FRANCISCO COSTA, UM BRASILEIRO NA CALVIN KLEIN


Por CLAUDIA GARCIA E AMANDA FRANÇA


Jovem e talentoso, o estilista brasileiro Francisco Costa vive um dos melhores momentos de sua carreira no comando da Calvin Klein

O brasileiro Francisco Costa, nascido na cidade de Guarani, interior de Minas Gerais, é um dos nomes que se destacam atualmente na moda internacional. Com uma carreira de sucesso, ele é estilista da Calvin Klein desde 2002 e já apresentou duas coleções para a tradicional marca norte-americana.

Sua carreira começou em Nova York e o seu talento o levou para a Itália e Paris, tendo trabalhado para a Bill Blass e também para Oscar de la Renta. Depois, foi para Londres, onde trabalhou por quatro anos com Tom Ford, ainda na Gucci.

Com uma agenda lotada, Francisco Costa vem ao Brasil apenas uma vez ao ano. No último mês, durante sua última e rápida passagem pelo país, ele concedeu uma entrevista exclusiva ao site Moda Almanaque.
O estilista falou sobre sua trajetória no mundo da moda, seu ótimo momento profissional, sua última coleção inspirada em Lauren Hutton e seus planos para o futuro.


Coleção outono/inverno 2004, apresentada em Nova York em fevereiro deste ano
Coleção primavera/verão 2004, que marcou a estréia de Francisco Costa na Calvin Klein e ainda foi muito elogiada pela crítica especializada
Moda Almanaque - Fale um pouco sobre a sua trajetória na moda.
Francisco Costa - Eu comecei estudando na FIT, em Nova York. Nessa época, 15 estudantes foram selecionados para participarem de um concurso na Itália. Era como se fosse uma feira de tecidos. A história era que nós iríamos para Milão trabalhar em uma companhia de tecidos, fazer os desenhos e depois seríamos julgados pelos designers de lá. Eu acabei ganhando o concurso, acho que foi em 1989, e isso abriu as portas para mim.
Depois disso, eu voltei para Nova York, continuei a estudar até terminar o curso e consegui o meu primeiro trabalho que foi com o Bill Blass. Eu era assistente do Bill Blass, que era uma franquia de uma companhia que tinha acabado de adquirir a franquia também do Oscar de La Renta, quer dizer, uma linha de vestidos. Eu fiquei com o Bill Blass por, aproximadamente, uns oito meses, até que eles me transferiram para trabalhar com o estúdio do Oscar de la Renta, que seria a comunicação entre essa companhia e a companhia do Oscar.
Logo depois de um período, o Oscar me contratou para trabalhar com ele diretamente em seu escritório e nisso foram sete anos de trabalho junto com ele. Eu desenvolvia coleções ao lado dele. Trabalhei também em franquias no Japão e fiz com ele a alta-costura, em Paris, para Pierre Balmain. Essa foi a trajetória de início.
Depois, ainda com o Oscar, eu recebi um telefonema de uma headhunter, uma caçadora de talentos, me comunicando uma entrevista que eu deveria fazer porque tinha uma posição aberta no exterior. Como eu não sabia com quem era, acabei recusando. Depois de duas semanas, me ligaram novamente e ela disse que havia marcado a entrevista para mim e que eu tinha de ir. A entrevista era com o Tom Ford, na Gucci.
Foi tudo muito rápido, uma coisa meio louca. Eu acabei fazendo a entrevista e depois de pouco tempo, consegui o trabalho. Então, eu me mudei para Londres e fiquei com ele um período de quatro anos e foi realmente fantástico para a minha carreira. Foi uma coisa que realmente teve muito impacto profissional.
No meu último ano com a Gucci, eu estava pensando em voltar para Nova York, estava cansado de ficar Londres. Aí fui fazer uma entrevista com o Calvin Klein, mas resolvi que ainda não era hora e fiquei mais um ano com a Gucci. Depois, eu voltei para Nova York, ele me deu novamente o trabalho e eu estou com ele há dois anos.

MA - Você foi o estilista escolhido para substituir Calvin Klein. Como é ocupar essa posição? Ele interfere na sua criação?
FC - Não, ele não interfere. Eu estou fazendo um trabalho legal e com o apoio do Calvin. Ele tem sido muito amigo e tem acompanhado todo o meu trabalho. É fantástico. Você tem muita pressão realmente e é muita responsabilidade. É preciso fazer tudo com muita seriedade, mas isso não me deixa maluco. O trabalho é o mais importante e isso é uma coisa muito clara pra mim. Muita pressão, muita responsabilidade, mas é uma coisa fabulosa e eu estou curtindo bastante.

