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Promperu / Mylene D auriol

Camponeses de q´eros

Aguas Calientes

 

     Há um bom restaurante e hotel do lado de fora de Machu Pichu. Reclamam que o dono do hotel monopolizou a água sagrada. Acho o ônibus caro: 8 soles para descer até Aguas Calientes. Outras duas moças lindas no ônibus. Os dois jovens norte-americanos também vão neste. Será impressão minha um certo tom de altivez de Mike? Não sinto do outro rapaz norte-americano. Estão também o casal de cearenses, que fico conversando. Um grupo de peruanos perguntam se sou americano. 'No, no, brasileiro'. As meninas querem tirar fotos comigo, olhos claros. Vamos conversando. Querem que eu cante uma música e um rapaz do grupo que diz falar português tenta ser o tradutor de 'Exagerado'. Ele traduz várias coisas erradas. Está tudo ótimo. Em Aguas Calientes, vou com os dois jovens norte-americanos procurar o restaurante. Falo 'melhor' o espanhol. Acho.

 

    Depois de almoçarmos, a dona do restaurante pede para trocar a minha camiseta por uma dela de Machu Pichu ou outra que escolhesse. Ela faz coleção de camisetas do mundo todo. Eu topo. A minha está escrito 'Natal. Cidade do Sol' e uma estampa de uma jangada, coqueiro e sol. Não gosto desta camiseta porque ela não tem as mangas e é com fios que desfiam, lembrança do Rio Grande do Norte. Está toda suja e suada. Saio do grupo de turistas e fico conversando com 'Lutcho' e seus amigos que falam espanhol. 'Lutcho' diz que também coleciona camisetas e quer cambiar comigo. Digo que já dei palavra para a dona do restaurante. Peço a ela que peque logo suas camisetas sujas para eu escolher, ou vou cambiar com 'Lutcho'. Para minha surpresa, ela chama uma vendedora na rua e diz para eu escolher. Limpinha. Novinha. Cheirosinha. Bonitinha. E tiro a minha, velhinha, sujinha, fedidinha, velhinha. Fico sem camisa no restaurante mesmo. Gosto tanto do negócio que tiro todas as minhas outras camisetas da 'backpack' para cambiar. As com estampas em inglês eles não querem. 'Camisetas de americanos no'. Só tenho mais uma com estampa sem ter escritas inglesas, uma com rostos de pessoas, que levei para dar fim no Peru. Cambio esta com 'Lutcho': ele quer uma, a dona do restaurante aceita. Só que ele quer trocar com a que ele está usando. E usou em todo o Camino Inca! Nem pensar, digo que vou cambiar com 'la' dona do restaurante. Ele concorda então em me dar uma nova resmungando 'brasileiro esperto'. Eu mesmo chamo a vendedora e escolho então uma de Machu Pichu. Se tivesse outras camisetas do Brasil trocava todas por outras limpas. A dona do restaurante queria mais. Nem vou lavar roupa tão já. Eles cobram 6 soles por uma trouxa. Que bom: cambiei duas camisetas por uma do Camino Inca e outra de Machu Pichu.

 

    Dou uma volta em Aguas Calientes com um dos japoneses, já nos entendemos em espanhol. Como eles aprenderam rápido! Diz que os três fazem faculdade no Japão e nas férias foram continuar o curso de inglês nos USA, e então desceram na Guatemala e vieram descendo a América Central até a América do Sul. 'Muy' bacana. Não quisemos ir nos banhos de água quente. O trem já vai sair. Me despeço dos japoneses, não mais os vejo. As britânicas vão no mesmo trem. Sento na mesma poltrona que Mary, junto a Pia e Dhili. Não consigo dormir. Mas Pia e Dhili dormem e Mary não fala bem o espanhol. Quer ler. A volta de trem a Cusco de Aguas Calientes é boa. O trem acompanha o Rio. De noite, é a lua mais brilhante que já vi.

 

Cusco

 

     Dou uma volta por Cusco à noite. Muitos doleiros. Revelo minhas fotos do Camino Inca: curioso. Estou cansado. Conheço bem a cidade em volta da Plaza de Armas. Volto ao hostal e 'mañana' viajo a Puno. O 'boleto' de passagem já está comprado, custou 62.77 soles. Tudo está ótimo. Ainda estou no 0x0, mas estou me sentindo muito bem.

