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Uma
cena inusitada teve lugar no Rio de Janeiro em 1808, quando da chegada
em terras fluminenses da Corte de d. João VI. Ali, os homens
da corte européia, vestidos de forma adequada para a ocasião
- com suas elegantes casacas à altura da cintura, cartolas
de pelo e cabelos curtos e bem penteados - defrontaram-se com a
alta sociedade local, igualmente vestida com suas melhores roupas
capotões de pano forte, sapatorras com pesadas e enormes
fivelas e chapéus tricórnios de vinte anos atrás!
E o contraste não era menor no tocante às roupas femininas:
se as mulheres da corte vestiam-se segundo a moda da cintura empire,
trazendo ademais longas luvas e cabeleira curta e cacheada, de outro
lado as representantes da "suprema elegância da colônia",
como ironicamente refere o cronista da época Luís
Edmundo, dispunham de longas e espessas mantilhas de renda e faces
cobertas de sinais de tafetá.
Para que o Rio de Janeiro conhecesse a moda, seria preciso esperar
ainda algum tempo - pelo menos até que as primeiras revistas
e jornais dessem às leitoras as orientações
necessárias e as roupas estrangeiras fossem comercializadas
na cidade. E é a história desta evolução
dos modos de vestir da "boa sociedade" fluminense no século
XIX que encontramos em "A cidade e a moda", da historiadora
Maria do Carmo Teixeira Rainho.
Uma audaciosa história dos usos da moda pela "boa
sociedade"
"A cidade e a moda" é uma obra indispensável
por inúmeros motivos. Primeiro porque é um legítimo
exemplo de que a ousadia, hoje em dia tão pouco apreciada
pelo mundo acadêmico, pode render pesquisas que primam pelo
rigor e pela originalidade - como esta, apresentada como dissertação
de mestrado em História Social da Cultura na PUC-Rio. Embora
Maria do Carmo esteja amparada em rica base teórica, o que
fica claro pela extensa e valiosa revisão bibliográfica
que realiza no primeiro capítulo da obra, de modo algum limita-se
ao mero comentário ou à acrítica adesão
a conceitos deste ou daquele pensador; antes o contrário:
se Norbert Elias faz-se particularmente presente na pesquisa, é
devidamente tomado como um instrumento, uma referência que
é pouco mais que um ponto de partida para a jornada em que
consiste o trabalho. Jornada que, diga-se de passagem, é
longa: a historiadora analisa jornais, revistas, manuais e teses
médicas com desenvoltura, mantendo uma notável disciplina
e jamais se afastando de suas hipóteses centrais, o que confere
ao livro uma impecável consistência.
Em que consiste essa viagem? "A cidade e a moda" acompanha
o nascimento da moda no Rio de Janeiro, mostrando como esta foi,
aos poucos, transformando-se em um "emblema de classe",
para utilizar a expressão da autora - de modo que a "boa
sociedade" viu-se gradualmente obrigada a lançar mão
das roupas e acessórios divulgados pela imprensa, já
que estes eram uma distinção a ela obrigatoriamente
imposta. Através de inúmeros exemplos, Maria do Carmo
Rainho mostra como vários discursos logo cercaram a moda
- como as teses médicas, que a condenavam como um mundanismo
pouco saudável; ou os jornais femininos, que surgiram a partir
da década de 1820 e que cuidavam de divulgar as novidades
parisienses e de orientar as leitoras em relação às
normas e padrões a serem observados.
"A cidade e a moda" é, enfim, uma obra imprescindível
para a compreensão da história da moda no Rio de Janeiro
do século XIX - e um raro exemplo de coragem e ousadia no
mundo acadêmico contemporâneo. Um adendo: a própria
economia inerente às dissertações de mestrado
faz com que Maria do Carmo Rainho sugira inúmeros novos caminhos
de pesquisa, ainda inexplorados. Portanto, se você é
estudante de história da moda brasileira em busca de uma
inspiração, eis uma obra que pode ser bastante valiosa!
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