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Meu
sonho de consumo de hoje? Um celular com máquina fotográfica.
Juro. Queria saber como esses publicitários conseguem convencer
a gente tão facilmente da necessidade de umas coisas tão
desnecessárias. Claro que eu não preciso urgentemente
de um celular com máquina fotográfica, acho que ninguém
precisa, a não ser aquele rapaz que viu um disco voador no
meio de uma floresta e usou o celular para captar a imagem da nave
na horinha. Mas as propagandas são tão fantásticas,
os aparelhos tão lindos e eu tão consumista, que atualmente
só penso nisso.
É que fiquei um pouco enciumada na semana passada. Recebi alguns
amigos para jantar e numa certa altura todos sacaram suas armas, ops,
seus celulares para bater fotos. Disseram que era para colocar na
agenda do celular deles.
No mundo de hoje ou você se dá bem com as câmeras
ou está fora. Eu, que sou o desastre da fotogenia, posei para
as tais fotos e fiquei delicadamente pedindo a um e a outro para alterarem
minhas fotos: num dos telefones eu estava de olho fechado, no outro
estava torta, no outro uma baleia de gorda. No final, o que era para
ser um jantar virou uma sessão fotográfica. Eu só
não fui mudar de roupa e pentear o cabelo porque iam me achar
super caipira, mas olha, morri de vontade. Acho que ninguém
mais se arruma para tirar foto. Também, com a quantidade de
câmeras fotográficas, filmadoras e webcams que existem,
ser fotografado ou filmado é a coisa mais normal do mundo.
Há uns anos atrás, tirar uma foto era um pequeno ritual.
Arrumávamos o cabelo, ajeitávamos a roupa, parávamos
quietos e sorríamos. E quando alguém pedia para você
bater a foto? O cuidado com que pegávamos a máquina
dos outros, com apenas dois dedos, sem encostar em nada? Tirar foto
era coisa séria, gente, e as máquinas não eram
vendidas assim, dentro de qualquer... telefone.
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Ainda morta de vontade de ter o meu telefone com máquina, parei
para olhá-los numa vitrine no shopping quando chegou o vendedor.
- Para que as pessoas usam a máquina fotográfica do
celular? perguntei, cínica.
- Para tirar fotos, ora! ele se espantou É muito
bom poder tirar fotos a qualquer hora.
- E o que eu faço com elas? indaguei, para ver o que
ele respondia.
- Você coloca na agenda do celular. Assim, se o fulano te liga,
você olha para o teu telefone e vê a cara da pessoa
ele explicou.
A segunda explicação, que também não me
convenceu, veio em seguida.
- Além disso, você pode mandar uma imagem para outra
pessoa que tenha telefone que recebe imagem. Por exemplo, você
pode tirar uma foto comigo aqui na minha loja e mandar para alguém.
A pessoa vai receber a mensagem, olhar e ver que você está
na loja e comigo. Não precisa nem explicar, nem falar. Uma
imagem vale mais que mil palavras. Não é incrível?
É.
Mas o mais incrível é que eu, uma pessoa adulta, formada
e mãe, possa aceitar essas explicações esdrúxulas,
não acreditar nelas e ainda querer ter um celular com máquina
fotográfica. Sei que para os médicos ou engenheiros
a coisa deve ser útil, mas não para mim. Eu me sinto
como aqueles índios que querem possuir coisas brilhantes pertencentes
aos homens brancos. Uma verdadeira pocahontas no shopping,
essa cronista aqui...
Poderia inventar uma explicação mais inteligente, dizer
que tudo que agiliza a velocidade e qualidade da informação
é válido, que para viver bem precisamos nos comunicar
com facilidade. Mas prefiro a idéia do ET, que é mais
divertida.
E se aparece uma nave espacial na minha frente? Nunca se sabe...
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