A Volta
Lima
Chegando em Lima, tento tirar algumas informações do cobrador. Não quero ir até a rodoviária. 'El bus' passa em Miraflores. Arrisco. 'Solo no' sabia que 'la calle' é tão longa. Depois de tanto caminhar. Ansioso. 'Hoy es sabado. El dia de salir con Gisela.
- La .. señora .. sabe .. donde .. queda .. Hostelling International .. en
Miraflores?' Pergunto para uma senhora numa banca de revista.
- No.
- No?', impaciente.
Nunca 'voy olvidar' aquele:
- No. Como poderia saber'. Respondeu ríspida, mas ainda educada. Andei um pouco mais. Desisto. Pego um táxi. Como 'la calle es grande'. Não chegaria 'hoy en Hostelling International'. Encontro Gisela. Que saudade. Não podemos nos beijar: a senhora da pousada poderia nos ver. Conversamos até a hora de ela ir embora. Ela não vai 'salir' comigo. Esqueceu do convite. Fico decepcionado. Ela fica surpresa como agora nos entendemos bem. Diz que aprendi a 'hablar rapido'. Imagino que vá 'salir con su namorado'. Droga. Então 'vamonos salir mañana?'. 'No, tambiem tien' compromisso. Então digo que vou para outro hostal, mais barato. Ela diz que podemos conversar 'en lunes' quando vier trabalhar. Digo que não. 'Entonces hasta nunca?', ela diz. 'Sí'. Respondo. Vai embora. Vou dormir. Decepcionado.
Dia 23. Fiquei o trajeto inteiro pensando na guria e ela me descarta. Droga. Foi o pior dia no Peru. Liguei para o Sr. Engenheiro Jorge, mas ninguém atendeu. Fui procurar ver uma tourada. O motorista do ônibus me deixou no ponto errado (má vontade) e tive que andar um bom pedaço a pé por lugares perigosos. Achei a Praça dos Touros mas perdi a vontade de conhecer. O carioca tinha dito que era cruel mesmo. Achei o Hotel España, mas era muito ruim. Melhor pagar US$12.00 no Hostelling International mesmo. Mais higiênico. Os quartos não são tão embolorados. Também não gostei do Hotel Europa. A Plaza de Armas estava perto. Entrei na Catedral. Rezei. Sentei nas escadarias um pouco, vendo o pouco movimento de domingo da Plaza de Armas.'Hasta nunca'. Tirei uma foto. Olhei melhor o Palácio do Fujimori. Peguei um taxi para ir ao Museo de La Nacion, ver o Señor de Sipan. Uma tumba encontrada no norte do Peru, o defunto parecia ser muito rico na época, havia vários outros ao redor, "para protegê-lo" segundo os escritos. Grande droga. Caro. 'Hasta nunca' não saía da minha cabeça. Turistas bonitas no museu. Não estava com vontade de conhecer o Museu do Ouro. Nem nada.
Quis ir de ônibus para o Hostelling International, mas depois de dar algumas voltas na esquina do museu, cada pessoa me apontando a outra esquina onde deveria ser o ponto certo (até um informante não sabia como chegar em Miraflores) fui de taxi mesmo à Miraflores. Fico no 'centro' do bairro. Almoço num restaurante burguês desagradável. Chego ao Hostelling International e vou deitar. Mas um sueco me 'acorda' - não consigo dormir mesmo:
- Do you speeking english?
- No. Españolllll'.
