epifanias    
Jalouse
O TEATRO UNDERGROUND DE TAKAY

Por HENRIQUE MARQUES-SAMŸN (*)
(hmsfoto@yahoo.com.br)
colunista do site Moda Almanaque

Um dos fotógrafos de moda contemporâneos que tem recentemente adquirido maior destaque é o japonês Takay. Radicado na Europa, vivendo no eixo Londres-Paris, já teve fotografias publicadas por revistas como The Face, Arena e Jalouse, e têm aparecido com frequência nas páginas da i-D.

A fotografia de Takay apresenta um forte erotismo, mais insinuado do que exibido. Possui uma sensibilidade especial para a criação de narrativas em torno de personagens fortes, geralmente a partir de tipos característicos do underground: garotas rebeldes, no melhor estilo easy rider; frágeis beldades, com um leve toque junkie; avassaladoras dominatrixes, com um sedutor perfume exalando destruição… Takay freqüentemente caminha naquela fronteira que separa a arte da vida cotidiana - o que, em larga medida, insere-o em toda aquela geração de fotógrafos de moda que, na década de 90, voltaram suas lentes para a cultura jovem urbana. Mas, indo mais além, isso nos leva a questionar quem, afinal de contas, somos nós: até que ponto não nos entregamos ao mero desempenho dos papéis sociais que nos são atribuídos? Que a sociedade funciona de forma análoga a um teatro é algo que antropólogos já vêm afirmando há décadas; no entanto, é comum que não percebamos tal semelhança e nos deixemos confundir com nossos próprios papéis a ponto de perder todo e qualquer resquício de autenticidade.

Desta forma, a obra de Takay se caracteriza por uma incondicional contemporaneidade; que, se por um lado, jamais recai na trivialidade, por outro lado não é nunca demasiadamente afetada ou artificial. É notável perceber que, ainda que jogue com estereótipos e figuras tão arquetípicas, a criatividade torna suas fotografias interessantes e instigantes. Opera, assim, um deslocamento: cria algo de novo em personagens que, na maior parte das vezes, passam despercebidos diante de nossos olhos. Takay cria aquela distância em que observamos a sociedade "de fora", mas em que somos ainda capazes de reconhecer, aqui e ali, as figuras que povoam o mundo que nos cerca.
Tudo isso acaba por suscitar uma pergunta: que caminho seguirá o fotógrafo quando seu repertório de personagens se esgotar? Há o risco de que recaia em uma repetição de si mesmo - talvez o pior dos pecados que um artista pode, um dia, vir a cometer. No entanto, a variação de temas que Takay tem mostrado saber construir a partir de uma mesma constelação de personagens mostra que, aparentemente, não temos o que temer. Façamos, portanto, um voto de confiança em sua originalidade: eis um nome da fotografia de moda contemporânea que provavelmente ainda nos dará muito sobre o que falar.
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i-D
 
 

   
 
(*) HENRIQUE MARQUES-SAMŸN
é filósofo e ensaísta, tendo publicado vários textos sobre arte e cultura em revistas e periódicos. Pesquisador de estética da fotografia, é colunista do "Fotosite" (www.fotosite.com.br) e um dos editores da revista "Anfiguri" (www.gothic.art.br/anfiguri)
 
 
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