GIVENCHY: ETERNAMENTE CLÁSSICO

Por *PATRÍCIA RODRIGUES
(pdlrodrigues@uol.com.br)
Ele "inventou" as peças coordenáveis e seu estilo clássico e requintado foi eternizado por famosas como Audrey Hepburn e Jack O.

Antes de Givenchy, a moda considerada "elegante" ditava que todas as peças deveriam fazer parte de um conjunto e, portanto, combinarem entre si. Hoje, isso pode parecer um absurdo, mas foi graças a ele que saias começaram a ser usadas com suéteres, blusas, bodies e boleros. Apesar de implementar um novo conceito - a de que, para compor um conjunto as peças poderiam muito bem ser independentes - Givenchy não era um revolucionário nem um contestador dos anos 50, mas seu estilo requintado marcou a fase áurea da alta-costura francesa.

Peças com linhas simples e bem estruturadas, écharpes, casaquinhos de cintura alta, saias levemente franzidas, vestidos limpos e justos de manguinhas curtas ou com cavas acentuadas são alguns de seus "clássicos" de bom gosto, que se transformaram em marcas registradas dos anos 50/60. Afinal, quem não se rende ao eterno (e inegavelmente maravilhoso) "pretinho básico" que ele desenhou para Audrey Hepburn em Breakfast at Tiffany's (1961), usado com óculos escuros e pérolas que se tornaram sinônimo de estilo? Aliás, foi a atriz quem popularizou o uso de calças justinhas com camisetas simples lançadas por Givenchy.

O cinema não só lhe rendeu a amizade por mais de 40 anos com Audrey, sua musa inspiradora e a encarnação de seu ideal de feminilidade, mas também teve um papel importante em suas criações e na divulgação de sua obra. "Para um criador de moda, os filmes são uma fonte de inspiração porque destacam o glamour e a sedução", costumava dizer. Coisas que suas roupas têm de sobra e que lhe deram, em 1954, o Oscar de melhor figurino por Sabrina, protagonizado por Audrey. Aliás, o Oscar foi mesmo para Edith Head, figurinista de nove entre dez filmes produzidos em Hollywood na época, mas todas as peças vestidas por Audrey quando sua personagem Sabrina volta de Paris foram feitas por Givenchy, que não recebeu o devido crédito na época. Isso fez com que a atriz, a partir de então, exigisse que todo o guarda-roupa de seus personagens fosse assinado pelo estilista e amigo. A estrela de Ariane (1956) e Cinderela em Paris (1957) dizia se sentir segura com as roupas de Givenchy, tanto dentro quanto fora do trabalho.

 
Arte como inspiração
 
O francês Hubert James Marcel Taffin de Givenchy nasceu em 20 de fevereiro de 1927, na rue Saint-Louis, 24, em Beauvais. Filho do marquês Lucien Taffin de Givenchy e de Béatrice de Givenchy, manifestou sua paixão pela moda desde cedo. Aos dez anos, depois de visitar uma feira no Pavillion d'Elégance, ficou maravilhado com os 30 modelos dos mais famosos costureiros franceses. Desse momento em diante, decidiu que seria um estilista, a contragosto da família, que esperava dele uma promissora carreira de advogado."Minha mãe me incentivou e disse-me que, se quisesse ser um costureiro, deveria dedicar-me totalmente e nunca mais mudar de opinião. Foi o que fiz e não me queixo porque é uma profissão fantástica".