 

     Dia 14. Acordo cedo. Tomo banho. Sabe-se lá quando vou tomar o próximo. O dono do hostal, Sr. Julio, muito simpático (lembra um sacerdote inca), me cobra. Antes de sair dar a última volta por Cusco, pois logo iria para a ferroviária, ele me ensina: 'Hasta luego', que ouvia os japoneses dizerem sempre e não entendia. Não me canso mais em andar pela cidade, acostumado com a altitude. Os símbolos e desenhos incas são bonitos. É hora de voltar ao Hostal Pardo. De taxi seguir para a ferroviária pegar o trem, das 8:00 horas.

 

Encontro minha poltrona, na janela.

- Do you speek english? Spanish?

- Espanholl.

Uma senhora me explica que é guia de um grande grupo de turistas alemães e me pede para trocar de lugar, para um casal sentar junto. Não há problema.

Fico numa poltrona de corredor. A duas senhoras à minha frente são

distintas. Uma deve ter sido linda quando jovem.

 

    Coloco uma camiseta, está calor em Cusco. Também o chinelo, estou com muitos calos. Também tenho muitas picadas de mosquitos e dores nos músculos, principalmente das pernas. É bom fechar os olhos e sentir o balanço deste trem. E como balança.

 

    Coincidência. Pia, Dhili e Mary estão no mesmo vagão. Me convidam para sentar perto delas. Há um lugar vago. Pia tem o cabelo curto e fino, bem loiro e olhos azuis. A tez bem branca, vermelha de sol e protetor. Nariz fino. Elétrica. Londrina. Não é linda, mas é atraente. Fez publicidade. Mary tem os cabelos castanhos encaracolados. Tez mais clara que Pia. Rosto não bonito, faz com que pareça antipática, mas ao contrário, sempre responde com educação, apesar de demonstrar pouco interesse. Escocesa. Também fez publicidade. Dhili é negra, e acho estranho uma negra escocesa. Fez medicina. Não fala nada em espanhol. Tento manter algum contato, mas o espanhol de Pia é difícil para mim. Ela morou na 'España', e fala bem, mas só entendo o espanhol dos nativos. Dos gringos é difícil. Pia fala que quando morou na Espanha conheceu um brasileiro, garçom, muito louco. Fazia festas todos os dias na casa dele. Todos os brasileiros são loucos. Tento responder, com jeito, que nem todos e por alguns saírem do país e se mostrarem de um modo, o mundo todo fica achando que nós brasileiros somos todos iguais. Tento mudar o assunto para 'Cold War', meu interesse antes da viagem ao Peru, mas Pia não se interessa pelo assunto. Parece que os norte-americanos - os dos 30 anos, não os jovens - não conseguiram nada com as jovens britânicas.

 

     Elas estavam jogando cartas. Me convidam a jogar também. Não lembro o nome, mas começávamos com 7 cartas cada jogador. Tínhamos que fazer uma combinação (estilo canastra) de pelo menos 4 cartas e fazer um jogo e colocar na mesa. As outras três cartas poderiam ser colocadas nos jogos dos outros e quem acabasse primeiro ganhava. Não Sanderson, não pode começar colocando as 4 cartas nos jogos dos outros. Primeiro faça o seu jogo de 4 cartas para poder usar o jogo dos outros jogadores. Ganhei a primeira. Sorte. Na segunda, fiquei com todas as cartas na mão, mesmo com um jogo de 4 cartas não coloquei na mesa, pois elas veriam meu jogo e poderiam ganhar, usando meu jogo. Esperei que tivesse as sete cartas combinadas, sendo pelo menos 4 num mesmo jogo, meu, para ganhar. E fiz assim umas sete vezes seguidas. Dhili desistiu logo. Não queria jogar. Mary ficou irritada por eu ter ganho todas e Pia sugeriu que acabássemos. Pia sugeriu outro jogo a Mary, mas ela olhou para mim e não quis. Achei engraçado e voltei para minha poltrona.

