Sanderson Oliveira/ Arquivo Pessoal
As linhas de Nazca, vistas de avião |
Nazca
Dia 21. Chego às 4:00am em Nazca. Está escuro, e sou o único que desce do ônibus. Como não tenho para onde ir, fico ali parado. É um pueblo bem pobre. Será que é Nazca mesmo? Um rapaz, muito mal apresentado sai de um carro e se aproxima, tem mais outros três no carro velho. 'É Sanderson. Agora ferrou.', penso. Espero. Ele diz que é de uma agência de turismo e quer negociar meu passeio em Nazca. Faço algumas indagações, pechincho, e fico mais tranqüilo achando que não é ladrão. E não era. Ele me leva para a agência, onde posso ir ao 'baño' e sentar numa poltrona confortável. Quando amanhece, quero sair e ele tenta me impedir. Quer que eu espere o rapaz para fechar o passeio. Mas saio e digo que volto depois. Ah, entendi. Encontro outras agências, todas mais baratas. Acerto na agência onde fica o AJ de Nazca. Volto à agência daquele rapaz e digo que não quero mais o passeio, com jeito. Ele e seu amigo ficam desgostosos e amargos. Ofereço 'galletas' e eles acabam com elas, sem educação. Dizem que pareço judeu, por ser sovina, e essas coisas, mas pelo menos ofereci 'mi galletas', os judeus nem isso fazem. Fico esperando o passeio no AJ. Os jovens do AJ são muito loucos. Uns com rastafaris enormes, outros todos tatuados. Bem louros com peles bem morenas. Fumando no fundo do quintal. Os empregados do AJ encarnam em mim. Me chamam de Brasill, como 'Lutcho', o guia do Inca Trail, me chamava. Brasill, Brasill. Povo esperto, dizem. Futebol, praias, carnaval. Já estão me enchendo o saco com este papo. Um 'seca' a minha bota de trekking que paguei R$110,00 (achei caro), e quer trocar a qualquer custo. Pela calça que está usando. Pergunto se vou ficar descalço. Ele diz que o problema é meu. Não achei o negócio atrativo. Então quer trocar minha calça de moleton. Diz que não tem deste tipo de roupa no Peru. Recuso de novo. E pega na bota, na calça, me abraça. Que saco! Avacalhados. Custaria 10s/. para dormir em Nazca, mas compro minha passagem para Pisco logo para o fim da tarde.
Os desenhos são 'mucho' interessantes. Voar no aviãozinho também. Vale a pena ver uma vez, e nunca mais. O cemitério é interessante, as cerâmicas e o método de achar ouro também. O senhor que faz as cerâmicas, cria aves em seu pequeno quintal. Cruel, pega-as e corta suas asas e precisam viver pulandinho em 3 m2. Há até um quiriquiri.
Gasto, literalmente minhas últimas fotos para revelar em Nazca. É mais barato
que em Cusco. 'Almuerzo' custa 5s/., o guia ao cemitério é a pessoa mais bacana que conheci em Nazca. Cemitério este que fica num deserto total, onde das múmias só sobraram as caveiras. Tem pequenos redemoinhos de ventos a toda hora. São bonitos de se ver. Já as caveiras, 'sei lá'. Muitas tranças, crânios perfurados, crânios, ossos, esqueletos. Não cortavam os cabelos. O que deviam ter de bichos neles! Fico tonto no deserto. Muito calor e árido. Fiz o passeio no avião com a mesma americana (bonita) que vi no passeio ao Vale Sagrado de Urubamba em Cuzco. Tinha um outro americano tentando 'azarar' a moça. Pela cara dela deve ser difícil. Nem me olhou. Converso com sua guia. Uma austríaca que já viajou várias vezes à América do Sul e fala muito bem 'el español'. Achei estranho uma guia para uma única pessoa. Mas vale.
