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- Lucia, você precisa um dia escrever sobre esse nosso esquecimento
disse uma amiga minha, mãe e profissional eu
ando me esquecendo de tudo, que horror! Alzheimer puro, nunca vi!
E nem sou velha!?
Eu já notei, isso acontece comigo também. Principalmente
com nomes de pessoas. Acho que a gente tem informação
demais na cabeça.
Bom, tocou a campainha. Era a mãe de um amiguinho do meu filho
que veio buscar o menino.
O garoto está sempre aqui em casa, mas o nome da mãe
eu não lembrei de jeito nenhum. Fiquei olhando para a cara
dela, matutando, puxando uma lembrança. Essa daí é
a... é a... a...
Marina? Débora? Silvana? Beatriz? Nina?
Ichi. "Alzheimer, Lúcia", pensei.
Se fosse só uma vez ou outra, vá lá. Mas isso
tem acontecido a toda hora, em todos os lugares e com todas as mães
dos amigos dos meus filhos. E como crianças crescem e tem mais
amigos, a cada dia aumenta a quantidade de mães... sem nome.
Depois que você conhece uma pessoa há algum tempo, depois
que já perguntou o nome dela umas três ou quatro vezes,
acho feio perguntar de novo. E o pior é quando elas, as mães
sem nome, nunca esquecem o teu nome.
Devíamos estipular um nome especial para chamar as mães
de amigos dos filhos. Por exemplo, as tias da nossa família.
É ótimo esse termo, tia. Tudo quanto é
tia ou parenta que você encontra e não sabe o nome, você
chama de tia.
- Tia! Quanto tempo!
Não é maravilhoso? Resolvido qualquer constrangimento.
Mas com as mães dos amigos dos filhos, danou-se. O truque é
evitar colocar sujeito nas frases, ou balbuciar um ininteligível
vãrh, quando você precisar se referir à
pessoa.
Outro dia estava no clube quando apareceu uma mãe toda animada.
A abanava as mãos para mim e sorria. |
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Seria
comigo?
Era.
Eu não via aquela mãe há quatro anos, e jamais
me recordaria do nome dela. Dei um tchauzinho de longe, mas ela chegou
ao meu lado.
- Oi Lúcia! A Nani está boa? E o Chico, o Juca?
Se ela reparasse, perceberia a minha cara-de-tacho. Além dela
se lembrar do meu nome, ela ainda sabia os nomes dos meus filhos,
um por um! Conversamos, eu repetindo baixinho o meu tradicional vãrh.
Foi quando eu olhei para o pescoço dela. Lá estava.
Um colarzinho de ouro, com um nome: Alessandra. Ufa, estava
salva, e essa mãe merecia um prêmio. Na primeira chance,
lasquei o nome no meio duma frase:
- Pois é, Alessandra, eu...
Ela me interrompeu, rindo.
- Lúcia! Alessandra é a minha filha. Estou com colar
dela por causa da aula de natação!
E continuou a conversa, apesar do meu desapontamento. E, pior: sem
me falar o nome verdadeiro, que não sei até hoje.
Ainda bem que não sou só eu que tenho esse problema
aqui em casa. Era domingo e veio aqui um amigo do João, o Joaquim.
Depois do jantar, chegou o pai do Joaquim.
O Zé foi atender a porta.
- Lúcia. Como chama mesmo o pai do Joaquim?
- E eu vou saber, Zé?
Ele deveria ter perguntado ao menino, o Joaquim. Mas, ao invés
disso, olhou para Francisco, meu filho maior.
- Chico. Você sabe o nome do pai do Joaquim?
Bom. O Francisco é o maior gozador da paróquia. Sem
tirar o olho do livro, respondeu:
- O pai do Joaquim é o Manuel, ora pois!
O Zé desceu a escada, abriu a porta todo animado e falou em
alto e bom tom:
- Opa! Falaí, Manuel!
O homem arregalou o olho, sem graça.
- Manuel? Ô Zé. Meu nome é Fernando.
Bom. Para ajudar as amigas, vou providenciar meu colarzinho já...
quem sabe a moda pega?
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