|
"Fashion:
Les nouvelles tendances de la photo de mode" é a versão
francesa da obra de Catherine Chermayeff "Fashion Photography
Now", lançada no mesmo ano (2000) da publicação
original, norte-americana. Embora o texto introdutório seja
questionável em muitos momentos, a seleção
de imagens é criteriosa e interessante, apresentando inclusive
obras inéditas - e, sendo ela o que há de mais importante
na obra, o resultado é a reunião de imagens de um
belo elenco de fotógrafos da contemporaneidade.
UMA OBRA DE ERROS E ACERTOS
Comecemos pelo que há de mais problemático na obra,
que é justamente a introdução de Catherine
Chermayeff. Nem sempre uma apurada sensibilidade pode ser adequadamente
traduzida em palavras, e estamos aqui diante de um caso interessante.
Ainda que Chermayeff seja, sem dúvida, uma grande conhecedora
da foto de moda contemporânea, o que é demonstrado
pela qualidade das imagens por ela escolhidas para a composição
do livro, a "tese" por ela apresentada na introdução
para justificar tal escolha é de muitas formas questionável.
Consoante a autora, o que torna estas obras notáveis é
uma síntese nelas realizada. Se a principal meta daquilo
que Chermayeff chama (sem definir ou desenvolver mais detidamente)
de "fotografia de moda tradicional" era apresentar as
roupas em situações agradáveis, a foto de moda
contemporânea teria como objetivo capturar "uma atmosfera,
um clima", para tanto recorrendo à alusão e às
entrelinhas; e, quando porventura estas duas "tendências"
são unidas em uma mesma obra, nascem as imagens mais interessantes,
à semelhança das que a autora pretendeu reunir no
livro.
No entanto, tudo isso acaba por ser bastante discutível.
Chermayeff não apresenta o recorte que compreende aquilo
que chama de "fotografia de moda tradicional", mas certamente
incluiria nesta nomes acerca dos quais afirmar que pretendiam apenas
"apresentar as roupas em situações agradáveis"
é, no mínimo, um reducionismo grosseiro - isso sem
considerar aqueles que se voltaram frontalmente contra tal proposta;
pensemos no estranhamento cultivado por William
Klein ou na desconstrução de Erwin
Blumenfeld, por exemplo. De outro lado, é sem dúvida
discutível a idéia de que o próprio Klein,
Louise Dahl-Wolfe ou Hoyningen-Huene,
também os dois últimos certamente "tradicionais"
em sua terminologia, não cultivassem em suas fotografias
toda a ambientação que a autora associa à foto
de moda contemporânea.
Já a hipótese da síntese proposta por Chermayeff
parece refutável, ao menos na medida em que há nela
uma pretensão à universalidade, por conceder um grande
valor à representação de "situações
agradáveis" na foto de moda. Se já não
era este um elemento fundamental nas obras de inúmeros fotógrafos
importantes de tempos passados, alguns dos quais já mencionei
anteriormente, na contemporaneidade isso é deslocado de forma
ainda mais radical - principalmente a partir da década de
90, com o nascimento de vertentes que tencionam atualizar uma linguagem
mais documental, experimental e crítica. Desta forma, Corinne
Day, Mario
Sorrenti e Rankin são exemplos de fotógrafos
que constituem sérios obstáculos à teoria de
Chermayeff.
Se, no entanto, deixarmos de lado estes problemas e observarmos
o essencial do livro, que é a centena de fotografias que
o compõem, encontraremos sua parte mais valiosa. Embora haja
ausências notáveis - não encontraremos ali nada
de Juergen Teller ou Nick Knight, por exemplo - , a autora tem pelo
menos dois méritos: primeiro, buscou escapar dos lugares-comuns,
selecionando nomes menos conhecidos ou emergentes como Michael
Thompson, Johanna Mulder e Dana Lixenberg; segundo, teve
a ousadia de colocar estes novos nomes ao lado de fotógrafos
consagrados como Lilian Bassman e Sarah Moon - sendo, afinal, bem-sucedida
em sua tentativa de mostrar quão exuberante é a força
renovadora da foto de moda contemporânea.
|