 

     Paramos. Descemos alguns turistas. Vendedores. Queria uma medalhinha igual aquela do símbolo em Cusco e não achei. É um sol, um rosto, redondo. Outras bugigangas, 1 sol, 2 soles. Não me interessou. Não sou consumista. Aprendi uma frase com a senhora guia: 'Es demasiado caro'. Aproveito e tiro fotos dos picos nevados. Ouvi dois homens falando português. Puxei papo. O trem começou a andar. Eram dois cariocas e mais um paulista que havia ficado sentado. O paulista se uniu aos dois cariocas depois de chegar ao Peru. Antes não se conheciam. Cariocas doidos. Contei do Camino Inca, eles gostaram de ouvir. Disseram para eu não perder as touradas em Lima. É interessante as flechadas no touro. Será? Eles estavam meio perdidos. Estavam por pacote turístico e não sabiam se desciam em Juliaca ou Puno.

 

    A paisagem de Cusco a Puno é belíssima, picos nevados bem perto, montanhas, vales. Vale a pena fazer durante o dia. Em outras paradas uma coisa feia.

    Pessoas muito pobres, crianças pedintes. Um dos cariocas pegou um pão e ameaçou dar para uma garotinha, ela veio correndo e ele a enganou.    Ele rindo bastante na parte entre os vagões. Eu com ele. Dei risada junto, mas mesmo na hora achei triste aquela atitude. Que pena.

 

    Há um vagão somente de portugueses. Converso com uma senhora. Compreende-se bem. É o mesmo idioma. Tinha ouvido falar que não se entendia. Informações erradas são uma 'M'.

 

     O almoço não está incluso na passagem. Vinte e três soles, muito caro. Pedi carne. Comer frango, com osso, com aqueles bacanas ia ficar envergonhado. As poltronas são confortáveis e o trem confiável. O carioca veio me chamar para conversar:

'- Pô, este vagão é bem melhor.

- Talvez foi a agência no Rio que te vendeu a passagem de segunda.

- É, deve ser.' Respondeu com sotaque.

Rimos quando lembramos que todo mundo buzina os carros em Cusco. Quando andando, os taxis buzinam para saber se precisa dele. São bem baratos, 2 soles geralmente. Mas os lugares são pertos e prefiro caminhar. Revelei minhas fotos em Cusco. No Peru é mais barato a revelação. Aliás, todo o custo de vida é mais barato. Também, com o pouco dinheiro daquelas pessoas, só poderia ser assim. O carioca diz que não é bom gastar no cartão porque supervalorizam a moeda local. Informação errada é uma 'M'. Quando veio a fatura do cartão, o sol estava barato e o dólar também. Não devia ter economizado tanto e gastado tão pouco no cartão.

 

Juliaca

 

   Tento 'azarar' uma moça que trabalha no trem, Nashtinka, mas posso chamar de Tati. Ela não é bonita de rosto, mas tem um belo corpo. Tento um encontro em Puno, mas não dá certo. Pelo menos ela ensina as diferenças entre 'Shakira', 'chakira' e 'majurki'. Todos descem em Juliaca, até os cariocas. Dou uma voltinha na cidade antes do trem partir. Juliaca 'es peligloso' e bagunçado. Fica a 4500 metros de altitude. Encontro, isto é, sou encontrado por Javier, que me indica o Hostal San Antonio em Puno. O que descobriria depois, foi o pior da viagem. Ficamos as três britânicas e eu no vagão. Nem tantas mais publicidades da cerveja cusqueña, agora mais da arequipeña. Fico só. O fim de tarde está lindo.

 

Puno

 

     Javier está me esperando num carro. Há um peruano segurando um cartão com os nomes dos cariocas, se ferraram, não deviam desembarcar em Juliaca. Culpa da agência de turismo deles que não os instruiu direito. Em Lima e Cusco todos os carros buzinam sem parar, até os trens. Já em Puno o trânsito é mais sossegado. A primeira impressão de Puno foi ótima. Doze mil habitantes.

      Muitos jovens na Plaza de Armas (toda 'ciudad' peruana há uma). O pessoal do Hostal San Antonio me levam até o Hostal, preço não há como pechinchar: 20 soles. Combino o preço com Javier dos passeios de barco pelo Lago Titicaca e City Tour. Paguei 160 soles em Cusco. Iria pagar US$124.00 em Cusco pelo passeio em Puno, sem o 'boleto' para Arequipa e outras coisas. Combino US$75.00 com Javier em Puno, até agora, sempre com a passagem para a próxima 'ciudad' incluída. Javier diz que dá o troco depois, US$5.00, em dólares.