MA - Você acha que o fato de ser brasileiro influencia no seu trabalho?
FC - Claro. Eu acho que todas as raízes, o seu background te dá o espírito, aquela coisa que vem automaticamente no trabalho. E eu adoro cor, eu me identifico muito com a CK até pelo jeito que as pessoas se vestiam, mais fácil, mais simples.
E o fato de não ser uma coisa muito decorada, tudo isso é muito Calvin. No meu ponto de vista, é tudo uma coisa bem brasileira, é fácil.
E eu acho que agora nós estamos passando por um processo em que está tudo muito igual, uma mesmice tamanha, muito pouca originalidade, as pessoas copiam demais. Você não consegue nem distinguir as coleções mais porque ficou muito fácil aquela história de comprar vintage e as pessoas trabalham muito com isso.
No entanto, eu acho que é um momento bom pra Calvin Klein e um momento bom para o meu trabalho porque eu vou me concentrar mais com a pureza de construção de detalhes, então é uma coisa que me excita e me dá uma perspectiva de trabalho muito legal.

MA - Como você vê a moda brasileira hoje?
FC - Eu não posso comentar, porque realmente eu não sei. Eu conheci o Carlos Miele e vejo o trabalho dele em jornais, mas é difícil dizer porque realmente eu não tenho conhecimento.

MA - Fale um pouco sobre a sua última coleção.
FC - A inspiração foi uma volta àquele espírito mais livre, mais independente do sportswear americano. No início, a inspiração foi a Lauren Hutton e também a Charlotte Rampling, muito fotografada pelo Helmut Newton. É uma coisa com a cara dos anos 70 como espírito, mas não é uma coleção retro de maneira alguma. Essa coleção estabeleceu uma coisa nova, um texto novo, ficou muito mais leve. É quase uma coleção de inverno, mas é leve, que você pode usar durante o ano inteiro. Eu acho que a moda está assim, uma coisa meio seasonless.
Resumindo, a coleção tem essa leveza, essa facilidade de combinar, de colocar as peças para dar à mulher um pouco de originalidade. Então, a moda que eu estou tentando fazer é a reedição do minimalismo, mas não é minimalismo como o dos anos 90. Eu estou querendo fazer uma coisa mais pessoal, que as pessoas tenham um dizer.
Eu também usei várias texturas diferentes, começando com o cetim, inspirado naquele estilo de camisa, chemisier. Tem muita mistura de feltro e vestidos bem leves com capotes mais pesados também. Uma mistura mesmo.

MA - Você consegue manter o estilo da grife, mas com um toque totalmente pessoal.
FC - É, nesse desfile eu fiquei muito mais à vontade, foi uma coisa bem minha.

MA - O primeiro teve uma pressão muito maior?
FC - O primeiro foi uma loucura porque você fica querendo agradar também. Agora eu consegui crescer ali dentro e desenvolver mais o meu trabalho. Eu sei que é uma coisa de tempo, realmente um processo.

MA - Você tem algum projeto para uma marca com o seu nome?
FC - Eu sempre tive esse desejo de fazer uma coisa com o meu nome, mas eu acho que agora não. Agora eu tenho de fazer esse trabalho com a CK com tempo.

MA - Você tem algum projeto para o Brasil?
FC -
Eu comecei a fazer um trabalho no ano passado. Tem uma loja em NY muito bonita, uma loja muito moderna, meio galeria, onde eu tenho feito trabalhos com artistas que queiram fazer alguma coisa em colaboração. E no Brasil, eu estou começando a pesquisar o trabalho de alguém para levar e fazer uma exposição nessa loja. Eu acho que vai ser uma coisa legal.

MA - Você acha que as modelos brasileiras ajudam a levar o nome do Brasil de forma positiva para o exterior?
FC - Claro, totalmente. Elas são lindas, maravilhosas. Você não vê a Gisele? Acredito que a gente está com o nome muito bom no exterior. É muito positiva a nossa imagem lá em termos de moda. Nosso trabalho é super respeitado.

Fotos: Divulgação

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