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FRANK
HORVAT: UMA VIDA NA FOTOGRAFIA DE MODA
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Por
HENRIQUE MARQUES-SAMN (*)
(hmsfoto@yahoo.com.br)
colunista do site Moda Almanaque |
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Após mais de meio século trabalhando com fotografia,
Frank Horvat já respondeu à maior parte das perguntas
possíveis, o que justifica o aviso que me dá enquanto
negociamos a entrevista: "odeio responder a perguntas que eu
já respondi milhões de outras vezes". A tarefa
está determinada: é preciso reler outras entrevistas,
capítulos de livro e dados biográficos, procurando por
tudo aquilo que ficou nos silêncios e nas entrelinhas, mas é
significativo o suficiente para justificar a entrevista. Não
se trata, no entanto, de algo muito difícil no caso de Horvat
- um fotógrafo que ajudou a revolucionar a história
da fotografia de moda, responsável por escrever um de seus
mais importantes capítulos no século XX. Foi ele, afinal,
o grande responsável por dar novos rumos ao naturalismo na
fotografia de moda nas décadas de 50 e 60, criando novos cânones
de elegância e um estilo que, de tão imitado, em fins
dos anos 60 já representava um novo mainstream, exigindo de
seu próprio criador uma mudança de rumo.
As respostas são sempre simples e diretas como o estilo fotográfico
que o consagrou; apesar de confessar que se irrita por ser conhecido
quase que exclusivamente como fotógrafo de moda, a despeito
de seus importantes trabalhos em outras áreas - notavelmente
o fotojornalismo e os retratos - , Horvat mostra-se disposto a responder
mais de uma dezena de perguntas sobre sua vida e sua obra. Ao menos,
um consolo: terminada a entrevista, as palavras de Horvat - "suas
perguntas foram excelentes" - fazem valer todo o esforço.
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Illustrazione
Italiana (1950)
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Harper's
Bazaar (1961-66)
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French
Vogue (1966-79)
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Frankfurter
Allgemeine Magazin (1980-88)
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PRINCÍPIO
E FIM DA FOTO DE MODA
Começo a entrevista perguntando sobre o início da carreira
de Frank Horvat: aquelas primeiras fotos, realizadas em 1950, para
a Illustrazione Italiana, num evento em Firenze. É fato conhecido
que pouco tempo depois, já em 1957, Horvat se queixava destes
trabalhos, a respeito dos quais dizia "não estar muito
orgulhoso". O que havia de tão errado com aquelas fotos?
"A única que eu guardei está OK, embora possivelmente
por acidente", diz Horvat, "mas para a maioria das outras
eu não tinha nem um objetivo claro, nem uma técnica
adequada". Na verdade, não apenas uma boa quantidade das
fotos de 1950 foram destruídas, mas também muitos negativos
da época em que o fotógrafo trabalhou para a revista
Jardin des Modes, entre 1957 e 1960, na qual também trabalharam
grandes nomes como Helmut
Newton e Jeanloup Sieff. Em um depoimento incluído
em sua retrospectiva, diz o fotógrafo que essa destruição
foi feita em um ímpeto de autocrítica, do qual mais
tarde se arrependeu; no entanto, conta agora outra versão:
"Não foi autocrítica. Foi influência de meus
amigos da Magnum, que rejeitavam a foto de moda". Horvat fez
parte da famosa agência de fotojornalismo, na qual aliás
conheceu uma de suas principais influências: Cartier-Bresson,
com quem certa vez afirmou ter aprendido o significado de ser um fotógrafo.
Foi logo depois de seu trabalho na Jardin des Modes que o trabalho
de Horvat tornou-se conhecido, e começou o ápice de
sua carreira. Na década de 60, suas fotos para a Harper's Bazaar
e para a Vogue francesa inauguraram um novo estilo na fotografia de
moda: um naturalismo que, isento das pretensões ideológicas
de Louise
Dahl-Wolfe e distante dos comentários vanguardistas
de William
Klein, tirava sua força da elegância da composição
e da singela beleza do conteúdo. Embora afirme que este estilo
naturalista tem raízes em seu próprio modo de viver,
Frank Horvat não perde muito tempo especulando sobre essa relação
- "Para fazer isso, eu precisaria deitar em um divã psicanalítico!"
