CONSTRUINDO MULHERES LINDAS, LÍVIDAS E LOIRAS
Por HENRIQUE MARQUES-SAMŸN (*)
(hmsfoto@yahoo.com.br)
colunista do site Moda Almanaque
Mulheres devem praticar jogos infantis, pequenos passeios e exercícios estéticos - jamais jogos atléticos, pouco apropriados à sua estrutura física mais fraca e delicada. No caso feminino, quaisquer qualidades espirituais devem ser colocadas em segundo plano - estas só servem para compensar a falta de beleza das feias; o prestígio social de uma mulher depende essencialmente de sua beleza física, já que sua carreira principal é o casamento. Por fim, o melhor é que a mulher possua os atributos mais desejáveis segundo o modelo nacional: seja linda, lívida e loura.

Reacionário? Chocante? Hoje em dia, certamente que sim - mas, há cerca de oitenta anos, eram estes os princípios que norteavam as vidas das paulistanas. "Beleza em jogo", excelente livro da historiadora Mônica Raisa Schpun, mostra como estas normas surgiram e se multiplicaram.

O livro deriva da tese de doutorado da autora, defendida na Universidade de Paris VII sob orientação de uma das maiores acadêmicas da contemporaneidade na História das relações de gênero, Michelle Perrot. No entanto, se a obra mantém a riqueza e o rigor próprios à boa pesquisa acadêmica, estas se encontram desenvolvidas em um texto de leitura leve, fácil e agradável. Os especialistas, no entanto, não devem se decepcionar: todas as fontes e bibliografia estão presentes, distribuídas em mais de uma centena de notas de rodapé.

Cultura física e beleza na São Paulo dos anos vinte

As transformações urbanas na São Paulo da década de 1920 levaram à emergência de novos modelos nas relações sociais. A explosão demográfica que aconteceu entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX, impulsionada pelo recrutamento de mão-de-obra para a cultura do café, levou a uma situação peculiar: de um lado, a ausência de uma intervenção competente do poder público conduziu a cidade a um verdadeiro caos social; de outro, as oligarquias rurais que vieram para a cidade trataram de utilizar todo o tipo de estratégias de distinção para manterem sua identidade de classe. E um destes instrumentos foi precisamente a cultura corporal: uma forma eficaz de construir e reforçar as identidades sociais e suas diferenças, principalmente entre homens e mulheres - sendo estas últimas as que ocupam o núcleo do livro de Mônica Schpun.

Através de análises sobre as práticas esportivas e sobre os discursos normativos dirigidos à beleza feminina na São Paulo dos anos vinte, a autora mostra como a cultura física esteve fortemente presente neste processo de diferenciação. O esporte visava, no homem, reforçar a virilidade e a "natureza máscula", fazendo com que o adulto desenvolvesse suas "aptidões naturais" e aprendesse a lutar e a vencer; já a ginástica, na mulher, além de controlar as "tendências corporais e psíquicas" e aprimorar suas "naturais" delicadeza e graça, permitia que os exercícios fossem feitos em casa - e que, deste modo, não interferissem nas obrigações domésticas.

A principal condição para a participação das mulheres na vida social, como mostra a autora, era a beleza - mas uma beleza que tinha seus critérios: era necessário parecer jovem (se São Paulo era tão progressista, afirmava em 1923 a revista A Cigarra, era porque era "uma cidade de moços e adolescentes"), ser esbelta e sensual e, finalmente, ser possuidora de uma beleza nórdica. As suficientemente dotadas podiam até mesmo participar dos concursos de beleza, que tinham como meta principal mostrar que havia, no Brasil, legítimas representantes de sofisticação e elegância. Beleza em jogo mostra como este modelo estava presente no imaginário social da época, em revistas, romances e propagandas. Contraposto a ele, estava principalmente o estereótipo da empregada doméstica - gorda, negra e estúpida - , habitante de tempos ultrapassados, síntese de tudo o que uma paulistana moderna deveria evitar.

"Beleza em jogo" traz fotografias e anúncios da época, dedica dois de seus quatro capítulos apenas à cultura da beleza e analisa a importância da moda na diferenciação dos papéis sexuais - sendo, desta forma, uma obra de interesse para pesquisadores de diversas áreas; mas, por sua narrativa ágil - e, em alguns pontos, mesmo divertida - pode ser lida também por quem queira apenas saber um pouco mais acerca da história das mulheres no Brasil. Muitos daqueles preconceitos, afinal, continuam presentes nos tempos atuais: não há muita gente por aí que ainda pensa que o futebol é um esporte "naturalmente" masculino, enquanto a dança estaria "naturalmente" reservada às mulheres?
 
 
AVALIAÇÃO:
Livro: "Beleza em Jogo"
Autora: Mônica Raisa Schpun
Editora: Boitempo Editorial
Quanto: R$ 25,00, em média (164 págs.)

*entenda nossa avaliação:
1 botão - não leia de jeito nenhum; 2 botões - dá pra ficar sem ler; 3 botões - dá pra ler na boa; 4 botões - vale a pena ler e 5 botões - leia agora de qualquer jeito

(*) HENRIQUE MARQUES-SAMŸN
é filósofo e ensaísta. Pesquisador acadêmico nas áreas de arte e cultura, tem vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas. Além de escrever para o Moda Almanaque, é colunista do Fotosite (www.fotosite.com.br), onde escreve sobre a estética da fotografia."

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