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BELA DO PALCO | | |
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Uma história de um ator que representa uma mulher, mas no fundo, nem ele
sabe direito quem é | Em 1999,
Shakespeare Apaixonado, de John Madden, sobrepujou todas as expectativas e ficou
com o Oscar de Melhor Filme. Merecido ou não, o fato é que a fita desenvolvia
uma interessante história sobre a proibição de mulheres atuarem no teatro à época
do dramaturgo mais importante da língua inglesa. A
Bela do Palco (Stage Beauty, Reino Unido/Alemanha, 2004), de Richard Eyre, também
aposta na mesma linha. Ainda que tenha feito menos sucesso que seu predecessor,
o filme é inúmeras vezes superior a Shakespeare Apaixonado. Ambiguidade
no filme
As semelhanças entre eles são grandes. Enquanto Madden recrutou os atores
de então segunda linha Joseph Fiennes e Gwyneth Paltrow, Eyre fez algo semelhante:
Billy Crudup e Claire Danes. Tom Wilkinson, por sua vez, está presente nos dois.
E enquanto Geoffrey Rush prestava credibilidade ao primeiro, Rupert Everett faz
isto para o segundo. Porém, as diferenças são cruciais. A Bela do Palco além de
ter uma história mais consistente, também é melhor dirigido e com interpretações
mais sólidas. 1660. No reinado de Charles II (Everett), Edward Ned Kynaston
(Crudup) é a tal bela do palco, ou seja, o maior e melhor ator que representa
uma mulher nos palcos. Sua Desdêmona é aclamada pelo público todas as noites.
Sua ajudante, Maria (Danes), além de ser obviamente apaixonada pelo astro, também
almeja ser uma atriz. Porém,
Ned mantém um relacionamento com o duque de Buckingham (Ben Chaplin). Este é o
estopim para que Maria corra atrás de seu desejo em tornar-se também uma estrela.
Com o sucesso de uma apresentação pirata que realiza, ela consegue que o rei autorize
a atuação feminina. Pior para Ned. Não só o rei libera como também proíbe que
homens representem mulheres nas peças. É o começo da ruína da bela do palco, afinal
ele não consegue representar um homem. Sua tarimba está justamente nas garatujas
homossexuais.
Há muita ambigüidade no filme, além de um excelente tempo
teatral. Nem mesmo seu final água com açúcar e capaz de destruir a serenidade
da trama - ainda que chegue muito perto disto. A Bela do Palco ainda que não tente
se aprofundar em nenhum tipo de discussão sobre sexualidade ou fazer uma amostra
da condição feminina naquela época, consegue segurar as pontas. Às vezes, o cinema
precisa somente de coisas simples: bom roteiro, atuações convincentes, fotografia
e figurinos sobre medida. O resto, o público acompanha. É assim com a obra de
Richard Eyre. |
* ERICK POMBO, 32 anos, é jornalista com especialização em
cinema e escreve para várias revistas e sites | |
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