- , preferindo uma resposta muito menos elaborada: "Penso que
eu simplesmente gostava daquelas garotas, e queria mostrar o que eu
gostava nelas". De fato, em outra ocasião, Horvat afirmou
que seu método de fotografar está relacionado a uma
certa atração subjetiva: é preciso encontrar
o que há de mais interessante nas modelos - suas melhores expressões,
ou as mais verdadeiras. Horvat, aliás, afirmou certa vez que,
nesta época, por não estar muito interessado em moda,
usou como critério de escolha para as modelos aquelas que achava
mais sexies; seria isto verdade? "Não as mais sexies,
mas as que mais me atraíram
" e prossegue: "Na
verdade, eu gostava de algumas coisas da alta costura, como Balenciaga,
Grès e algumas coisas de Givenchy,
da mesma forma como eu aprecio boa comida em um restaurante três
estrelas. Mas quando eu não posso comprá-la, eu fico
feliz com uma boa pizza. A maior parte da moda que eu tinha que fotografar
para estas revistas estava muito longe de ser uma comida três
estrelas, e muito poucas delas eram mesmo uma boa pizza".
Foi no fim da década de 60 que a fotografia de Horvat começou
a tomar outro rumo. Imitado por todo o mundo, o fotógrafo sentiu
a necessidade de renovar seu próprio estilo. Seu inovador trabalho
na TWEN, de um lado, aproximou-se mais da sensualidade; de outro lado,
como afirma Horvat, houve uma mudança em sua própria
concepção acerca da foto de moda: "Eu desejei,
naquele período, ser menos anedótico e me aproximar
mais do essencial". Há de fato um certo despojamento na
obra de Horvat a partir desta época, principalmente nas fotos
publicadas na Harper's Bazaar, nas quais nota-se tanto a menor concentração
de elementos na foto quanto uma acentuação do rigor
formal. Aliás, toda a obra de Horvat no longo período
que se estende desde a década de 60 até a década
de 80 vai apresentar, cada vez mais, uma radicalização
desta busca pelo essencial. Exemplares disso são algumas fotos
publicadas na Frankfurter Allgemeine: em uma, vemos apenas os dedos
de um pé feminino, na areia da praia; em outra, um colar em
um pescoço. Os poucos elementos, no entanto, são suficientes
para representar uma espécie de "essência da feminilidade";
e, mais ainda: expressam uma concepção idealista da
foto de moda que, segundo Horvat, estava em seus últimos dias.
"Eu acredito que meu tipo de fotografia de moda chegou ao fim
há cerca de vinte anos atrás, independentemente dos
computadores
embora seja verdade que nos tempos atuais a foto
de moda é como um produto desenvolvido por computadores, da
mesma forma como carros e aspiradores de pó".
Ocasionalmente, Horvat tem retornado à foto de moda - como
em seu trabalho realizado recentemente para o Museé Galliera,
no qual lançou mão de recursos digitais para simplesmente
"deletar" as modelos das fotos; no entanto, seu trabalho
caminha cada vez mais para obras pessoais, como nas fotos que tem
realizado nos arredores de sua casa ou em seu trabalho relacionado
à obra de Ovídio "Metamorfoses". Seria esse
afastamento uma espécie de abandono? Talvez faça mais
sentido pensarmos que, após mais de meio século de trabalhos
na foto de moda, Horvat tenha alcançado o essencial - e optado
pelo silêncio.
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(*)
HENRIQUE MARQUES-SAMN é
filósofo e ensaísta. Pesquisador acadêmico nas
áreas de arte e cultura, tem vários artigos publicados
em jornais e revistas especializadas. Além de escrever para
o Moda Almanaque, é colunista do Fotosite (www.fotosite.com.br),
onde escreve sobre a estética da fotografia."
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