo, desculpe ficar reparando, mas só as britânicas dos europeus tomaram banho.
Vou com Catherine ver as ruínas de Wiñaywayna. Realmente muito interessantes e bonitas. Os lavabos, os quartos. Elogio Catherine por conhecer tantos idiomas e digo que não falo espanhol, mas estou falando português tentando colocar algumas palavras em espanhol. Falo que ela se viraria bem no Brasil falando portuñol. Estamos encostados numa pedra, sozinhos, e ela está bem perto do meu rosto, me olha, meu coração dispara, as mãos tremem e suam frio, as palavras não saem, gaguejo. Não sei porque não a beijei, a timidez falou mais alto ou o medo de não ter cara se ela recusasse. Virei e pedi que fôssemos ver outro quarto. Dane-se. Terminei um namoro em outubro para poder viajar e me divertir sem compromissos. O namoro estava uma 'M' mesmo e eu
nunca quis namorá-la. Pré-conceitos de garoto mimado. Apesar que depois me arrependesse. Voltamos ao acampamento e falamos às pessoas que perguntam no caminho se vale a pena ir conhecer as ruínas de Wiñaywayna (nome difícil de pronunciar e decorar): dissemos que valia sim.
'Lutcho' ainda estava nervoso porque teve que voltar procurar Rarel que não tinha voltado. Encontrou-a no mato com seu livro de ornitologia e binóculo. Tiveram que pular o portão. Ela nem se deu conta que tinha ficado para o outro lado. Achei graça de 'Lutcho'. Hoje acordamos às 4:30 horas, saímos às 6:00. Chegamos à 3650 metros às 7:00 horas. Choveu a noite toda. De novo. De manhã vimos lindos picos nevados, cachoeira. Sofri no Peru para chegar aos 4200 metros de altitude: frio, dor de cabeça, tontura. Mas a paz e a tranqüilidade que traz vale a pena. Com o ar puro combate-se o cansaço do dia a dia. Não tive bronquite. Graças a Deus. Purifica-se mesmo no Camino Inca. Chegamos às 9:45 a Wiñaywayna. A entrada no museu com a fauna local é grátis. Fizemos ali nosso acampamento.
Foram 5 km de ônibus no primeiro dia. Fizemos mais 15 km neste primeiro dia, mais 18 no segundo e 20 quilômetros no terceiro (descida). O guia é orgulhoso com seu país. Falou de futebol também: Romário, Ronaldo, Bebeto, Dunga e Leonardo no Japão. E de música: Roberto Carlos, Chitãozinho e Xororó, Carrapicho, Tchan. Já entendo bem o espanhol. Deve-se chegar cedo amanhã em Machu Pichu, depois fica muito cheio de turistas. Sobrou bastante folhas de coca que comprei em Cusco. Existem folhas pequenas para consumo e as grandes são para o narcotráfico.
Em Wiñaywayna é onde todos os grupos ficam para seguir no outro dia para Machu Pichu. 'El Baño' ruim, mas tem. Estão todos aqueles tais caracteres, os quais já escrevi, do ponto de partida em Urubamba, até as duas moças bonitas e sua mãe. Que após alguns dias no mato já não estão tão bonitas assim. Há um 'restaurante', onde encontrei um casal de cearenses que iam fazer o trajeto dali para frente. O Camino Inca de 1 dia. E por coincidência, conheciam uma cearense que trabalha comigo. Depois o nosso grupo se reúne para comemorar. O alemão (que fica em 'la carpa' olhando os óculos) até me oferece um gole de cerveja. Mike, Pia e eu somos escolhidos para falar em nome do grupo, agradecendo aos 'los portadores'. Somos os únicos que falam espanhol. Já me consideram como conhecedor do idioma? Falo primeiro e no começo sinto que os peruanos estão sorrindo: agradeço por serem educados e prestativos, etc. Quando vejo que estão franzindo as testas porque não estão entendendo nada, acabo logo o discurso. E todos batemos palmas. Os gringos não entenderam também, mas tudo bem (nem me considero gringo, acho que ninguém). Temos que dar 'propinitas' aos 'los portadores' pelo serviço. Catherine me força a dar 10 soles e eu querendo dar um. Alguns
colocaram dólares.
