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WILLIAM
KLEIN (I): um eterno estrangeiro
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Por HENRIQUE MARQUES-SAMN (*)
(hmsfoto@yahoo.com.br)
colunista do site Moda Almanaque |
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Neste ano de 2003, comemoram-se setenta e cinco anos de William
Klein. Não que fosse necessário um motivo especial
para falar sobre um dos mais importantes fotógrafos contemporâneos,
legítimo divisor de águas na história da fotografia
de moda; mas porque não aproveitar a ocasião e fazer
uma homenagem, digamos, mais formal? Decidi, por isso, utilizar
este pequeno espaço para fazer uma série de três
colunas exclusivamente dedicadas à sua obra.
Klein trouxe, para a fotografia de moda, um olhar de estrangeiro:
avesso ao mundo fashion, fez deste estranhamento um terreno no qual
construiu uma obra marcada pelo pathos da distância. Experiência,
em certo sentido, familiar - já que como um estrangeiro conheceu
o mundo já em seus primeiros anos de vida. Filho de imigrantes
judeus, nascido no ano em que sua família havia mergulhado
na pobreza devido à quebra do comércio de roupas de
seu pai, o jovem William conheceu cedo esta dupla marginalização,
étnica e econômica. No entanto, espíritos privilegiados
não são derrotados facilmente, e também dupla
foi a vantagem que Klein soube tirar da situação:
primeiro, fazendo do MoMA seu refúgio; segundo, criando em
sua periférica situação uma espécie
de "posto de observação".
Durante toda a sua vida, Klein cultivaria estas virtudes que soube
extrair dos reveses. Quando chegou à moda, também
o fez como um estrangeiro: Alexander Liberman, diretor da Vogue,
convidou-o para trabalhar na revista após ver uma exposição
sua que nada tinha a ver com a moda; eram fotografias abstratas,
parte das experiências que Klein vinha fazendo nas artes plásticas.
A resposta do fotógrafo ao convite - trabalhar
"fazendo
o quê?" - confirma sua declaração de que,
na época, ele sequer sabia sobre o que era a Vogue - quanto
mais como poderia trabalhar nela! O negócio foi fechado quando
Liberman aceitou um projeto de Klein de fazer um portfólio,
espécie de diário fotográfico, de Nova Iorque.
Diga-se de passagem que este projeto jamais foi concretizado, embora
certamente trouxesse o germe do que futuramente seria a primeira
grande obra do fotógrafo: o livro Life is Good for You
in New York - William Klein Trance Witness Revels - título
irônico para uma obra tão violenta e contundente que
foi recusada pela Vogue e por todos os editores americanos, só
sendo publicada em Paris, em 1956.
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Nas
palavras do próprio William Klein, tratava-se de fazer conscientemente
o oposto daquilo que Cartier-Bresson propunha, ou seja: fotografar
cenas das ruas de Nova Iorque da forma mais visível e com o
maior volume possível de interferências - "minha
estética era a do Daily News
eu via o livro que queria
como um tablóide tornando-se enfurecido, indecente, manchado,
com um layout brutal
isso era o que Nova Iorque merecia e receberia".
Só essa breve história já nos dá os ingredientes
principais para que possamos entender a obra de William Klein: uma
porção de inconformismo, muitas colheres de uma franqueza
ácida, uma boa dose de sarcasmo e ironia a gosto. Consciente
de seu valor, Klein nunca foi muito dado a concessões; e foi
graças a isso que, em seu trabalho relacionado ao mundo fashion,
desmontou estereótipos e contestou os padrões estabelecidos
a tal ponto que, parafraseando uma de suas declarações
sobre a já citada série de Nova Iorque, levou a fotografia
de moda a um ponto zero. Mas isso já é assunto para
a próxima coluna.
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Foto
para a Vogue francesa, abril de 1961
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Simone Daillencourt, 1962
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