Ele diz que está bom, agrada-lhe 'hablar espanhol'. Acaba de chegar e pede informações. Ajudo-o como posso. Mas gaguejo muito o espanhol, inseguro. O sueco conta sua estória. Foi roubado no Equador. Dois homens negros armados fazem com que ele entregue o cartão de crédito, todo o dinheiro e documentos. Parece ser um rapaz de uns 29 anos, que já se incomodou muito por causa do roubo, mas tem a virtude da mansidão, que o faz ficar tranqüilo e paciente. No Equador não tem Embaixada, só Consulado da Suécia, e ele precisou vir ao Peru para pegar um novo passaporte para continuar viajando. Pegou um documento temporário, que expira há alguns dias, no Consulado do Equador e precisa amanhã, 'lunes', providenciar o passaporte na Embaixada. (Surpresa! A Gisela apareceu - será que vem falar comigo? Continuo escutando o sueco enquanto vejo-a da janela. Fica um pouco, depois vai embora. Droga. Nem lembrou-se de mim). O sueco continua falando que conseguiu algum dinheiro para vir ao Peru, e está esperando uma amiga, vindo do Chile (provavelmente sua namorada) que vai lhe fornecer o restante do dinheiro para viajar. O meu roubo perto do dele nem faz sentido. Um outro rapaz, alemão chega no quarto, que tem quatro beliches. Ele dorme no mesmo beliche que eu, na cama de baixo. É bem alto (+/= 1,90m de altura) como o sueco. Usa uns cordões andinos no pescoço. Também tem cabelos longos como o sueco, mas presos de uma maneira mais .. hippie. Os dois são bem loiros, e o alemão tem olhos claros. Já o tinha visto na primeira vez que vim ao AJ, mas não tínhamos conversado. Cumprimenta-nos e pergunta se estamos falando inglês. O sueco diz para falarmos espanhol por minha causa. O alemão diz que não tem problema. O sueco pergunta informações para o alemão, que conhece melhor Lima, para resolver o problema do passaporte e cancelar o anterior. Precisamos de provisões. Vou com meus novos colegas ao supermercado. Eles economizam bastante. Um por causa do roubo, o outro por que está morando no Albergue e não pode esbanjar para poder ficar bastante tempo. Já estou melhor. Mais 'recuperado'. Conversar com outras pessoas fez aliviar um pouco. Estava chateado por causa do 'fora' que a Gisela me deu. O alemão disse que tinha descido na Guatemala, visitar alguns amigos. Sem falar nada de espanhol. Veio descendo a América Central, chegou na Venezuela, desceu ao Peru, se apaixonou por uma limeña e agora não quer mais sair de Lima. Diz que não tem amigos na Alemanha, e não gosta de seu país. Muito frio. As pessoas. Não tinha amigos. Trabalha numa fábrica de vidros da família e não era legal. Me contou dos passeios de férias com seus irmãos e como era sua vida na Alemanha. O sueco disse que estava de férias por 3 meses (isto mesmo: férias de três meses). Ia mudar de emprego, para outro muito melhor, trabalhar com alguma coisa a nível científico. Parecia ser interessante seu trabalho. O alemão era muito magro. Aparecia por demasiado suas costelas e parecia cadavérico. Ele teve uma profunda crise de bronquite há poucos dias e está se recuperando. Tem uma crise dessas por ano. Não consegui pronunciar corretamente o nome do sueco: Peter. Parece simples mas a pronúncia é algo como: Pi-teaarrrrr. Para Jens, o alemão, era tranqüilo pronunciar. A pronúncia do nome do alemão também não é fácil: Irreanns. Chegamos ao AJ. A moça que está na recepção diz que Gisela já ligou duas vezes para falar comigo. '- Cuando?' Antes de 'usted' chegar ela diz. Mas porque você não me avisou? 'Yo olvidé'. Nunca mais esqueci este: 'Yo olllvidé'. E quando ela veio 'acá también' perguntou por mim? 'Sí.' E porque não falou que eu estava lá em cima? Ela disse que não sabia e só me viu quando saí ao supermercado. Caramba. Liguei para a casa de Gisela. Mas seu irmão atende e diz que ela não está. Deixou recado para esperá-la. A noite vem para 'salirmos'. Vem mesmo. 'No tengo' nada a perder. Esperamos até às 23:00 para a moça da recepção ir conosco. Jens também vai. Peter fica estudando o mapa de Lima para não se perder 'mañana'. Precisa ir em vários lugares. 'Salimos' os quatro. Compramos cervejas e 'vamonos' a um bonito lugar, alto, onde pode-se ver o Pacífico e sentir sua brisa. O beijo de Gisela realmente não é bom. Nem seu corpo é bonito. Ela é por demais musculosa, e seu corpo não é muito feminino. Para o meu gosto. Mas sua voz é doce, cheiro, jeito me agradam. Precisa ir embora. Vou dormir contente.