Promperu / Anibal Solimano
Laguna Huacachina entre as dunas de Ica |
Ica
Não gostei muito de Nazca, apesar das montanhas. Revelo minhas fotos. Tomo 'ducha' no AJ e pego o ônibus para Pisco. A americana e sua guia sentam atrás de mim. Não querem papo. Viajo de chinelo sempre, é mais confortável. E deixo a bota, uma toalha e alguns pertences dentro da mochila que comprei em Cusco. Uma bem colorida que ia dar de presente para minha irmã quando voltasse. Fico preocupado com minha mochila grande que ficou no bagageiro de baixo. Deixo a mochila colorida em cima, dentro do ônibus, durmo e me surrupiam-na. Fui roubado. Vacilei. Vacilei. Droga. Repito para a guia. Ela concorda. Parece que entende o que quero dizer. No pára e desce do ônibus até Ica, algum pícaro passou a mão na mochila. Reclamo com o cobrador e motorista, dizem que não podem fazer nada. Quero minha outra mochila e eles me dão. Em Ica, um monte de gente em torno da rodoviária, impossível achar alguém com uma mochila colorida, e pode ter descido antes da rodoviária. Procuro várias vezes dentro do ônibus. O cobrador e motorista não me ajudam e ficam incomodados com o meu problema. Fico sem minha bota e toalha. Deixa para lá. Tenho ainda um tênis e outra toalha. Deus sabe o que faz. Mas a bota faz falta até hoje. Quando chego em Pisco já estou conformado. O bom é que a bagagem ficou menor para carregar nas costas.
Pisco
Parece ser bacana. Cidade praiana. As pessoas com ar despreocupado de veraneio. Bermudas, camisetas folgadas. Estou chateado ainda pelo roubo. 'Las mujeres' praianas são mais bonitas. O clima em Pisco é mais saudável. Já compro a passagem para o dia seguinte para Lima na rodoviária mesmo, após me informar que 1 dia para conhecer Pisco é o suficiente. A passagem custou 10s/., pela mesma empresa a qual vim de Nazca - mesmo depois do roubo: Ormeña - mas agora vou agarrado à mochila. Um rapaz oferece hosteria e passeio. Negocio, ele é inflexível. 10 s/. o hostal e 20 s/ o passeio. Não abaixa o preço nem se sensibiliza com o roubo e eu estar de chinelo. O preço está barato mesmo. 'La sena' é que achei cara. Bateu saudade de Gisela. Talvez seja insegurança pelo roubo. Está próximo de encontrá-la.
Dia 22. Pisco é bacana. Várias companhias pesqueiras. No ancoradouro onde pega-se a lancha, vários pelicanos e outras aves marinhas. No passeio, o mesmo casal francês (chato) que vi no passeio em Cusco. A lancha é muito boa. Só que a cada descida da popa na água é um banho em quem está atrás. Mas é legal. A figura geométrica na areia é impressionante. O guia disse que ela não desmancha porque o vento não bate a favor. Alguns dizem ser criada por extraterrestres, outros para indicar uma cidade importante. Outros ainda, uma homenagem a Simón Bolívar, o libertador de 5 países sul americanos, entre eles o Peru. Parece uma flor, com três galhos, geométrica.
As Islas Ballestas são bonitas e interessantes. Muitos lobos marinhos, pingüins e aves marinhas. Há um casal de abutres nidificando, junto com várias outras aves marinhas, como pelicanos, gaivotas e atobás. Várias espécies diferentes vivendo em sociedade. Também bonitas 'star-fishs' grudadas nas pedras. Tive sorte na foto. Quando a onda abaixou, tirei a foto e saiu legal.
Na praia dos lobos marinhos, centenas, berrando, brigando. Brigam pelo espaço e pelas fêmeas. Vale a pena ver pelo jeito que mostram seus dentes entre si. Os líderes ficam de cabeça para cima ostentando seu harém. São várias fêmeas. O guia disse que são inofensivos aos homens. Na volta fiquei 'mirando' os atobás pescarem. Estes mergulham girando no ar. Pisco foi uma das cidades que mais gostei. Antes de voltarmos, temos um tempo para ficar na praia antes do 'bus' nos levar. Uma feira de artesanato marinho. Mas quero ficar só e caminho pela praia. Não é boa para banho. Percebo como há gaivotas e pelicanos em volta dos barcos pesqueiros. Encontro diversas conchas (como as conchas vieiras) na praia. Desde algumas bem pequeninas até outras bem grandes. Recolho algumas para recordação. Estou sentado num trapiche. Vendo o mar. Dois garotos chegando num barquinho. Uma senhora com um cesto na mão catando conchas na areia. Ela vem para perto de mim:
- Suas conchas são bonitas? Pergunto.