      Ahhh. Devia ter exigido na hora. Depois pude comprovar o aborrecimento. Nem me toquei que o passeio em Puno estava saindo mais caro que o de Cusco inteiro. Mas já era noite alta, procurar outro lugar aquela hora seria arriscado e se procurasse um preço melhor para o passeio no dia seguinte, perderia um dia - das férias.

 

      Para minha surpresa, as três britânicas ficam no mesmo hostal. Vão logo perguntando se 'hay agua caliente en el Hostal'. Vou dar uma volta por Puno e constato como a noite é fria. Encontro uma aconchegante pizzaria. Tento fazer algum contato com o garçom. Um senhor da mesa em frente, Jorge - se pronuncia Ror-rre, me chama para sentar com ele e seus dois amigos. Jorge é casado com uma capixaba. Morou no Brasil e agora tem uma empreiteira no Peru. Diz que está ganhando dinheiro pois o Fujimori está construindo várias estradas. Os três se tratam por 'engenheiros', deve ser um título muito importante, considerando uma grande parte da população ainda analfabeta, como no Brasil. Um dos senhores é distinto, e o outro, o 'palhaço' do grupo, é puxa-saco e ainda sempre do contra, não entendo. Fiquei conversando com eles até tarde. Jorge insistiu em pagar a pizza e a cerveja. Me deu o telefone de sua casa em Lima. Na volta fiquei de ligar.

 

Dia 15 Hoje vou conhecer o 'Titicaca Lake'. dormir numa ilha com os índios uros, ver rituais e também os grandes sapos do Lago Titicaca. No carro do translado encontro um bonito casal de argentinos, ela é maravilhosa. Uma moça de cabelos bem pretos, pele branca, um pouco vermelha de sol, mas bem cuidada. Olhos verdes lindos. Um belíssimo corpo. Roupas atraentes. Ela pergunta:

'- Do you speek english?

- No. Falo português', respondo com enfado. Perguntam de onde sou e perdem o interesse depois da resposta. Tudo bem. Encontramo-nos de novo, as três britânicas e eu. Há ainda no barco (sem nenhum item de proteção) além dos argentinos, um casal de senhores limeños, um arequipeño, Luis (outro Lutcho), dois israelenses, que estavam conversando com as duas moças bonitas no aeroporto de Lima, mais Sandra, uma psicólogo de Buenos Aires e um casal, ela suíça, ele romeno. O guia nos explica os detalhes do passeio. Até que enfim o idioma oficial é o espanhol: a língua que a maioria fala - ou tent,

como no meu caso. Pergunto dos índios. O guia explica que os índios uros não existem mais há 150 anos. Os das ilhas são moradores do continente que vivem do turismo e se vestem a caráter para isso. Considero que logo não vamos ver ritual nenhum. E os sapos gigantes? Eles ficam muito longe e fundo, não é possível vê-los, o guia explica. 'Que beleza de passeio'. O guia explicou o significado do nome do lago: Titi do Peru e caca da Bolívia. E outras piadas sem graça.

Promperu / Domingo Garibaldi

Lago Titicaca

    Navegar no Titicaca é legal. As ilhas de totoras são interessantes. Paguei 1 sol, não 2 como queria o jovem peruano, para dar uma voltinha numa canoa de totora e o canoeiro colheu uma totora da água e me deu para comer: comi a totora, não tem gosto de nada a totora. Entrei numa cabana de totora e vi artesanatos de totoras. Tudo isto em uma ilha de 100 metros de diâmetro, de totoras. Se não bastasse tanto totora, fui andar atrás das casas de totoras, porque? não sei. Sempre gosto de me afastar do grupo. E pude conhecer bem o Titicaca. Sua água verde parda, fria. Pelo menos meu pé e perna. Enfiei a perna num junco mal arrumado (a cada 2 meses é necessário colocar nova camada da vegetação para a ilha flutuante continuar, flutuando). 

