GIRLIE PARA QUEM QUISER
 

Por DANILO CORCI (*)
(danilo@speculum.art.br)
colunista do site Moda Almanaque

Na música anglo-saxã existe um formato consagrado: mulheres de atitude, com um magnetismo pessoal que fundem o folk, o rock, o pop e letras com ares poéticos. Há inúmeros exemplos que vão desde Liz Phair, passam por Tori Amos, vão para Lisa Germano, Sheryl Crow, Lucinda Williams, Suzanne Vega, Cat Power, Kate Bush. Pronto, chega de enumeração, pois o fetiche musical tá mais do que satisfeito.

Diferentemente de uma PJ Harvey, uma girlie raivosa (que lá costuma chamar de riot), essas admiráveis mulheres narram suas agonias, seus prazeres e frustrações, bradam sobre a condição feminina com certo quê de delicadeza, sem meter o pé na porta no gênero "vemcámeunego" como a senhorita-deusa Harvey. Tão competentes melodicamente, estas girles quase sempre emplacam músicas em seriados de televisão modernosos ou em filmes indies norte-americanos.

As famosas muita gente conhece. Ainda assim, há as esquecidas, ou melhor, as que repercutem um pouco menos sejam lá quais forem os motivos. Uma destas é a estadunidense quase cinquentona Shawn Colvin, com oito álbuns nas costas (o último de inéditas é de 2001, seguindo de um best of em 2004), que foi considerada uma das mais brilhantes figuras do movimento "novo folk", que floresceu nos EUA na década de 80. Apareceu para o mundo como backing vocal do hit Luka, de Suzanne Vega.

Ainda que não tenha sido absolutamente exitosa em sua carreira, Shawn Colvin legou um álbum espetacular: A Few Small Repair, de 1996, gravado logo após um complicado processo de divórcio da cantora. Obviamente, várias emoções complexas - raiva, angústia, confusão, tristeza - estão presentes na composição do disco, ainda que não de maneira clicheresca.

If I Were Brave, piano e voz, a pop Get Out Of This House, a triste balada The Facts About Jimmy ou a ritmada Suicide Alley (com belíssima letra, por sinal) preenchem um repertório girlie de primeira linha, ou seja, canções soft com diversas misturas, focado num tristonho vocal.



 
 

Já ao contrário da veterana Colvin, chega a novata canadense Martha Wainwright (sim, ela é irmã de Rufus Wainwright), que lançou seu álbum epônimo em 2005, com um pouco mais de virulência nas canções e com misturas mais variadas.

Num caldeirão musical impressionante - com influências que vão de Bruce Springsteen a Dixie Chicks, passam pelo folk e country sem pieguice de uma Faith Hill, Wainwright cria um pequeno idílio musical com canções como G.P.T, Factory (totalmente Tori Amos), Ball & Chain e a espetacular Bloody Mother Fucking Asshole, onde ela faz variações vocais impressionantes dentro da canção que já começa com o seguinte verso "Poetry is no place for a heart that's a whore/And I'm young & I'm strong/But I feel old & tired/Overfired" e descamba para o sonho e desejo de ser um homem. Poderoso. Martha Wainwright é tão despachada e brejeira que não seria surreal imaginá-la num rincão perdido do Wyoming ao invés da gélida Montreal.


As girlies anglo-saxãs são quase um gênero a parte no pop rock daquela língua. Criam com sensibilidade pequenas pérolas musicais. Entre recalques e desespero, emergem as menininhas plangentes e quiméricas. Ou seja, a índole do pop blasé. Ainda bem!




 
  
 (*) DANILO CORCI é formado em produção editoral pela USP, é editor do site Speculum.art.br  e escreveu esta coluna ao som de "The accident", do Louis XIV
 
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