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Melvin
Sokolsky contou recentemente uma história interessante: em
uma exposição, espiando a discussão que um
grupo de estudantes fazia acerca de seu trabalho, ouviu alguns deles
elogiarem suas habilidades com o Photoshop, o conhecido programa
de edição de imagens. As famosas fotografias com bolhas
e modelos voadoras de Sokolsky deveriam ser produto de um informata
habilidoso, julgavam os estudantes, visto que não haviam
quaisquer imperfeições perceptíveis naquelas
imagens. Sokolsky, fingindo, ser um espectador, uniu-se ao grupo
e fez a grande observação: em 1963, o Photoshop sequer
existia! Só é uma pena que o fotógrafo não
nos conte que rumo a discussão tomou depois que esta observação
foi feita
Essa anedota certamente nos dá matéria para pensar,
já que nos mostra como ainda hoje as fotografias de Sokolsky
podem ser inusitadas e surpreendentes. Aqueles estudantes certamente
não estavam referindo-se apenas à presença
do fantástico naquelas imagens; mas também à
ousadia daquele olhar que, escapando de todo e qualquer padrão
de normalidade, fotografou modelos voadoras em enormes bolhas em
plena Paris da década de 60. Talvez sua admiração
tenha aumentado quando descobriram que tudo aquilo foi feito artesanalmente,
já que as bolhas realmente estavam penduradas nos prédios
e suspensas nas ruas. Para sorte de Sokolsky, o marido de uma de
suas modelos era amigo de um policial que concedeu a permissão
para que o estranho projeto pudesse ser concretizado. Graças
a isso, as modelos puderam alçar vôo - e a fotografia
de moda conheceu uma de suas maiores revoluções.
É por declarações do próprio Sokolsky
que sabemos que a inspiração para estas fotografias
vem da arte de um artista que, para olhos leigos, pode parecer não
menos bizarro: Hieronymus Bosch, genial pintor renascentista de
cujas mãos nasceram algumas das mais estranhas e fascinantes
obras de arte que a humanidade conheceu. Diz-nos o fotógrafo
que, ao idealizar as fotografias das modelos em bolhas, tinha em
mente uma tela de Bosch que conhecera em sua infância: o "Jardim
das Delícias Terrenas" (veja imagem ao lado), magnífico
tríptico que representa a vida no mundo como um espaço
entre o paraíso e o inferno, entre o Éden e a perdição.
Hoje em dia, a pintura pode parecer uma espécie de exercício
fantástico; mas não o era nos tempos que Bosch a criou.
Em pleno alvorecer da Renascença, o mundo ainda se encontrava
povoado por todas as criaturas que habitaram os sonhos medievais;
ainda era um lugar estranho, ameaçador, permeado pelo pecado
e por uma natureza corrompida. No painel central da pintura, o Jardim
das Delícias propriamente dito, o que vemos é uma
condenação da vida no mundo como uma existência
ameaçada pela lascívia e pela luxúria.
O que tem isso a ver com Sokolsky e a moda? É o que veremos
na próxima semana.
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