 

     Quase perdi meu chinelo. Foi difícil não deixá-lo cair do pé. Trazê-lo por entre as totoras, com a calça de moleton encharcada. Olhando para os lados se ninguém viu o fiasco (estava atrás das cabanas). Só os dois israelenses viram. Ainda bem que não riram. Pelo menos na minha frente. (Estava frio ainda aquela hora da manhã.) Ainda não nadei no Pacífico, mas quase no Titicaca. Fui para frente do barco, onde venta mais e coloquei tudo para secar no sol do Titicaca: calça, camisa, bermuda, cueca, pochete. Graças que estava com uma bermuda 'abajo'. Ainda bem que não molhou a carteira, nem passaporte, nem grana. 'Meti o pé na lama', isto é mal, minha intuição diz que vou ter problemas nesta região do Peru. Alguns chamam de intuição outros de Anjo da Guarda avisando.

 

      Um dos israelenses (só um fala espanhol) se solidarizou com o meu acidente. Conversei com o romeno, disse que o Conde Drácula é que lembra seu país. Ele concordou, +/-. Acabou a faculdade de Educação Física na Suíça e está passeando com a namorada para comemorar. Mesmo com as dívidas da faculdade e sem grana para viajar, emprestada. Camisa, calça e pochete já secaram. 

      Chegamos em Amantani. Fomos o romeno, sua namorada, Luis e eu ver o lago de pertinho. Não há praia. É só pedra. O romeno insistiu em tomar banho no Titicaca. Apesar do frio e a água gelada de rachar: talvez ele nunca mais vá no lago navegável mais alto do mundo, disse, não ia perder a oportunidade de se banhar no lago. Ficou de cuecas e entrou. Luis o seguiu, sem vergonha da namorada do colega. Eu estava de sunga e entrei reclamando. Mas logo saí. Para secar no sol e vento, gelado. Depois ficamos vendo três indiazinhas tomando banhos nuas no lago. Eles tiraram fotos. Tirei uma foto, mas de perfil.

       Conhecemos ruínas pucaras, civilização pré-incaica - pouco interessante. Subimos e subimos. A descida é boa. Converso com Sandra, argentina simpática, psicóloga. Sem ser bonita, tem um corpo esguio e voz ..., bem voz de moça. Diz que gostaria de continuar viajando, mas 'la plata' acabou e tem que voltar a Buenos Aires trabalhar - e descubro que até os psicólogos tem lá suas fraquezas. Também converso com um rapaz do País de Gales, e pelo porte físico pergunto se joga rugby. Diz que é o principal esporte do país, e conta um pouco desse país pouco conhecido por mim.

 

      Não levei comida para a ilha. Serviram 'desayuno', 'almuerzo' e 'sena', mas fiquei com fome. Mas não vou morrer se comer pouco até amanhã no 'almuerzo', tomando 1,5 litro de água. Fiquei no mesmo quarto que Luis. Ficamos 2 a 3 turistas em cada casa, para distribuir melhor 'la plata' entre os moradores. Ele me deu dicas para quando fosse à Arequipa. Diz que custa US$24.00 o passeio 'en el Cañon', que Arequipa é mais quente, tem 2 milhões de pessoas e é perigosa. E é a cidade peruana com maior colonização espanhola, e as pessoas tem mais aparência de europeus que de incas, 'logo as mulheres são mais bonitas', pensei. E diz ainda que é a cidade mais importante do Peru, depois de Lima. 'Lutcho' é gente boa. Até me dá uma 'manzana' sua, porque 'la sena' não foi muito reforçada. Não há luz elétrica. Velas. Fui dormir cedo. Luis ficou conversando com a dona da casa até tarde. Não os entendia direito. Falavam um pouco de quéchua, aymara, um pouco espanhol. Uma mistura só segundo Luiz.

 

Dia 16 O Titicaca parece um mar. Ontem teve danças regionais, mas choveu forte e fui dormir. 'Lutcho' assistiu e 'hablou' que não perdi muita coisa. A 'ciudad más' agradável até agora é Puno. Mais tranqüila. Sei falar: 'Olá! Como estás? Bien? Buenos dias'. Depois descobri que estava errado: 'Olla. Que tal? Bien? Buenos dias' seria melhor. Pior quando falava: 'Hablas devagar'. E eles falavam 'despacio' para mim.

