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Neste
ano de 2004 comemoramos o centenário do nascimento de um
dos mais populares fotógrafos de moda da História.
Mesmo aqui no Brasil, onde a fotografia de moda permanece na condição
de objeto de estudo de poucos especialistas e curiosos, Sir Cecil
Beaton é um nome bastante conhecido - essencialmente por
seus incontáveis e brilhantes retratos de celebridades do
porte de Marilyn Monroe, Rudolf Nureyev e Coco Chanel.
Beaton é, na maior parte das vezes, visto como um dândi
superficial e excêntrico, mais ou menos como um jovem Oscar
Wilde que houvesse florescido no mundo da fotografia. No entanto,
esta visão é só até certo ponto verdadeira;
se o que se deseja é levar adiante esta comparação
com Wilde, seria preciso levar em conta que a experiência
da Segunda Guerra Mundial significou, para o fotógrafo, aquilo
que a prisão de Reading significou para o escritor, ou seja:
um golpe fatal em toda a crença de que a possível
superioridade da arte em relação à vida significa
que aquela pode ser vivida no lugar desta. A progressiva descoberta
desta certeza - influenciada, sem dúvida, pelo fato de que
também cenas da guerra foram capturadas por sua câmera
- determinou um perceptível amadurecimento na fotografia
de Beaton, que foi se despojando de todo o luxo e excesso que encontrávamos
nas fotos da década de 20 e realizou-se, principalmente a
partir dos últimos anos da década de 30, em uma estética
de tons classicistas. É como se Beaton estivesse se reconciliando
com o mundo real, desprezado de forma tão soberba em suas
primeiras imagens - o próprio fotógrafo diria, anos
depois: "minha adolescência teve seus momentos de esnobismo
equivocado". Por outro lado, aquelas fotografias do jovem Beaton
que hoje parecem tão próximas do kitsch devem ser
situadas na origem de todo o glamour que atravessa a história
da foto de moda. Nelas encontramos um mundo de luxo e excesso, afetação
e preciosismo que, justamente pelo que tem de irreal e maravilhoso,
consolidou-se como uma espécie de arquétipo daqueles
espaços envoltos por uma dourada névoa que ainda ocupam
um lugar central no imaginário da foto de moda.
É preciso, portanto, de muitas formas recordar Cecil Beaton.
Recordá-lo por haver sido um exímio retratista, verdadeiro
mestre na arte da iluminação, autor de inúmeras
imagens que entraram para a História, fosse por sua criatividade
- como seus retratos de Aldous Huxley ou W. H. Auden - , fosse por
sua brilhante capacidade de registrar poses destinadas à
eternidade - como seus retratos de Marlene Dietrich ou Jean Cocteau;
e recordá-lo por haver sido o incansável criador que
tantas vezes repensou sua própria obra, atravessando inúmeros
gêneros fotográficos e em cada um deles realizando
contribuições inavaliáveis, de uma extraordinária
criatividade. Mas é preciso também recordá-lo
por haver sido uma singular personalidade: um dândi e esteta
que, sob todas as máscaras sociais, procurava incansavelmente
sua própria autenticidade, guiado por sinceras motivações
ocultas sob aforismos de uma leviandade calculada. "Seja atrevido,
seja diferente, seja impossível", recomendava Beaton,
"seja qualquer coisa que deixe claro a integridade de objetivos
e a visão imaginativa contra os conformistas, as criaturas
dos lugares-comuns, os escravos da vulgaridade". Não
foi ele o primeiro a seguir esta lei, contrariando o senso comum
de tantas diferentes maneiras? Talvez tenha sido esta uma das mais
valiosas lições deixadas por Sir Beaton: a superficialidade
do gesto, muitas vezes, oculta a profundidade do espírito.
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