GLORIA KALIL trabalhou em quase todos os setores de moda. Iniciou sua carreira como produtora de moda, logo depois passou para a área de redação, coordenou a área de marketing e de produtos na indústria têxtil SCALAD'ORO e representou a marca FIORUCCI no Brasil por 17 anos. Atualmente GLORI A atua como jornalista e consultora de moda.

 

 

 Como foi a experiência FIORUCCI (1976/1992)

 

 Foi uma experiência muito importante. Numa época na qual a exportação era proibida (final de 1977), a FIORUCCI foi a primeira marca de grife a entrar no mercado brasileiro. Todas as informações vinham de viagens que eu fazia a Itália e selecionava tudo que pudesse ser usado no Brasil. Absolutamente tudo era refabricado no Brasil. O mais importante é que a FIORUCCI antes de ser a primeira marca de grife a entrar no paísl, foi a primeira ligada ao segmento jovem de jeans e abriu portas para grandes marcas como FORUM e ZOOMP.

 

 Como foi representar essa marca no Brasil?

 

 Um grande sucesso e uma grande experência de indústria. O mercado necessitava de um segmento de moda jovem de grife ligada ao jeans, entretanto, todas as peças tinham que ser fabricadas no Brasil. A FIORUCCI possuía muitos fornecedores por ser uma grande lançadora de produtos industriais para a moda, ou seja, a novidade como os acessórios de plástico, roupas de nylon e uma cartela de cores bem diferenciada fez da FIORUCCI uma inovadora.
Em 1993, lançamos a marca JGK (JORGE/GLORIA KALIL), que ficou por três anos no mercado e, devido a falta de apoio do governo às indústrias nacionais e a forte concorrência do mercado exterior, percebemos que não era o momento ideal de investir em uma nova empresa.

 

 Quais as vantagens e desvantagens que o mercado brasileiro sofre hoje em dia?

 

 A indústria esta sendo extremamente prejudicada com os planos econômicos. Desde 1986 a política resume-se em racionalizar para que não haja inflação. Com a atual política anti-recessiva, consome-se apenas o necessário como proposta de baixar a inflação. Sendo assim o mercado interno brasileiro perde. Mas o comércio ainda encontra saída na exportação. Por sua vez os consumidores que ainda possuem condições econômicas encontram opções de escolha.

 

 Que tal falar um pouco sobre a experiência com SCALAD'ORO.

 

 Permaneci por cinco anos na coordenação de marketing e de produtos, trabalhando diretamente com fios, estamparias e tecidos. Isto me proporcionou um grande conhecimento têxtil para a abertura da marca FIORUCCI no Brasil.

 

 Num país onde as necessidades básicas, como alimentação e educação não são supridas é muito difícil fazer moda?

 Basicamente uma coisa independe da outra. As atividades culturais de um país implicam em todas as áreas: moda, cinema, arte e educação, entre outras.
A construção desta cultura se faz de um conjunto. Todas as variáveis envolvidas fazem parte de um mesmo tecido e a estrutura deste tecido é muito complicada. Você não isola um tipo de situação desta trama, tudo ocorre ao mesmo tempo...não dá pra falar que primeiro temos que cuidar da saúde, depois da educação e depois da moda...

 

 O que você pode nos dizer sobre a questão: "Existe moda brasileira"?

 

 Não acredito em moda brasileira. Não existe moda brasileira, não porque somos um país subdesenvolvido e sim porque não somos um país tradicionalmente produtor de moda. Os países lançadores de moda, são países que cultivaram hábitos desde a época da corte. O que existe no Brasil é regionalismo, trajes típicos como o da baiana e de gaúcho
Existe moda adaptada ao Brasil, com características adaptadas ao clima e ao gosto particular da mulher brasileira.

 

 Na sua opinião que futuro terrá a moda feita no Brasil com a globalização?

 

 As tendências não esperam as suas estações. O que acontece são informações instantâneas e este é o papel da moda, trazer para hoje o que foi ontem.

 

 O que você tem a dizer sobre os novos profissionais que estão se formando na área de moda?

 

 Um setor que está mostrando muito interesse e colaborando com a formação específica da área.
Hoje não temos o estilista em um papel único, mas temos o estilista produtor, diretor, atuando em várias áreas. O papel das escolas de moda é fundamental em um setor que cresce a cada minuto e que finalmente foi reconhecido como uma área de comportamento, fazendo parte do cotidiano, sendo levado a sério. Não mais um assunto fútil de mulher.