Um rapaz norte-americano vem conversar comigo. Fala português. E bem. Diz que namora com uma gaúcha e vai ao Brasil depois do Peru. Está chateado. Ele não se deu bem, seu grupo é muito louco. Está só também e o restante do grupo são amigos de algum país. Só que são muito, ãh, como diria, de vanguarda?, espertos? Catherine vai dormir com a prima.
A sensação de chegar em Machu Pichu foi ótima. Energia, e nem toquei Intihuatana ainda. Um garoto quis tirar foto comigo, o peruano guarda de Machu Pichu. 'Lutcho' reclamou bastante dos turistas que andam devagar. Não gosta de espanhóis, nem de gringos. Com razão. Gisela mexeu comigo. É bom ser jovem e sentir. Isso. Há três semanas um incêndio queimou em volta de Machu Pichu. Lamentável. Em Lima, conforto, Gisela, Sr. José, Sra. Sueli. Para Cusco, tudo de novo. Só. No Camino Inca novos amigos. 'Mañana' volto para Cusco e 'viernes' Puno. Tudo de novo. Só.
Dia 13 Acordamos às 3:40 horas para chegarmos antes em Machu Pichu. É bom caminhar antes do amanhecer. Saímos quando ainda era de madrugada e pudemos ouvir os pássaros. Os sons dos pássaros são interessantes ao alvorecer.
Descemos 'Puerta del Sol' e ficamos num plano alto contemplando a cidade por um longo tempo. Todos calados. Alguns talvez prestando atenção no que sentem. Ou todos. O guia verifica como cada um vai para Cusco. Vou de 'Pullman'. Depois de pagar 17 soles pela entrada, conhecemos Machu Pichu.
Somos uns dos primeiros a entrar e pudemos ver com tranqüilidade a cidadela. A minha foto de Intihuatana só saiu junto os dois japoneses, o canadense (também tirando foto), o irlandês e Rarel, sentada. Machu Pichu é bem interessante. Gostei muito das maquetes junto à Intihuatana, a pedra sagrada para sacrifícios, que fica no lugar mais alto. A maquete na pedra tem todas as montanhas ao redor. Quando toco Intihuatana, fecho os olhos e só vejo o rosto de Catherine. Seu cabelo loiro despenteado, seus olhos azuis. Seu rosto com sardas. 'Quase não me apego fácil'. Acho que é por estar viajando só e estar ainda inseguro. O Templo do Sol e os lavabos também são bem interessantes. Lembro dos romanos e seus sanitários em praças redondas.Também é interessante a 'plaza' da cidadela. Depois de 'Lutcho' mostrar e explicar todas as ruínas estamos livres para passear. Lembrei Chinchero, atrás da Igreja das figuras nas pedras (que esqueci de ligar o 'flash' para fotografar 'el condor'). Só de novo. 'Mañana' Puno. Até agora tudo legal. Deve-se ter cuidado para falar condor e pinga. Comprove. Saiu sangue do nariz todos os dias da caminhada.
Encontro novamente o rapaz americano que fala português. Ele gosta quando lembro-o da palavra 'legal'. As suíças estão sentadas embaixo da única árvore que faz sombra. Sento perto delas encostado na árvore. Após certa hora da manhã é o lugar mais cobiçado do lugar. Um casal também senta perto da gente e, êpa, será que estão falando português? Sim, é um casal paulista. Conversamos um pouco depois vão embora. Catherine diz que não entende nada de português. Vamos embora. Nos despedimos com um aceno de mão, de longe. Que pena. O grupo ficou de se encontrar num restaurante em Aguas Calientes. Tiro a última foto de Machu Pichu. Estou contente.
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