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Já imaginou chegar em casa depois de uma viagem de final de
semana, abrir a porta e encontrar... uma casa completamente estranha,
toda roxa e amarela?
É um pesadelo?
Não, é a última moda.
Falo daqueles programas de decoração que existem agora
nas TVs pagas. São programas onde as pessoas saem das suas
casas, geralmente enganadas por algum parente que tem um pacto com
a direção do programa, e na volta encontram um lugar
diferente, com outra decoração. É um tipo de
pegadinha. Durante o tempo da viagem forçada, entra
em ação uma equipe de decoradores que faz gato e sapato
na casa do fulano. Não podemos dizer que o resultado final
seja muito... caprichado. É tudo feito meio nas coxas, pois
a graça do programa é um desafio: os decoradores não
podem ultrapassar um valor e tem que acabar em dois dias. É
como se fosse uma gincana, mas quem ganha o prêmio não
é o dono da casa. Aliás, não sei quem ganha.
Acho que é a emissora de tv, mais uma vez.
Esses programas me deixam embasbacada. Não consigo desligar
até a hora do pobre coitado voltar e encontrar a sua casa,
antes tão autêntica, toda lilás.
Bem, essa coisa do lilás é verdade. De todos os programas
que eu vi, em quase todos o decorador resolveu pintar as paredes de
lilás. Quer cor mais estranha que... lilás?
Alguém conhece alguma pessoa com uma casa lilás, gente?
Já acho essa coisa de decoração pronta
esquisita quando acontece normalmente, imagina numa situação
dessa. Para mim, decoração é montar a sua casa
ao longo da vida. |
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Acho
que as nossas casas devem tomar forma diante dos nossos olhos ao mesmo
tempo em que a nossa história é contada. São
nossos olhos e a nossa vida que decoram as nossas casas, e não
os olhos e a vida dos outros. Decorar é acumular, é
adquirir, é precisar, é herdar. É preciso paciência
para decorar.
Mas o consumo e a pressa do mundo não entendem essa paciência.
Necessitamos resolver rápido, há uma urgência
na procura pela perfeição. Assim, junto com esse tipo
de programa surgiram infinidades de outros, todos de mudanças
súbitas. Programas de cirurgias plásticas súbitas,
programas de emagrecimento súbito, programas de banho de loja
súbito.
É o circo dos nossos tempos, o divertimento da moda. Acabou
a graça da magia infantil dos lenços, pombos e truques,
passamos a fazer mágica com a realidade. Como num passe de
mágica, vestirmos a máscara perfeita, a fantasia perfeita
e entrarmos no cenário perfeito. E dá-lhe susto.
Acho que a moda agora é levar susto.
Na família do Zé, quando alguém pergunta para
qualquer um deles o que eles acham de uma coisa e eles não
gostam muito, eles sempre dizem:
- Gostou?
- Hummm. Diferente...
Depois de algum tempo de casada, descobri o que significava exatamente
esse diferente: queria dizer que eles achavam a coisa
absolutamente ridícula e que estavam gargalhando por dentro.
Lembrei disso quando vi um desses programas. Quando tiraram a venda
dos olhos do pobre do casal, eu pude ver a expressão de desespero
deles ao encarar a horrorosa sala de estar lilás.
- E aí? Gostaram? perguntaram os decoradores-apresentadores,
sorrindo.
- Hum. Diferente, né? |
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