Dia 24. Lunes. Quando acordo Peter já saiu e Jens ainda ronca. 'Viajo mañana '. Dizem-me que preciso tomar 'Vacuna contra sarampion'. Ãh? Impossível. Deu um surto de sarampo no Brasil e não posso voltar ao país sem a vacina. Procuro um hospital em Miraflores mesmo. Não há. 'Hablas devagar señor?' Talvez por não entenderem o devagar, 'hablam despacio mismo'. Depois de tanto andar, encontro o hospital e sou tratado como nunca fui tratado num hospital público do Brasil. Não espero quase nada e recebo a vacina (com agulha aberta na minha frente). Já imune, volto ao AJ. Gisela já deve ter chegado. Ontem deve ter despistado seu namorado, mas hoje de manhã tinha que ir ao dentista tratar seu incômodo (eu que o diga) aparelho. O 'centro' de Miraflores é bastante agitado. Gasto minhas últimas fotos no Bairro: a igreja, a praça, um restaurante chinês (que não saiu direito), uma casa bonita (ao fundo, de frente uma obra da cidade), o Naranja Cafe (atrás de um carro), uma da praça de flores (esta foto saiu legal, por entre a cerca), o Hostelling International, mais uma da praça de flores. 'Tengo tempo de revelar minhas fotos: 36s/. No Peru é tudo mais barato. Fico o resto do dia conversando com Gisela. Conto-lhe a minha viagem pelo sul. Digo que gostaria de viver viajando como Jens. Mas ela critica: só que Jens não trabalha. Ela comprou um cordão andino para mim e um condor de pedra. Eu tinha reclamado que não tinha-os visto e ela queria que eu levasse uma lembrança do Peru. Veria 'los condores' todos os dias. Também me deu um cartão de Miraflores, Av. Larco. E escreveu que nunca esqueça o Peru. Pode deixar. Não vejo mais Peter, mas Jens volta. Triste. Sua namorada limeña acaba o namoro. Ele está bem 'para baixo'. Seus pais estavam implicando com o namoro. Jens é muito estranho para eles. Mas parece ser um bom rapaz. Diz que não vai voltar para a Alemanha, gosta de Lima e quer ficar. Depois fico sabendo por cartas de Gisela que ele saiu do AJ (muito caro) e foi para uma pousada mais barata. Ele mesmo lava sua roupa e faz sua comida: miojo.
Dia 25. Hora de ir embora. Gisela me dá carona para o aeroporto de manhã.'Desaynamos mucho bien y vamonos' ao aeroporto. Digo a ela que faz vários dias que já penso o que fazer em espanhol e ela me corrige nas conjugações.Já estava entrando numa fase de ser corrigido e não somente tentar me comunicar. Tento depois continuar aprendendo espanhol com Gisela por carta, mas é difícil. Conversamos algumas vezes por telefone, mas é caro. Quero retribuir seus presentes e compro no aeroporto um anel de US$40.00. Acho que exagerei e ela nem gostou. Mas fiquei de consciência limpa. Troco meus soles: 38.78 por US$14.00, numa taxa de 2.77s/. Despedimo-nos e vou embora.
Santa Cruz de la Sierra
Nova conexão na Bolívia. Percebo que minha única blusa de frio, o casaco de alpaca, está rasgado embaixo do braço. Caramba! Vou pra casa assim mesmo. Está frio e a blusa de moleton, única roupa quente que trouxe, está suja. Nem vale a pena comprar outra. Na fila de embarque tiro conversa, em portuñol, com uma moça perto, com um monte de bagagem. Surpresa! É brasileira. Deixo pra lá a melancolia de fim de férias e percebo que a maioria está falando português: claro Sanderson, estão indo pro Brasil! Começo a esquecer o pouco aprendido de espanhol e ouço, em português, as aventuras da moça que estuda em Cochabamba, fugindo do vestibular.
São Paulo
Dia 26. Já é noite em São Paulo. A moça fica na alfândega, trouxe tantascoisas para as férias em casa que 'deu bandeira': disse que até levava seu inseparável ursinho de 1 metro. Vou pro hotel. É o fim das férias. De manhã, acordo 'em cima da hora' e nem dá tempo de tomar café. Chego em Curitiba de manhã. Vou de ônibus para casa, onde meu cachorro me dá as boas vindas. O pai pergunta porque não liguei. A mãe chora e os três reclamam. Depois do almoço durmo. Acordo e está meio escuro. Onde estou? Nazca? Ica? Pisco? Em que cidadezinha estou? Não. É o meu quarto? Minha cama. No Brasil. Curitiba. Sem Gisela. Amanhã preciso trabalhar. Droga. Fico ainda uns quatro dias com saudades da limeña.
Curitiba
Por carta ela me conta que o ambiente de trabalho no AJ é muito ruim, a senhora dona é muito ranzinza. Abre um 'gelateria' em sociedade com mais dois amigos. Faz 'almuerzos' e está se virando. Às vezes conversa com Jens. Este quando viaja à Curitiba, me conta que voltou à Alemanha. Desiste, volta à Lima, viaja ao Chile (de lá me mandou um postal), Argentina e Porto Alegre visitar uma amiga. E depois à Curitiba. Não pôde ir à praia comigo pois estava com bronquite - ele veio justamente em novembro de 1998, a época da crise. Precisou voltar logo a Lima, depois de 'conócer' Foz do Iguaçú, para começar a trabalhar como 'barman' num bar de um amigo seu. Ainda conseguimos nos comunicar depois de um ano. Saudades das férias.
Sanderson nasceu em Joinville, Santa Catarina em 1974, mora atualmente em Curitiba, Paraná. É autor do livro de contos "cotidiano" publicado pela www.papelvirtual.com.br
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