Por Roberto Pires

Veja também: Campanha Perfumada

Sabia que Deus recomendou a Moisés para levar na bagagem, ao sair do Egito, ervas aromáticas para Lhe construir um Altar de Perfumes?

Sabia que a vaidosa Cleópatra recebia seu amado Marco Antonio com um aromático tapete de rosas-do-Oriente?

Sabia que o Chanel Nº 5, ícone da perfumaria, usa como fixador uma secreção natural retirada dos testículos de gatos selvagens indianos?

Pois é, perfume também é cultura. E está na moda, tanto para as mulheres quanto para os homens. Mas esses verdadeiros objetos do desejo não garantem espaço nas prateleiras das lojas sem eficientes estratégias de marketing e ricas campanhas publicitárias. Só no Brasil, os consumidores gastam mais de US$ 100 milhões por ano para se perfumar. Nos Estados Unidos o mercado movimenta US$ 2,3 bilhões, levando a concorrência a lançar cada vez mais produtos e renovar outros já existentes.

Uma boa amostra do poder da publicidade e do marketing no reino dos perfumes está no lançamento do L'Eau d'Issey, do estilista Issey Miyake. Primeiro foram criados o frasco e a campanha, só depois surgiu o perfume. Sua criadora, Chantal Roots, acredita que ninguém precisa de mais um aroma: "A mulher precisa é de uma nova imagem."

Os perfumes do início do século respondiam a uma fantasia pessoal. Nas últimas décadas começaram a aparecer perfumes já pensados para um tipo ideal de pessoa.

Lançado por Calvin Klein em 1994, o CK One teve uma campanha milionária estrelada pela top model Kate Moss, que aparece em fotos ao lado de uma garotada andrógina, reforçando o caráter unissex de um estilo que se afirmava naquele momento. Resultado: o CK One foi um sucesso de vendas, rendeu muitos milhões de dólares à empresa e tornou-se o carro-chefe.

A Maison Dior, em 1980, decidiu criar um perfume para atingir consumidoras tão distintas quanto uma de Dallas, nos Estados Unidos, e outra de Osaka, no Japão. Batizou sua criação de Poison (ou "veneno"), investiu US$ 26 milhões e em apenas 18 meses obteve um retorno de US$ 66 milhões.

 

O COMEÇO DE TUDO

CADA DÉCADA TEM SEU CHEIRO

FRASCOS PARA SONHAR

DICAS

 

 

 
O COMEÇO DE TUDO

A utilização de perfume começa mesmo com os egípcios. Eles utilizavam preparados aromáticos na oferenda aos deuses. A comunicação com o além se concretiza pelo uso de essências aromáticas e especiarias na forma de incensos e pastilhas redondas. O embalsamento dos mortos foi a segunda função dessas preciosas substâncias.

Em seguida os egípcios passam aos primeiros óleos corporais, adotados pela vaidosa Cleópatra, que também costumava perfumar as velas de suas embarcações, receber o amado Marco Antonio com tapete de rosas-do-Oriente, além de tomar banhos com leite de cabra para embelezar a pele.

Os romanos mandavam seus pedidos aos deuses através de fumaças odorizadas, as "per fumum", que deram origem ao nome perfume. E utilizavam preparados aromáticos nos cabelos, nos cães e até para perfumar os ambientes onde faziam refeições. Os árabes, mestres no comércio de especiarias, contribuiram muito para a difusão do perfume.

No Ocidente, durante a Idade Média, os padres consideravam o uso do perfume um grande pecado, pois segundo eles exaltava o lado sensual e profano do corpo.

A primeira composição ocidental foi a "Eau de Hongrie", no século XIV. E a perfumaria tornou-se uma atividade industrial no século XVI. No século seguinte houve uma difusão sem limites do perfume, usado principalmente na higiene pessoal. No fim do século XVIII nascem as primeiras maison de perfumaria, como a Houbigant.

No século XIX o romantismo leva ao sucesso as fragrâncias florais de Guerlain, Bourjois e outros. Nesta mesma época, as essências sintéticas começam a ser fabricadas a partir das conquistas da química orgânica moderna.

