epifanias  
Horst P.Horst, Paris, 1937
RETRATOS DE CHANEL

Por HENRIQUE MARQUES-SAMŸN (*)
(hmsfoto@yahoo.com.br)
colunista do site Moda Almanaque

Grandes personalidades exigem grandes retratistas capazes de captar a multiplicidade de suas facetas. Há, afinal, uma espécie de excesso em toda genialidade; e, ainda que seja impossível encontrar aí alguma essência - já dizia Nietzsche que, se a lebre possui sete peles, "o homem pode bem se despojar setenta vezes das sete peles, mas nem assim poderia dizer: 'Ah! Por fim, eis o que tu és verdadeiramente, não há mais o invólucro!' " - , isso não representa um impedimento a que esta empreitada seja inúmeras vezes realizada por aqueles capazes de tomá-la a sério. Trata-se, nesta medida, de captar não uma "face real" enquanto única verdadeira, mas a realidade das múltiplas faces - a pluralidade de manifestações por meio das quais uma grande personalidade deixa no mundo seus rastros. E Chanel, cuja vida agora vai para o palco, foi um destes singulares talentos que muitos olhares tentaram, num esforço necessariamente vão, captar de forma definitiva; olhares que, ainda que conscientes do fracasso sempre intrínseco a esta tarefa, souberam retirar deste sua força - intensificando a fugacidade da imagem capturada de modo a potencializar o instante em que o clique foi realizado.

Selecionei para esta coluna quatro dentre os mais memoráveis retratos de Coco Chanel, notáveis não apenas por suas qualidades estéticas, mas também por se colocarem em extremos opostos no tocante a elas - mostrando, nesta medida, quatro olhares radicalmente diferentes sobre uma das mais importantes figuras da História da Moda.

Os dois primeiros retratos foram feitos entre 1937 e 1940 por fotógrafos primordiais na História da foto de moda: Horst P. Horst e Cecil Beaton. O Sir Beaton que encontramos nesta fotografia já anuncia, de certa forma, as mudanças que marcariam seu trabalho nos próximos anos: há aqui um despojamento e uma aproximação da estética classicista que se opõem ao luxo e ao excesso que caracterizaram sua obra no período anterior. Altiva e imponente, Chanel está de pé, encostada em uma coluna; a composição cria uma interessante oposição entre o exotismo da estátua à direita e a sobriedade e elegância da estilista - o que, inserido nos comuns padrões estéticos eurocêntricos, faz pensar em uma oposição entre civilização e barbárie, ressaltando o refinamento sempre associado à figura de Chanel. De outro lado, o retrato criado por Horst mostra uma aparência distinta: as curvas do móvel e a lânguida pose da estilista compõem uma imagem mais próxima de uma estética barroca; em oposição ao racionalista equilíbrio mostrado na foto de Beaton, aqui o que se apresenta é uma certa sensualidade, um lado mais "carpe diem" de Chanel.

Distinta oposição, já que totalmente intrínseca ao olhar, é a que encontramos nas outras imagens, já da década de 50, criadas por Louise Dahl-Wolfe e Frank Horvat. Aqui, o que há de notável é o contraste entre a receptiva e amena Chanel que encontramos na foto de Dahl-Wolfe, que fita a lente de forma franca e aberta - seu olhar, firme e direto, revela a lendária força de sua personalidade - e a misteriosa sombra que surge entre as escadas na foto de Horvat, na qual apenas a silhueta pode ser vislumbrada - foto que foi realizada quando Chanel assistia a um desfile de suas próprias roupas escondida através de um espelho, sem imaginar que o fotógrafo a observava através de outro espelho. A sombra serve como uma metáfora para aquilo que não aparece no retrato de Dahl-Wolfe: precisamente a "outra" Chanel, não apenas no tocante a seus segredos, mas também em relação ao aspecto sempre oculto de toda a genialidade - que, além de singular, jamais pode ser de todo satisfatoriamente transmitida; permanecendo, portanto, como uma espécie de enigma, um dom que jamais pode ser reproduzido - mas jamais deixa de suscitar fascínio.
Chanel por Louise Dahl-Wolfe (1954)
 
Chanel por Frank Horvat (1959)
 
Chanel por Cecil Beaton (anos 40)
   
 
(*) HENRIQUE MARQUES-SAMŸN
é filósofo e ensaísta. Pesquisador acadêmico nas áreas de arte e cultura, tem vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas. Além de escrever para o Moda Almanaque, é colunista do Fotosite (www.fotosite.com.br), onde escreve sobre a estética da fotografia."
 
 
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