 

     Estou com dois calos no pé esquerdo, dois cortes no direito e um corte na cabeça devido à topada na porta da casinha dos nativos pequenininhos 'de la isla'. Taquile 'es' tranqüilo. 'Las personas no muy amistosas'. Converso com um dos israelenses. Me conta que em Israel são 3 anos de serviço militar obrigatório. E todos são obrigados a cumprir, pois estão sempre em guerras e há poucos jovens. Então muitos destes jovens - como ele e seu amigo que encontrou no caminho e agora viajam juntos - após o serviço militar, viajam pelo mundo pelo menos um ano. Depois voltam para cursar a faculdade. Puno e seus passeios não me agradaram muito, esperava mais pelo que tinha lido. O melhor, sinceramente, deste passeio, foi guiar o barco na volta. Mas logo o rapaz tirou de mim dizendo que assim não chegaríamos 'hoy'.

 

     O rapaz israelense me dá um cartão do Hotel Residencial Europa em Lima. Outra pessoa me indica o Hotel España. Caso Gisela não me dê atenção, vou para um lugar mais barato. Os Albergues da Juventude 'son más caros' que as hosterias, que também tem 'agua caliente' e 'baño privado'. Mas os AJ's são mais higiênicos, cobram de US$9.00 a US$15.00 e hosterias de 10 a 20 soles. A diferença é gritante.

 

     Nesta região do Peru, Puno, o sol é escaldante, 'pero en la noche' faz um frio de congelar. Típico clima de deserto. Meus lábios ficaram partidos. E o pé rachado por usar sandálias. 

 

      Em Cusco é mais barato, em Puno um 'desayuno' é 4 a 6 soles, 'almuerzo' é 8 a 12 soles e 'sena' é 7 a 12 soles. Dizem que a Bolívia é ainda mais barato e pobre. Muitos europeus viajam ao Equador, Chile, Bolívia e Argentina e os mais corajosos à Colômbia também, que é perigosa. Os mais baratos são a Bolívia e o Peru. Em Puno tomei uma água mineral horrível, gosto de ferro com terra. O custo de vida do Peru é mais barato que no Brasil, como já escrevi antes.

 

     'En la noche las personas' do grupo combinam em se encontrar. Foi muito legal. Encontro primeiro Sandra na igreja. Foram também o casal europeu, o casal argentino, os dois rapazes israelenses, e 'Lutcho'. Converso mais com um dos rapazes israelenses e com o argentino. Que faz várias perguntas, como a Guerra do Yom Kippur, a versão do povo israelense. Fala também do idioma hebraico, que se escreve ao contrário, segundo o argentino - 'Não, vocês é que escrevem errado' - responde prontamente, brincando, o israelense. Fala de Israel e seu desenvolvimento. Muita cerveja cusqueña, que é muito boa, a

melhor do mundo para os peruanos.

 

      Dia 17. Faço o City Tour e conheço Sillustani. O guia diz, amável, que

conheço bem a história do Peru. Sinto que os brasileiros são apreciados no Peru, mas espanhóis não são por alguns mais radicais, nem europeus, nem judeus. Os países latinos e asiáticos 'no hay' problemas. As tumbas - chullpas - de Sillustani são interessantes. Tem formato de cones aberto para o céu, mas terremotos as deixaram em ruínas. Tirei uma linda foto da

tempestade chegando, na vista do Lago Umayo. E há uma pedra com um rosto de puma e um símbolo de esotérico. Se dá energia mesmo não sei, por via das dúvidas fiquei tocando nela. E uma foto de recordação. Garotas peruanas querem tirar foto comigo: acham que sou norte-americano. Tudo bem.

 

      Andando por Puno, vou aos 'Correos', que acho caros os selos para o Brasil. Encontro uma farmácia com uma balança, antiga, daquelas de posicionar de 10 em 10 quilos. Perdi 2 quilos no Trail Inca. O alemão que olhava os óculos do Camino Inca também está em Puno, fazendo um lanche. Melhor nem comprimentar, 'fechadão'. Encontro o casal europeu e Sandra passeando. Vamos até uma região muito pobre 'de la ciudad'. O casal de europeus nos indicam o Hostal La Reyna em Arequipa. Combino com Sandra de nos encontrarmos neste hostal: custa 10s/. e a dona é simpática. Também tem o Hostal Bolívar por 15s/. Depois mais duas pessoas me indicam o La Reyna.

