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Fazer o que a televisão faz hoje, em
escala cósmica, era um trabalho quase
impossível para um desenhista só,
mesmo numa revista que, à época,
significava para o Brasil o que a TV Globo, por
exemplo, significa nos tempos de agora. Mesmo
porque, a mensagem impressa não tem nem a
velocidade nem o impacto da mensagem
eletrônica. O que aumerta os méritos
da obra de Alceu Penna como ilustrador e
figurinista.
Suas meninas de olhos expressivos, de gestos
delicados e cheios de graça, de cinturas
finas, de longos cabelos e de saias rodadas, cujo
tecido era informado com duas ou três
pinceladas - a gente sabia se era seda ou
algodão - eram tão fortes que, me
parece, os leitores conviviam com elas como se
convive com um ser vivo: ninguém fica
perguntando quem é o pai da criança.
Elas tinham vida própria, e tanta que
Alceu desaparecia por trás delas. De resto,
Alceu Penna era um homem calmo e retraído,
doce e sereno, doméstico, não gostava
de aparecer. E, muito cedo, tão logo o
sucesso da revista O Cruzeiro começou a se
esvanecer, ele foi sendo esquecido.
Uma injustiça que não se pode
atribuir a ninguém. Há coisas que
acontecem na vida e, com todos os dados ao nosso
alcance para explicá-las, corremos o risco
de chegar a uma falsa dedução.
Simplesmente: aconteceu assim.
Alceu me encantava. Seu trabalho, sua
técnica, sua sofisticação, a
incrível facilidade com que ele desenhava,
me encantavam.
Aqui está a primeira
exposição de seu trabalho, depois de
sua morte. Acredito que seja a primeira
exposição dos tarbalhos desde que ele
começou (não me lembro de outra - eu
disse - ele era retraído e desenhava como
quem respira: por pura necessidade vital). Dava-nos
sempre a impressão de que o que fazia
não era muito importante, nem para ele nem
para ninguém.
Puro jeito de ser. Ele, no fundo, sabia que era
um garnde artista, um dos maiores de toda a
História da imprensa brasileira.
Acho urgente que esta sua
exposição percorra o Brasil inteiro.
Nada disso de querer que sua memória seja
reverenciada. Ele iria achar de extremo mau gosto,
não é por aí. O que importa
é que os primeiros netinhos das Garotas do
Alceu conheçam o desenho do moço que
ensinou vovó a ser a adolescente mais doce
deste século."
(texto
escrito por Ziraldo, para o catálogo da
exposição As garotas do Alceu,
realizada em julho de 1983 - Palácio das
Artes /Belo Horizonte)
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