por Roberto Pires

A FAVOR DOS CRIADORES

NA ROTA DA GLOBALIZAÇÃO

O QUE ELES DISSERAM:

Criada em 1958 numa iniciativa pioneira e arrojada do empresário Caio de Alcântara Machado, a Fenit completou em junho quatro décadas de atividades em torno da moda brasileira, sempre afinada com as tendências internacionais.

Dr. Caio, como costuma ser tratado o criador do evento, é quem conta o início dessa história recheada de panos, linhas e botões. "Em 1957, os industriais não confiavam na idéia, diziam que eu estava louco. Mas eu respondia: 'Não vamos desanimar, um dia dá jacaré'. No dia da inauguração da feira um amigo me levou justamente um jacaré de presente". A partir daí todos passaram a presenteá-lo com o animal - em ouro, prata, areia -, dando início à extensa coleção que o acompanha até hoje. A coincidência continuou no próprio endereço da empresa, o número 60 da rua Brasílio Machado, em São Paulo. Sinal de sorte, 60 é jacaré no jogo do bicho. "Eu nem sabia disso", conclui Dr. Caio.

E lá se vão 40 anos... Para comemorar a data, a Feira Internacional da Indústria Têxtil apresentou no Anhembi uma programação especial, entre os dias 23 e 26 de junho, desfrutada pelos 70 mil visitantes. Desfiles nacionais e internacionais, exposições e conferências sobre o passado, o presente e o futuro da moda, além de um concurso para estilistas brasileiros vestirem a boneca Susi e seu namorado Beto. Sairam vencedores a Nem Confecções e Mário Queiroz, respectivamente.

 

 
A FAVOR DOS CRIADORES

 

Em clima de aniversário a Fenit patrocinou e exibiu, em sessões ininterruptas, o filme "Uma História da Moda (1850-2000)", escrito pela francesa Florence Muller com consultoria de Didier Grumbach e realização de Bernard Jannin. Segundo a autora, a maior dificuldade foi ter que condensar em 52 minutos um grande volume de arquivos apaixonantes. Propositadamente, não há conclusão em Uma História da Moda. "É muito difícil falar de uma época que você está vivendo. Hoje existem milhares de direções", diz Florence Muller, acrescentando que o filme tem uma mensagem de esperança. "Ele é a favor dos criadores".

O hype da Fenit foram os sete estilistas internacionais da nova geração européia que vieram mostrar suas criações originais e de excelente acabamento. Daniel Jasiak, Marc Le Bihan, Gilles Rossier, Isabelle Ballu, Abe Hamilton, Xuly Bët e Veronique Leroy fazem parte do grupo Créateurs de Passions, que reúne 22 jovens talentos. Junto com eles veio Michiko Koshino, uma estilista japonesa que vive em Londres. Preferida dos clubbers, ela mistura alta costura à moda de rua. Suas criações vestem grupos de música como Prodigy e Spice Girls.

Enquanto os convidados estrangeiros mostraram suas coleções de inverno, os novos criadores nacionais levaram à passarela suas propostas para o verão 98/99, com muito corpo à mostra.

 
NA ROTA DA GLOBALIZAÇÃO

 

Quem pouco conhecia a história da Fenit teve uma ótima oportunidade de aprofundar seu conhecimento ao visitar a exposição retrospectiva montada na feira. Dos tecidos naturais ao avanço dos sintéticos; dos desfiles-shows criados pelo publicitário Lívio Rangan, com a participação de artistas como Gal Costa e Raul Cortez, às presenças de grandes costureiros como Dener, Guy Laroche, Ted Lapidus e Courrèges, que em 1961 desfilou a primeira minissaia no Brasil.

Neste final de milênio a Feira Internacional da Indústria Têxtil entra no ritmo da globalização e já é rota obrigatória entre os eventos profissionais de moda. "A cada ano a feira se renova, talvez este seja um dos segredos de seu sucesso", explica Vivi Haydu, diretora da Fenit. "Ela coloca o Brasil no cenário mundial", conclui.

 
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O QUE ELES DISSERAM:

 

  • "No Brasil as pessoas não têm vergonha dos seus corpos, mesmo que não sejam perfeitos. O jeito natural de querer mostrá-los é que os torna bonitos. Não é uma questão de personalidade, mas de presença".
    Florence Muller, autora do filme Uma História da Moda.

 

  • "O Brasil me lembra Istambul, pela arquitetura e pelo olhar das pessoas. Elas têm um ar feliz, contente. Todos são muito profissionais, há respeito".
    Daniel Jasiak, estilista.

 

  • "O Brasil é inacreditável, as pessoas são gentis, aqui tudo é possível".

    Marc Le Bihan, estilista.