epifanias  
Marlene Dietrich, 1935
O CENTENÁRIO DE CECIL BEATON

Por HENRIQUE MARQUES-SAMŸN (*)
(hmsfoto@yahoo.com.br)
colunista do site Moda Almanaque

Neste ano de 2004 comemoramos o centenário do nascimento de um dos mais populares fotógrafos de moda da História. Mesmo aqui no Brasil, onde a fotografia de moda permanece na condição de objeto de estudo de poucos especialistas e curiosos, Sir Cecil Beaton é um nome bastante conhecido - essencialmente por seus incontáveis e brilhantes retratos de celebridades do porte de Marilyn Monroe, Rudolf Nureyev e Coco Chanel.

Beaton é, na maior parte das vezes, visto como um dândi superficial e excêntrico, mais ou menos como um jovem Oscar Wilde que houvesse florescido no mundo da fotografia. No entanto, esta visão é só até certo ponto verdadeira; se o que se deseja é levar adiante esta comparação com Wilde, seria preciso levar em conta que a experiência da Segunda Guerra Mundial significou, para o fotógrafo, aquilo que a prisão de Reading significou para o escritor, ou seja: um golpe fatal em toda a crença de que a possível superioridade da arte em relação à vida significa que aquela pode ser vivida no lugar desta. A progressiva descoberta desta certeza - influenciada, sem dúvida, pelo fato de que também cenas da guerra foram capturadas por sua câmera - determinou um perceptível amadurecimento na fotografia de Beaton, que foi se despojando de todo o luxo e excesso que encontrávamos nas fotos da década de 20 e realizou-se, principalmente a partir dos últimos anos da década de 30, em uma estética de tons classicistas. É como se Beaton estivesse se reconciliando com o mundo real, desprezado de forma tão soberba em suas primeiras imagens - o próprio fotógrafo diria, anos depois: "minha adolescência teve seus momentos de esnobismo equivocado". Por outro lado, aquelas fotografias do jovem Beaton que hoje parecem tão próximas do kitsch devem ser situadas na origem de todo o glamour que atravessa a história da foto de moda. Nelas encontramos um mundo de luxo e excesso, afetação e preciosismo que, justamente pelo que tem de irreal e maravilhoso, consolidou-se como uma espécie de arquétipo daqueles espaços envoltos por uma dourada névoa que ainda ocupam um lugar central no imaginário da foto de moda.

É preciso, portanto, de muitas formas recordar Cecil Beaton. Recordá-lo por haver sido um exímio retratista, verdadeiro mestre na arte da iluminação, autor de inúmeras imagens que entraram para a História, fosse por sua criatividade - como seus retratos de Aldous Huxley ou W. H. Auden - , fosse por sua brilhante capacidade de registrar poses destinadas à eternidade - como seus retratos de Marlene Dietrich ou Jean Cocteau; e recordá-lo por haver sido o incansável criador que tantas vezes repensou sua própria obra, atravessando inúmeros gêneros fotográficos e em cada um deles realizando contribuições inavaliáveis, de uma extraordinária criatividade. Mas é preciso também recordá-lo por haver sido uma singular personalidade: um dândi e esteta que, sob todas as máscaras sociais, procurava incansavelmente sua própria autenticidade, guiado por sinceras motivações ocultas sob aforismos de uma leviandade calculada. "Seja atrevido, seja diferente, seja impossível", recomendava Beaton, "seja qualquer coisa que deixe claro a integridade de objetivos e a visão imaginativa contra os conformistas, as criaturas dos lugares-comuns, os escravos da vulgaridade". Não foi ele o primeiro a seguir esta lei, contrariando o senso comum de tantas diferentes maneiras? Talvez tenha sido esta uma das mais valiosas lições deixadas por Sir Beaton: a superficialidade do gesto, muitas vezes, oculta a profundidade do espírito.
A estilista Coco Chanel
 
Marilyn Monroe
 
Revista Vogue, 1937
   
 
(*) HENRIQUE MARQUES-SAMŸN
é filósofo e ensaísta. Pesquisador acadêmico nas áreas de arte e cultura, tem vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas. Além de escrever para o Moda Almanaque, é colunista do Fotosite (www.fotosite.com.br), onde escreve sobre a estética da fotografia."
 
 
© Copyright Moda Almanaque/Studio América. Todos os direitos reservados.