 

 

 
CADA DÉCADA TEM SEU CHEIRO

O casamento entre moda e perfumaria teve início no final do século XIX, quando Guerlain assinou um perfume. Porém foi o Chanel Nº 5 o primeiro a trabalhar bem a publicidade; acabou tornando-se um mito.

A Maison Guerlain, com mais de 250 perfumes criados por vários membros da família, é responsável por duas obras-primas da perfumaria francesa: Mitsouko, de 1919, e Shalimar, de 1925, cuja composição relembra os aromas do Oriente, a base de benjoim, patchuli, incenso e opopânace.

Shalimar foi um marco nos loucos anos 20, ao lado do Chanel Nº 5. Criado em 1921, o Nº 5 (o próprio nome já era uma ousadia para a época) foi o primeiro perfume lançado por um criador de moda e não por um perfumista. Logo tornou-se clássica essa mistura de rosa de maio, jasmim de Grasse, muguet, aubépine e junquilho, potencializada pela utilização de aldeídos. Coco Chanel costumava dizer que "uma mulher que não se perfuma não tem futuro", tomando para si a frase cunhada pelo amigo poeta Paul Valéry.

Outra obra-prima dos perfumes desta época foi Arpège, de Jeanne Lanvin, criado em 1927: uma mistura de rosa-da-Bulgária, jasmim-de-Grasse, muguet selvagem, camélia e jacinto-azul.

Nos anos 30 foi criado o perfume que até hoje é considerado o mais caro da indústria francesa pelas proporções que usa de jasmim-de-Grasse e de rosas-da-Bulgária: o Joy, de Jean Patou, que em sua composição ainda exige muguet e ylang-ylang. O frasco foi desenhado em cristal Baccarat.

L'Air du Temps, de Nina Ricci (1948), e Miss Dior (1947), de Christian Dior, correspondem à euforia do pós-guerra.

L'Air du Temps, até hoje um dos perfumes mais vendidos em todo o mundo, tem sua composição estudada pelos alunos de perfumaria como um clássico de arquitetura floral. Trata-se de uma mistura de gardênias, sândalo, jasmim, ylang-ylang, cravo e rosa.

Na década de 50 os perfumes americanos fazem frente aos franceses, a partir de lançamentos como Youth-Dew, de Estée Lauder, em 1953. A década de 60 traz os aromas de patchuli e almíscar.

Nos anos 70 explode a indústria do perfume. A nova independência da mulher é traduzida por florais verdes como Charlie, da Revlon, enquanto a onda "disco" elege Halston, do estilista das celebridades, e Opium, de Yves Saint Laurent. As fragrâncias dos anos 80 refletem a problemática e o psiquismo de uma geração agressiva, ousada, sexy. Exemplos: Poison, de Dior, e Paris, de Saint Laurent.

Na década de 90 as fragrâncias mais sutis ganham espaço, com flores exóticas aliadas a notas frutais. Enquanto mais e mais perfumes são lançados, as mulheres se voltam também para os clássicos. Família e compromisso são os valores atuais, assim como a consciência ambiental. É ainda o momento da Aromacologia, com as fragrâncias aromaterápicas de efeito relaxante e anti-stress, além dos perfumes sem álcool, a exemplo do infantil Petits et Mamans, de Bulgari.

Vale destacar ainda Relaxing Fragrance, da Shiseido, uma mistura oriental de ervas como ginseng, flores como rosa-chá e especiarias como cardamomo. Outra novidade é a linha de tratamento para o corpo e o espírito lançada por Kenzo, que inclui o Thé de Beauté - um chá relaxante e revitalizante -, gel de banho e hidratante.

 

 

 
FRASCOS PARA SONHAR

Se o perfume é o prolongamento da personalidade de quem usa, o frasco representa um convite ao deleite visual e tátil. Em forma de folha, de gota, de espiral, de estrela ou de corpo feminino, os frascos de perfume são verdadeiros tesouros da imaginação, cheios de criatividade, beleza e arte.