 

- Hasta luego.

- No, Sandra habla, hasta la mañana.

Sí. Hasta la mañana.' Me despeço também do casal de europeus. O rapaz romeno é muito bacana. Nunca mais os vejo.

 

      Todos os dias ainda tenho um pouco de dor de cabeça e sangue do nariz. As britânicas vão de avião para Arequipa a partir de Juliaca. É a última etapa da viagem delas e querem mais conforto. Nos despedimos. Vou de trem 'en la noche', economizo com avião e uma diária, aproveitando viajando. A melhor paisagem, segundo dizem é Cusco para Puno mesmo, e esta eu fiz durante o dia. É muito fácil conseguir um hostal nas cidades. Na estação de trem ou no aeroporto 'muchas personas' te cercam e oferecem hospedagem.

 

     Tenho um problema quanto a conversão de dólares no Hostal San Antonio. Não posso querer ISO 9000 também. Ás vezes me esqueço que terceiro mundo existe e exijo direitos. Nos hostais, como o Hostal San Antonio, na primeira 'noche ', dão toalhas, papel higiênico e sabonete. Na segunda em diante tiram tudo pois dizem que falta ou acabou. Se ficarem devendo sempre pagam menos, como foi o caso de Javier e meu troco. Não tive sorte em Puno com o Hostal San Antonio e a Inca Tour. Todos cobram adiantado. A senhora da pensão ficou me 'enchendo o saco' direto para eu pagar adiantado. Eu disse que iria pagar quando seu filho, Javier, me desse o troco. Ela me incomodou tanto que acabei pagando mesmo sem o troco: 45s/. por duas 'noches' e um 'desayuno'.

Exijo o comprovante e ela diz que não tem. Exijo de novo e ela pega um num hostal perto: que está escrito cancelado, desisto. Javier mandou um colega me levar até a ferroviária e me deu o troco pela metade. Quando descubro, já no trem que Javier cobrou US$25.00 do 'boleto' à Arequipa e este custou US$10.00: no 'boleto' está 30s/., fico muito bravo. Fico com vontade de descer do trem e ir pegar o dinheiro de volta com o safado. Mas besteira. Iria perder o trem, e como achar o cara de noite? Deixa para lá. Pelo menos estou bem. Da próxima vez eu mesmo compro meu ticket. Foi a parte em que fiquei mais chateado na viagem. Por ser enganado. Mas agradeço a Deus por estar bem. A R&C em Cusco foi honesta, apesar de 'algunas personas' pagarem US$50.00 por Inca Trail.

 

     Já me acostumei com a rotina de conhecer pessoas e seguir meu caminho. Como fiquei em Lima e Machu Pichu. Adaptado. 'Algunas personas quedam enfermas': comida estragada, insolação, 'soroche', e outras coisas. Graças a Deus estou bem As igrejas são bonitas em Puno, pessoas com trajes típicos. 'Mañana voy conocer Arequipa': Cañon del Cocca a 4800 metros de altitude, 'vulcones', Convento Santa Catalina, 'museos', múmias.

 

     Cobra-se de 6 a 12% no cartão de crédito. Ouvi algumas pessoas dizendo que tiveram dificuldade de 'cambiar travells checks'. Levar uma calculadora 'ayuda mucho'. 'Hay muchas personas viajando solo', também em duplas e trios.

 

     O trem que peguei para Arequipa é ruim, sem conforto. Droga de Javier, US$25.00 devia ser uma classe melhor e ele me comprou na econômica. Os nativos viajam clandestinamente: pulam as janelas. 'En toda ciudad hay Plaza de Armas' e um Cristo de braços abertos. Ai! Os pés rachados estão incomodando.

 

 

Veja também:
   
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Lima, Cusco e Urubamba
Camiño Inca & Machu Picchu
Aguas Caliente, Cusco, Juliaca e Puno
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Nazca, Ica e Pisco
A Volta

 

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