Givenchy cursou a Escola de Belas Artes, em Paris. Depois que a França foi libertada da ocupação nazista, Givenchy mudou-se para Paris em começou a estudar com Jacques Fath (1945 e 1946). Continuou seu treinamento sob a batuta de Robert Piguet e tornou-se assistente de Lucien Legong antes de fazer parte da Maison Dior, em 1947. No mesmo ano, Elsa Schiaparelli o encarregou de gerenciar sua butique na Place Vendôme, onde ele passou quatro anos. No dia 2 de fevereiro de 1952, o sonho de Givenchy tornou-se realidade quando ele abriu sua própria Maison de alta costura no n° 8, da rue Alfred de Vigny, em Monceau Plain. Sua primeira coleção, cheia de peças com tecido de camisaria, foi um sucesso imediato: Bettina Graziana, modelo e assessora da companhia tornou-se um ícone da marca, principalmente depois que Givenchy criou a famosa blusa Bettina, cheia de babados nas mangas, amplamente copiada.
Nesse mesmo período, Givenchy conheceu o estilista espanhol Cristobal Balenciaga, que o influenciaria em inúmeras coleções, particularmente nas roupas estruturadas minimalistas. O mérito de Givenchy sempre foi o de saber dosar elegância com ousadia e modernidade, como se observa nas peças coordenáveis lançadas em 1952, nos vestidos ballonné (1958) e envelope (1966) e nas estampas inspiradas em Miró, Matisse e Christian Bérard.
Em 1954, Givenchy tornou-se o primeiro designer de alta-costura a apresentar uma luxuosa coleção feminina de pret-à-porter, a Givenchy Université. Três anos depois, lançou De, seu primeiro perfume feminino e, em seguida, l'Interdit, dedicado a Audrey Hepburn.. Em 1961, o estilista criou l'Eau de Vétyver e apostou no mercado masculino com a fragrância Monsieur de Givenchy. Conquistou, em 1967, o prêmio Tiberio d'Oro, no Festival Italiano de Moda, em Capri.
Com o passar dos anos, Givenchy diversificou as atividades da marca. Em 1973, entrou para o mercado de roupas masculinas, com o lançamento da linha de pret-à-porter Gentleman Givenchy e expandiu a distribuição de seus produtos para o Oriente e Estados Unidos. Em 1978 e 1981, recebeu o Dedal de Ouro, o mais prestigiado prêmio da moda francesa. Lançou, em 1984, o perfume Ysatis e, quatro anos depois, o nome Givenchy passou a fazer parte do luxuoso grupo LVMH (Moët Hennessy Louis Vuitton), que inclui também outras marcas de prestígio, como Christian Dior, Louis Vuitton, Christian Lacroix, Kenzo e Céline.
Em 1991, o estilista foi homenageado pelo Museu da Moda e dos Costumes, de Paris, com a retrospectiva "Givenchy: 40 anos de moda". Ele se retirou do mundo da moda em 1995 e, nesse mesmo ano, esteve no Brasil pela segunda vez para inaugurar o Primeiro Congresso Brasileiro de Moda, promovido pelo Instituto Zuzu Angel e pela Faculdade Veiga de Almeida, no Rio de Janeiro (a primeira foi na década de 50 a convite de uma fábrica de tecidos).
O comando da Maison passou para as mãos do inglês John Galliano. Formado pela London's St Martin's School of Art e três vezes eleito o Design do Ano pelo Conselho Britânico de Moda, Galliano tornou-se o estilista da alta costura e das luxuosas linhas de pret-à-porter. Em outubro de 1996, Alexander McQueen, também formado pela London's St Martin's School of Art, foi apontado como seu sucessor. Em março de 2001, Julien Macdonald, mesmo tendo sua própria casa desde 1997, foi nomeado diretor artístico da linha feminina e nesse cargo passou a desenhar para a alta-costura, pret-à-porter feminino e acessórios.
 
Audrey Hepburn com o famoso vestido preto em "Bonequinha de Luxo"
Jackie Onassis, fiel ao estilo Givenchy
A famosa blusa Bettina
Audrey Hepburn em "Bonequinha de Luxo"
Givenchy em visita ao Brasil em 1995

* PATRÍCIA RODRIGUES é jornalista com experiência em revistas femininas. Trabalhou na Editora Abril (Manequim, Anamaria, Claudia e Nova) e especializou-se em textos do universo feminino, como moda, artesanato, decoração, culinária e saúde. Atualmente, é sócia da Bola Dentro, empresa que presta serviços editoriais ao mercado jornalístico e escreve para o site Moda Almanaque

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