epifanias    
"On The Seine", Paris (1963)
SOKOLSKY E O FANTÁSTICO (I)

Por HENRIQUE MARQUES-SAMŸN (*)
(hmsfoto@yahoo.com.br)
colunista do site Moda Almanaque

Melvin Sokolsky contou recentemente uma história interessante: em uma exposição, espiando a discussão que um grupo de estudantes fazia acerca de seu trabalho, ouviu alguns deles elogiarem suas habilidades com o Photoshop, o conhecido programa de edição de imagens. As famosas fotografias com bolhas e modelos voadoras de Sokolsky deveriam ser produto de um informata habilidoso, julgavam os estudantes, visto que não haviam quaisquer imperfeições perceptíveis naquelas imagens. Sokolsky, fingindo, ser um espectador, uniu-se ao grupo e fez a grande observação: em 1963, o Photoshop sequer existia! Só é uma pena que o fotógrafo não nos conte que rumo a discussão tomou depois que esta observação foi feita…

Essa anedota certamente nos dá matéria para pensar, já que nos mostra como ainda hoje as fotografias de Sokolsky podem ser inusitadas e surpreendentes. Aqueles estudantes certamente não estavam referindo-se apenas à presença do fantástico naquelas imagens; mas também à ousadia daquele olhar que, escapando de todo e qualquer padrão de normalidade, fotografou modelos voadoras em enormes bolhas em plena Paris da década de 60. Talvez sua admiração tenha aumentado quando descobriram que tudo aquilo foi feito artesanalmente, já que as bolhas realmente estavam penduradas nos prédios e suspensas nas ruas. Para sorte de Sokolsky, o marido de uma de suas modelos era amigo de um policial que concedeu a permissão para que o estranho projeto pudesse ser concretizado. Graças a isso, as modelos puderam alçar vôo - e a fotografia de moda conheceu uma de suas maiores revoluções.

É por declarações do próprio Sokolsky que sabemos que a inspiração para estas fotografias vem da arte de um artista que, para olhos leigos, pode parecer não menos bizarro: Hieronymus Bosch, genial pintor renascentista de cujas mãos nasceram algumas das mais estranhas e fascinantes obras de arte que a humanidade conheceu. Diz-nos o fotógrafo que, ao idealizar as fotografias das modelos em bolhas, tinha em mente uma tela de Bosch que conhecera em sua infância: o "Jardim das Delícias Terrenas" (veja imagem ao lado), magnífico tríptico que representa a vida no mundo como um espaço entre o paraíso e o inferno, entre o Éden e a perdição.

Hoje em dia, a pintura pode parecer uma espécie de exercício fantástico; mas não o era nos tempos que Bosch a criou. Em pleno alvorecer da Renascença, o mundo ainda se encontrava povoado por todas as criaturas que habitaram os sonhos medievais; ainda era um lugar estranho, ameaçador, permeado pelo pecado e por uma natureza corrompida. No painel central da pintura, o Jardim das Delícias propriamente dito, o que vemos é uma condenação da vida no mundo como uma existência ameaçada pela lascívia e pela luxúria.

O que tem isso a ver com Sokolsky e a moda? É o que veremos na próxima semana.
"Bubble Lion"
"Le Dragon", Paris, 1963
Detalhe da tela "Jardim das Delícias Terrenas" de Hieronymus Bosch
 
   
 
(*) HENRIQUE MARQUES-SAMŸN
é filósofo e ensaísta. Pesquisador acadêmico nas áreas de arte e cultura, tem vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas. Além de escrever para o Moda Almanaque, é colunista do Fotosite (www.fotosite.com.br), onde escreve sobre a estética da fotografia."
 
 
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