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Divulgação/Depto turismo Hirtshals

Hirtshals- Dinamarca

uma saudade imensa...

"Estou transferido há quase três meses pra “Zoropa”. Daqui da Alemanha fui numa grande carona com o casal Huhs, até o norte da Dinamarca, numa praia bem próxima da Noruega chamada Hirtshals.

Os estudantes noruegueses aconselhavam para que eu fosse conhecer o planeta deles, mas abandonei a idéia e desci até Copenhague. No meio de 50 bilhões de pessoas, conheci um brasileiro e esse morava há um ano e meio na capital dinamarquesa. Navegávamos nas avenidas movimentadas, montados em bicicletas do governo. Para identificá-las bastava observar nas ruas porque elas ocupam a vaga de um carro, são mil e trezentas! É só ter perna e pode ficar com ela o tempo que quiser. Depois deixa na rua, logo vem mais um candidato e leva pra outro namorico/pedalada.

Quando conheci esse brasileiro Aníbal, foi um soneto. Ele caminhava com o carrinho de bebê pelo centro. Fui pedir uma informação e o seu inglês saltava aos olhos por causa do sotaque diferente. Depois de algum tempo de conversa descobri que ele também era do país dos escravos. Aí começamos a falar em português. Ele me disse que ali tinha de aplaudir “os zome”, o governo agracia os cidadãos com leis revolucionárias da antiga social-democracia. Um exemplo: quando nasce o filho, o pai tira licença de um ano e o excelente salário continua chegando todo mês (na Alemanha a licença é de três anos!). Nas ruas, nas praças, nos ônibus, são cheios de homens levando os bebês nos carrinhos. Cena raríssima em outros lugares, mas lá é assim. E em se falando de ônibus, sem nenhuma restrição, levam também cadeiras de rodas, cachorros e bicicletas.

O coração de Aníbal recebia espetadas de saudades do Brasil. Chegava a esbugalhar os olhos procurando qualquer coisa que lembrasse o nosso país. Não via muita graça nas cores dos prédios, nas ruas, no seu apartamento antigo e na língua dinamarquesa.

Eu estava pegando uma disputada bicicleta da prefeitura, quando do meu lado um dinamarquês também pensava o mesmo. Ele conversou comigo sobre a falta de cuidado do povo com o que é público e foi embora procurar a sua aventura. Resultado: mais na frente, na avenida, encontrei o meio-punk tentando consertar a corrente da “bike”. Conversa vai, conversa vem, deixamos os dois exemplares para outras pessoas, tiramos uma foto aproveitando o reflexo da janela de uma casa e entramos num pub para um chopp.

Ele ligou pra namorada e fomos esperá-la num lugar turístico do centro da cidade. Chegou Millina, de cabelo verde e um vestido longo, preto. Horas depois Thomas Kolliander me deu a chave do apartamento. Saí com o mapa na mão fazendo o trajeto até a rua. Caí na cama e apaguei. Acordei com o barulho do interfone quando chegaram de madrugada. De manhã fiz um silêncio apavorante para não acordá-los. Coloquei no sofá um bilhete em inglês agradecendo a acolhida e deixando saudações aos pais que estavam de férias na Grécia. Quando contei essa história na casa do brasileiro, a esposa dele ficou admirada.

Divulgação

Copenhage

Cheguei no bairro onde vendem drogas na rua. Cada traficante tem uma mesa redonda, fica em pé apoiando os cotovelos e esperando a freguesia. Não vi na parede o desenho gigante de uma máquina fotográfica com uma faixa vermelha por cima dizendo da proibição. Cheguei no centro da praça e fui tirar uma foto. Obra do acaso, mas veio traficante loiro correndo de tudo que era lado. "Satanicamente" me fizeram abrir a máquina pra que a foto queimasse. Feita a hemorragia no filme, foram embora pras suas mesas. Apesar da cena constrangedora, descarto qualquer idéia de violência por parte deles. Explicaram que turistas tiravam fotos, a polícia recolhia e revelava. Continuei na praça registrando tudo o que acontecia, dessa vez na memória fotográfica. Todos os tipos de drogas já prontas para o consumo, e o pior, Xuxa até passaria mal se visse o que vi: os baixinhos indo pra escola e cortando caminho pelo meio do tráfico. Impossível não ver isso como coisa só do primeiro mundo. Fácil de entender e complicado de aceitar, mas cada um tem sua vida e ninguém quer saber que tipo de combustível o outro usa pra viver.

Fui também ao território da Suécia. Tinha uma banda de música no porto. Como tocava perto do navio, equivale dizer que era pra me recepcionar. Trilhar pela Suécia nem sei se foi realizar um sonho porque jamais imaginei poder visitar esse país, vontade era muita e eu pensava: conquistar a terra dos Vikings é impossível, está no Círculo Polar Ártico, caro, idioma complexo, e o povo frio. Estava enganado.
Com o bilhete de trem na mão, fiz uma considerável viagem de volta à Alemanha. Definindo as poltronas na cabine: estavam lá dois estudantes belgas, um alemão, e um casal de não sei de onde. Contei sete horas até Bremen. O alemão ia procurar refúgio numa cidade uma hora depois da minha; os belgas iam até perto de Bruxelas e o casal alcançava o término da viagem que era Paris.

Desci em Bremen e o dia não demorou a amanhecer. Fui andando até a parada do bonde. Logo nos primeiros passos me lembrei da guerra. Bremen foi quase toda bombardeada. Sobrou apenas uns dez prédios do centro e o portão medieval. Essa área era composta por judeus e por isso os americanos não destruíram. O centro de Bremen é iluminado pela arquitetura. A prefeitura estilo gótico, emoldura a cidade mostrando a civilização européia.


A vizinha daqui do prédio, senhora Lampe, todos os dias fala na 2ª Guerra Mundial. Ouvir suas histórias é ficar estarrecido com a crueldade do conflito. Na época, ela foi personagem e hoje nos seus 94 anos, é a própria enciclopédia Barsa de importância universal. “Olhe meu filho quando tocou a sirene nós corremos pra os abrigos, quando subimos não existia mais nada, cada casa, cada árvore... Tudo por causa do slogan Hi Hitler!” Quando terminou a guerra, o vizinho do lado que era médico judeu, reapareceu carregando somente a saudade da família, condenada certamente por Menguele no campo de concentração. Os moradores da rua olhavam para ele sem entender como tinha sobrevivido. Num silêncio absoluto e envergonhados, se retiraram. Como a Alemanha já não lhe significava mais nada, foi viver nos Estados Unidos.

Enquanto pensava, o bonde chegou. Coloquei a mão na frente do botão para abrir a porta automática. Durante o trajeto o meu pensamento fazia incursões sobre a bondade do brasileiro. No cenário de Bremen, vitrines, algumas pessoas, emaranhado de árvores passando... Lembrei da música chegada até nós por Caetano Veloso: “você anda pela tarde e seu olhar tristonho, deixa sangrar no peito, uma saudade um sonho... Você olha tudo e nada lhe faz ficar contente, você só deseja agora, voltar pra sua gente. Eu dizia pra mim mesmo, isso é overdose de saudade, então é a cara de Aníbal!

Alemanha agosto de 1996."

 

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