UMA ÉPOCA DA MODA FLUMINENSE RECONSTRUÍDA COM CORAGEM E PRECISÃO
Por HENRIQUE MARQUES-SAMŸN (*)
(hmsfoto@yahoo.com.br)
colunista do site Moda Almanaque

Uma cena inusitada teve lugar no Rio de Janeiro em 1808, quando da chegada em terras fluminenses da Corte de d. João VI. Ali, os homens da corte européia, vestidos de forma adequada para a ocasião - com suas elegantes casacas à altura da cintura, cartolas de pelo e cabelos curtos e bem penteados - defrontaram-se com a alta sociedade local, igualmente vestida com suas melhores roupas… capotões de pano forte, sapatorras com pesadas e enormes fivelas e chapéus tricórnios de vinte anos atrás! E o contraste não era menor no tocante às roupas femininas: se as mulheres da corte vestiam-se segundo a moda da cintura empire, trazendo ademais longas luvas e cabeleira curta e cacheada, de outro lado as representantes da "suprema elegância da colônia", como ironicamente refere o cronista da época Luís Edmundo, dispunham de longas e espessas mantilhas de renda e faces cobertas de sinais de tafetá.
Para que o Rio de Janeiro conhecesse a moda, seria preciso esperar ainda algum tempo - pelo menos até que as primeiras revistas e jornais dessem às leitoras as orientações necessárias e as roupas estrangeiras fossem comercializadas na cidade. E é a história desta evolução dos modos de vestir da "boa sociedade" fluminense no século XIX que encontramos em "A cidade e a moda", da historiadora Maria do Carmo Teixeira Rainho.

Uma audaciosa história dos usos da moda pela "boa sociedade"

"A cidade e a moda" é uma obra indispensável por inúmeros motivos. Primeiro porque é um legítimo exemplo de que a ousadia, hoje em dia tão pouco apreciada pelo mundo acadêmico, pode render pesquisas que primam pelo rigor e pela originalidade - como esta, apresentada como dissertação de mestrado em História Social da Cultura na PUC-Rio. Embora Maria do Carmo esteja amparada em rica base teórica, o que fica claro pela extensa e valiosa revisão bibliográfica que realiza no primeiro capítulo da obra, de modo algum limita-se ao mero comentário ou à acrítica adesão a conceitos deste ou daquele pensador; antes o contrário: se Norbert Elias faz-se particularmente presente na pesquisa, é devidamente tomado como um instrumento, uma referência que é pouco mais que um ponto de partida para a jornada em que consiste o trabalho. Jornada que, diga-se de passagem, é longa: a historiadora analisa jornais, revistas, manuais e teses médicas com desenvoltura, mantendo uma notável disciplina e jamais se afastando de suas hipóteses centrais, o que confere ao livro uma impecável consistência.

Em que consiste essa viagem? "A cidade e a moda" acompanha o nascimento da moda no Rio de Janeiro, mostrando como esta foi, aos poucos, transformando-se em um "emblema de classe", para utilizar a expressão da autora - de modo que a "boa sociedade" viu-se gradualmente obrigada a lançar mão das roupas e acessórios divulgados pela imprensa, já que estes eram uma distinção a ela obrigatoriamente imposta. Através de inúmeros exemplos, Maria do Carmo Rainho mostra como vários discursos logo cercaram a moda - como as teses médicas, que a condenavam como um mundanismo pouco saudável; ou os jornais femininos, que surgiram a partir da década de 1820 e que cuidavam de divulgar as novidades parisienses e de orientar as leitoras em relação às normas e padrões a serem observados.

"A cidade e a moda" é, enfim, uma obra imprescindível para a compreensão da história da moda no Rio de Janeiro do século XIX - e um raro exemplo de coragem e ousadia no mundo acadêmico contemporâneo. Um adendo: a própria economia inerente às dissertações de mestrado faz com que Maria do Carmo Rainho sugira inúmeros novos caminhos de pesquisa, ainda inexplorados. Portanto, se você é estudante de história da moda brasileira em busca de uma inspiração, eis uma obra que pode ser bastante valiosa!

 
 
AVALIAÇÃO:
Livro: "A Cidade e a Moda"
Autor: Maria do Carmo Teixeira Rainho

Editora: UNB
Quanto: R$ 20,00, em média (171 págs.)

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(*) HENRIQUE MARQUES-SAMŸN
é filósofo e ensaísta. Pesquisador acadêmico nas áreas de arte e cultura, tem vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas. Além de escrever para o Moda Almanaque, é colunista do Fotosite (www.fotosite.com.br), onde escreve sobre a estética da fotografia."

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