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PRESENÇA FEMININA NA CONSTRUÇÃO DA FOTO
DE MODA (I): LOUISE DAHL-WOLFE
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Por HENRIQUE MARQUES-SAMN (*)
(hmsfoto@yahoo.com.br)
colunista do site Moda Almanaque |
Algo
que nem sempre é percebido, no tocante à fotografia
de moda, é a importância capital da presença
feminina em sua História. Principalmente naquilo que mais
tarde viria a se tornar a tradição norte-americana
da foto de moda, as mulheres desempenharam um papel crucial, participando
da própria construção desta tradição
- e, para falar sobre isso, precisamos chamar à discussão
dois nomes fundamentais: Toni Frissell e Louise Dahl-Wolfe. Na coluna
de hoje, falarei sobre o trabalho desta última, deixando
a obra de Frissell para a semana que vem.
A carreira de Louise Dahl-Wolfe, nascida em San Francisco em 1895,
teve um começo semelhante ao de grande parte dos fotógrafos
da época: ela começou como pintora, trabalhando também
como decoradora, até conhecer o trabalho de Anne W. Brigman
- uma fotógrafa norte-americana que participou do chamado
movimento pictorialista, cuja principal meta era valorizar a fotografia
como meio de expressão artístico em um período
no qual tal proposta ainda despertava certa desconfiança
e reações contrárias. Motivada pelo trabalho
de Brigman, Dahl-Wolfe começou a fazer fotografias para uma
empresa de decoração, ainda em San Francisco, no início
da década de 30; quando foi para Nova York, em 1933, uma
destas fotos foi publicada na Vanity Fair, o que lhe valeu um convite
da Vogue para trabalhar em seus estúdios. Louise, no entanto,
recusou o convite, preferindo trabalhar como freelancer; permanecendo
assim até ser fisgada por Carmel Snow e Diana
Vreeland, indo para a Harper's Bazaar no final da década
de 30.
A obra de Dahl-Wolfe, como aliás toda a geração
de fotógrafos de moda norte-americanos na qual surgiu, dialogou
intensamente com o naturalismo de inspiração munkacsiana
- este o húngaro que, tendo chegado aos Estados Unidos fugindo
da ascensão nazista, fez naquele país as fotos que
inaugurariam a vertente naturalista na foto de moda. O que Dahl-Wolfe
fez foi lapidar o diamante descoberto por Munkacsi, atualizando-o
e realizando um deslocamento fundamental, também efetuado
por Toni Frissell, em direção à representação
de um estilo de vida. Mas a obra de Louise Dahl-Wolfe é nitidamente
mais ambiciosa, principalmente no tocante aos desenvolvimentos formais,
que se revelariam tanto em relação a seu uso da cor
quanto às suas composições ricas e elaboradas.
Há exemplos disso já em seus primeiros trabalhos:
em "Mary Sykes em Porto Rico", de 1938, vemos um interessante
jogo formal entre o chão de ladrilhos, formando um padrão
xadrez, e a mesa listrada na parte inferior da foto. O constraste
entre as estreitas listras em primeiro plano e o chão xadrez
que se estende até o infinito cria uma sensação
de "expansão" na foto, cujo aspecto turístico
- presente tanto no tema quanto referido pelos cartões postais
- adquire, por esta razão, um sentido particular: sabemos,
pelo título-legenda, que Mary Sykes está em Porto
Rico - mas poderia estar também em qualquer outro país:
o mundo está a seus pés. Mary é um arquétipo:
é o viajante, esta figura central na obra de Dahl-Wolfe,
que ressurge em praias no Caribe, ao lado dos músicos cubanos
ou vestindo Dior em Paris, naquela foto que certa vez a fotógrafa
consideraria ser sua favorita.
Nesta época em que a foto de moda ao ar livre estava começando
a se afirmar, Louise Dahl-Wolfe levou-a para outros continentes
- e foi uma das principais responsáveis por mostrar que,
através daquelas imagens, ideais e estilos de vida poderiam
ser mostrados ao mundo.
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"Mary
Sykes em Porto Rico" (1938)
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Mary
Jane Russell em vestido Dior (Paris, 1950)
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Coco
Chanel em seu apartamento em Paris (1954)
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