- Sim. Pego-as para fazer colares como este que estou usando, Óh!
- É muito bonito sim. Também peguei algumas. Saco as conchas recolhidas da pochete e mostro-as a ela. Quer para a senhora? Percebo que ela é muito pobre e vende guloseimas.
- Não. Estas são suas. Há muitas na praia. Mostro a ela um lugar perto do trapiche com várias conchinhas muito boas para colares. Ela gosta e pega várias. Conta-me que mora há 2 horas de ônibus e todos os dias vem vender doces aos turistas nesta praia para sustentar seus dois netos. Terna. Não estou com nenhuma fome, já fiz um lanche. Meiga, ela me oferece um doce (uma pasta de amendoim enrolada em palha de milho):
- Prove como é gostoso, quando você voltar poderá então comprar algum de mim.
- É bom mesmo. Conquistado, compro então um saquinho de amendoim e depois provo um doce (que nunca tinha visto) de banana. Um casal nativo se aproxima e compra também o tal doce de banana. O garotinho se lambuza todo. É hora de ir. O 'bus' já vai sair. É a lembrança mais doce que tenho da viagem. Sem duplo sentido, foi a melhor conversa que tive em todo o Peru.
Na volta, alguém senta no lugar em que vim, e sento noutra poltrona. Bem o da francesa chata. Ela fala algo. Digo que não entendo? Finjo que não escutei? É claro que ela quer o seu lugar. Não quero problemas e vou para o fundo do ônibus. "Ô pessoal chato este casal francês".
À tarde em outro passeio vimos flamingos e muitas aves migratórias. Vamos à 'Playa del Diablo'. Muito bonita, sem nenhuma 'vegetación'. Deserto para chegar. Desce-se uma encosta e chega-se à praia. Muito brava, ruim para banho, onde há vários animais mortos, como pelicanos, golfinhos e gaivotas. Areia de conchas. Há uma caverna no fim da praia: Catedral. Extremamente exótico. Conheço um rapaz peruano, diz que é guia em Cusco, e está de passeio com sua bonita, noiva, dinamarquesa. Uma jovem forte, bonita e simpática, que tenta falar o espanhol. Muito loira, com olhos claros. A amiga dela não me agrada. É muito alta. Muito forte. Muitas sardas. Pouco simpática.
Após, vamos à Playa Lagunillas. Enfim, banho-me no Oceano Pacífico. O rapaz peruano me ensina algumas palavras que adiciono em meu espanhol e também algumas crendices. Vamos os quatro nadando até uma pedra branca um pouco longe da praia. Em outra pedra próxima vários pelicanos estão disputando o espaço. Pergunto ao rapaz porque a pedra é branca. Não devia ter perguntado. Ele aponta para os pelicanos. Sou o único que reclama. Depois do Camino Inca, Pisco e as Islas Ballestas foram 'el mejor' do passeio. Pisco me lembrou São Francisco do Sul.
Após a 'ducha' no hostal, agora 4 horas para Lima. Compro provisões:'galletas, choco (dulce), agua'. Converso 'con una' senhora espanhola. Entendi bem o espanhol dela. Gastei menos de 50s/. em Pisco. O casal de franceses chatos vão no mesmo 'bus'. Saco! Saudade de São Francisco do Sul. Que será Gisela? O frio de Puno queimou meu rosto e rachou meus pés. Uso chinelo desde o Trail Inca.
O condutor do 'bus' mudou, mas o cobrador é o mesmo que reclamei em Ica. Ele puxa papo comigo. Pergunta de onde sou, estas coisas. Vou abaixar um pouco o banco e (estragado) deita muito. É claro que a francesa atrás de mim reclama: 'Hei?!?' Que mulher chata! Deixo o banco ereto mesmo. Pelo menos ela não me incomoda. 'El bus' pára muito, cidades pequenas. Pessoas locais. Vendedores. A mochila entre as minhas pernas. Não me separo mais dela. O fim de tarde é magnífico. O sol poente vermelho. A foto não mostrou a beleza do momento. Guardo em minhas lembranças. Minha memória. A estrada acompanha o mar. Cochilo, do lado do cobrador, ele conseguiu abaixar o banco dele. Está melhor. Ônibus velho. A mochila entre as minhas pernas. Tomara que os freios funcionem.
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