 

 Você conhece os sistemas das faculdades de moda?

 

O conhecimento que tenho é através da assistência que presto ao Senac.

 

 Como avalia de um modo geral o trabalho dos novos estilistas?

 

 Temos pessoas muito interessantes que vão dos clássicos aos modernos. Quando digo clássicos são todos os estilistas e confecções que seguem as tendências internacionais de moda. Modernos são os que mais ou menos criam suas próprias tendências. Não do ponto de vista brasileiro até porque todos os modernos seguem um mesmo caminho, a pesquisa de rua e de brechó, eles trabalham a inspiração que o mundo inteiro tira do mesmo lugar. Os clássicos trabalham as tendências dos grandes criadores do pret a porter.

 

 Na entrevista que cedeu a revista VOGUE BRASIL ed. 230 / 1996, você diz que para se tornar um "aqualouco" primeiramente é necessário aprender a nadar muito bem e só então inventar...

 Tudo isso é em função do livro CHIC. Primeiro necessário decifrar os códigos de moda de convivência para apostar.Você deve ter primeiro informações sobre moda para depois criar um estilo. O meu livro é sobre isto: informações básicas de moda. Quanto mais uma pessoa dispor de informações sobre moda e sobre tendêrncias, maior a possibilidade de adquirir um estilo e uma um bom depoimento de moda.

 

 Como definir um estilo proposital?

 

 Estilo é sempre proposital. A pessoa tem estilo quando, dentre as ofertas da moda, escolhe para si o que seja compatível com o seu tipo físico e o mais importante o que ela quer passar, seu depoimento.
Estilo deve ser sempre uma escolha desejada, informada, que combine com o que se quer comunicar. Mas você pode fazer uma escolha proposital e errar.

 

 Quais as diferenças entre moda e estilo?

 

 MODA é uma oferta dos estilistas para um sistema de renovação permanente.
ESTILO é a leitura que você faz da moda.

 

 Por que a escolha de duas mulheres para compor o livro CHIC?

 

 A Pink Wainer, além de ser uma ilustradora, sempre esteve ligada ao universo feminino, além de ser uma grande amiga. A Nana Moraes é uma fotógrafa do Rio de Janeiro, filha de um grande amigo que era fotógrafo da revista Claudia (ed. Abril) onde trabalhei.

 

 Na sua trajetória quais suas referências de moda?

 

 Eu trabalhei em quase todas as áreas da moda, desde a indústria e comércio até produção e redação. Isto me permitiu um bom conhecimento.

 

 Em que você fundamentou suas pesquisas para concluir o livro CHIC?

 

 O SENAC me pediu uma consultoria na área de moda e decoração . A idéia era produzir um vídeo que abordasse as necessidades da mulher na hora de se vestir. Fiz uma pesquisa nas revistas e cartas da Editora Abril para saber quais eram as dificuldades, no entanto o projeto ficou tão longo que houve uma proposta para virar um livro.

 

 Ser CHIC é saber vestir-se bem combinando roupas e acessórios?

 

 Chic é a pessoa que tem um melhor estilo, quem faz um melhor depoimento.

 

 Sua formação acadêmica tem relação com a moda?

 

Não. Eu fiz sociologia e política, tudo que sei aprendi fazendo. Hoje acredito que as pessoas que vão trabalhar nesta área possam ter uma melhor informação neste sentido com a ajuda das faculdades de moda.

 

 Você teve alguma dificuldade em escrever um livro de moda?

 

 Não . A única decisão difícil de ser pensada, digerida e tomada é o fechamento de uma indústria.

 

 Brega é estilo?

 

 Brega é o erro do estilo. Uma pessoa que escolhe de maneira equivocada, ou seja, não uma escolha consciente.

 

 Tem algum trabalho novo em vista?

 

 Estou preparando o lançamento do novo livro que se chamará O HOMEM CHIC.

 

 Uma mensagem para os apaixonados por moda.

 

 Eu entendo perfeitamente que as pessoas sejam apaixonadas por moda. Moda esta ligada a vida, na parte mais delicada e estética da vida, onde se faz um depoimento mais criativo e personalizado, o que se faz você ser reconhecido. Mas devemos tratar a moda com mais firmeza, não cedendo aos seus caprichos. Devemos nos preocupar muito mais com o nosso próprio estilo, mais do que com a moda.