É por isso que não compramos apenas um perfume, mas "um frasco de perfume".

As formas desses preciosos "porta-jóias" são, no decorrer da história, de uma infinita variedade graças à maleabilidade do vidro e às diversas técnicas de fabricação. Obras-primas de alguns dos maiores criadores, considerados autênticos "gênios da garrafa". Do inesquecível René Lalique ao moderno Fabien Baron, passando pelos competentes Pierre Dinand e Serge Mansau.

Exímio fabricante de jóias, o francês René Lalique teve no vidro sua grande fascinação, explorando ao máximo esse material ao qual seu nome ficou ligado para sempre. Ele já desenhava e esculpia no vidro luminárias, vasos, taças e objetos de mesa, quando em 1907 conheceu Robert Coty, da famosa marca de cosméticos e perfumes, que encarregou o artesão de projetar o frasco perfeito para conquistar definitivamente as mulheres. Uma parceria intensa que resultou em diversas obras-de-arte, como "L'Effleurt", "Ambre Antique" e "Cyclamen".

A partir daí, a maison Lalique criou frascos de perfume para griffes como Worth ("Dans la Nuit", de 1920, por exemplo) e Nina Ricci ("L'Air du Temps", de 1947; "Capricci", de 1961; "Farouche", de 1974).

René Lalique teve dois filhos: Suzanne, que se dedicou ao design cênico, trabalhando com a Comédie Française, e Marc, que até 1977 esteve à frente da empresa desenhando belos frascos. Hoje quem comanda a Lalique France é Marie-Claude (também uma excelente designer), da terceira geração da família.

O designer francês Fabien Baron vive em Nova York há quase duas décadas. Aos 38 anos, dirige a agência de design e publicidade que leva o seu nome, Baron & Baron, e também atua como diretor artístico da conceituada revista de moda Harper's Bazaar. É muito respeitado por seu estilo contemporâneo, moderno e provocante. Tanto que em 1994 recebeu o Prêmio Especial da Influência nas Artes, concedido pelo CFDA - Council os Fashion Designers of America.

No currículo de Fabien Baron constam os desenhos de frascos que ele fez para o CK One, de Calvin Klein, e para os perfumes de Jean-Paul Gaultier e Issey Miyake. Além do Poême, o mais recente lançamento da Lancôme. Segundo Baron, "o frasco de Poême é um prisma que transfigura a luz como a poesia transfigura a realidade." Ele diz ainda que "quando as pessoas compram um perfume, levam para casa mais que um simples frasco."

Com 67 anos, o também francês Pierre Dinand figura entre os grandes designers. Foi ele o criador de inúmeros frascos para a Tiffany, assim como do perfume Opium, de Yves Saint Laurent, AV, de Adrienne Vittadini, e de 400 outras fragrâncias, como Eternity e Obsession, ambas de Calvin Klein.

O frasco que ele desenhou para o perfume feminino Armani teve inspiração nas linhas arquitetônicas italianas da Villa Rotunda, projetada por Andrea Palladio. Atual designer da empresa Parfums Créatifs, desenvolveu os frascos dos perfumes C'est Moi, Perle Noire e Casbah, comercializados pela Avon. Dinand considera o frasco "a casa em que vive uma fragrância".

 

 

 
DICAS

Não experimente mais que três perfumes quando for comprar. Você corre o risco de acabar confundindo o seu olfato e sair com o perfume errado.

Perfume "certo" é aquele que combina com a sua pele. Lembre-se que ele está relacionado à raça e ao metabolismo de cada pessoa. Portanto, atenção na escolha

Procure não se perfumar quando for se expor ao sol. Sua pele pode acabar manchada por causa da fotossensibilidade.

Não existem perfumes específicos para cada estação. Use mais no inverno e menos no verão.

Segundo a aromaterapia, o perfume da Rosa estimula a mulher para o amor. Alecrim aguça o carisma masculino.

 

*Roberto Pires, jornalista e pesquisador, é autor do curso "Perfume: Histórias e Mitos" e da exposição de frascos de perfume "Frascos de Sonho".