O consumo e o novo luxo

Entrevista Gilles Lipovestky
Por Diana Galvão*

O Moda Brasil, em entrevista exclusiva, traz Gilles Lipovetsky, autor dos cultuados livros "O Império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas e "A terceira mulher" - ambos versam sobre comportamento, cultura e consumo. A entrevista foi realizada na época em que o filósofo francês, professor na Universidade de Grenoble, esteve no Rio de Janeiro para evento organizado pelo Senac-RJ "O luxo de cada dia", em outubrode 2002. Dividida em três blocos, aborda o funcionamento da moda no contemporâneo, o conceito de novo luxo e o futuro (próximo) do consumo de moda. Confira a seguir e depois reflita !

Moda Brasil - Assistimos há várias estações da Moda a idéia de "retromania", a nostalgia dos anos setenta continua e o estilo hippie foi revisitado inúmeras vezes interpretado com elementos contemporâneos. O senhor acredita que isso deva-se ao desejo de apegar-se ao passado, por ser este um território seguro
(devido aos nossos conhecimentos sobre ele), uma vez que o futuro acena como algo extremamente ameaçador ? Comente.

Gilles Lipovestky - Há várias coisas a dizer. A Moda como sistema que rege o vestir e ornamentação do corpo é um jogo fenomenal com lógicas próprias, ao qual as roupas, acessórios, jóias e maquiagem são os instrumentos desta articulação. É um jogo lúdico e camuflado que muda incessantemente para continuar existindo, atraindo deste modo novos jogadores ( consumidores) que desejam vencer o jogo, onde o prêmio é saber utilizá-lo a seu favor. Não devemos analisar a Moda através de revival, de nostalgia. Os jovens, que são os grandes jogadores da Moda, não viveram ( e pouco conhecem sobre) os anos setenta e podemos afirmar que também não estão preocupados com o futuro; a intenção da Moda não é reproduzir o estilo de uma época, mesmo que utilizando elementos contemporâneos. As mudanças são incessantes e se caracterizam nos detalhes, especialmente. A Moda atual (múltipla) muda de fato nos detalhes, pois já vimos de tudo, não há o que se inventar em termos de forma. A calça jeans é um bom exemplo desse jogo, a forma é a mesma desde seu surgimento, porém detalhes e texturas mudaram no decorrer dos tempos. Há algumas estações, o cós desceu e os jovens desejam continuar a jogar deste modo ... a Moda é ambígua, ela cria algumas regras próprias que rapidamente serão sobrepostas, assim como profere outras regidas pelo comportamento contemporâneo de consumo referentes aos valores socioculturais, objetivos e subjetivos, que nos circundam.

Moda Brasil - Desde os anos 80, as mega marcas investem fortemente em imagem. Chegamos a 2002 e vemos os agentes de moda globalizada venderem imagens e não produtos; e nós ficamos absolutamente fascinados. Afinal, o ser humano é seduzido por significados. O senhor compartilha do pensamento que, hoje, a imagem é mais importante que o produto ?

Gilles Lipovetsky - Sim e não. Como não estamos vivendo um momento de criatividade, as imagens são construídas no intuito de se tornarem super valorizadas. Nesta questão, um elemento não funciona sem o outro, é preciso uma fusão astuta para vencer o jogo da Moda. O produto tem de trazer uma mensagem e um ambiente, porém precisa ser qualificado e voltado para o consumidor, que se identifica com o protagonista da imagem exibida. É necessário vender o significado da imagem ao sujeito. Por mais direto ou elaborado que seja o discurso da imagem, não se pode dispensar a qualidade do produto e preço justo. Calvin Klein, Donna Karan e Zara representam o sucesso de agentes globalizados. Um ótimo exemplo é a rede Zara, que se apropria das idéias de grandes estilistas internacionais e as coloca no varejo a preços "possíveis". Como a rede compra em grande quantidade, por ser distribuidora e fornecedora ao mesmo tempo, oferece qualidade e preço; suas mega lojas apresentam imagens diretas. Exatamente o que é apresentado no material imagético de cada nova coleção é encontrado nos cabides e prateleiras da loja, que contém toda a grade de cores e numeração - o "self-service da subjetividade". Outras imagens vinculadas em super campanhas publicitárias são mais ousadas, chegam a incomodar alguns, recebem críticas, mas, se chocam hoje, não mais o farão amanhã. Penso que, no momento, assistimos a uma calmaria imagética na Moda em sua semiótica, já vimos em décadas anteriores contextos mais provocadores. A dicotomia da imagem é a forte característica da Moda atual.

Moda Brasil - Certos conceitos mudaram para esta primavera-verão 2002/2003 (Brasil), onde entram em pauta as idéias de romantismo, ingenuidade, inocência e suavidade. A partir de 11 de setembro, passou a ser cobrado aos criadores internacionais que também "vestissem a realidade", que entregassem às consumidoras uma roupa prática e essencial. De fato, estamos passando por uma sociedade em transformação, um momento difícil e delicado da moda, no qual uma nova cartilha se estabelece, sob o calor das dificuldades de trabalho e escassez de dinheiro. Sendo assim, o império do efêmero corre o risco de se estremecer ou isso não irá acontecer ?

Gilles Liovestky - Eu não compartilho dessa idéia, do ufanismo americano. O acontecimento inflacionou a Moda, porém o império do efêmero não se estremeceu. Os estilistas das mega marcas internacionais são extremamente audaciosos e a Moda precisa e irá continuar a jogar o seu próprio jogo, aconteça o que acontecer no mundo, de certo a Moda saberá reinventar-se, criando ou quebrando alguns pilares que regem o seu funcionamento (paradoxal), conforme o fluxo dos acontecimentos socioculturais; ainda não é possível prever com muita precisão estes fluxos.

Moda Brasil - A moda produz informação incessante 24 horas por dia, inseparavelmente o melhor e o pior. Penso que cabe aos profissionais reagir e combater os mitos (muitos) que levam a Moda a um grau zero de pensamento. Podemos claramente afirmar que o universo da sedução contribui para a dinâmica da razão e da criação. A Moda é, de fato, o tempo todo, acompanhada de efeitos ambíguos. Porém, a astúcia da "falta de razão" da Moda não exclui a livre iniciativa e inteligência do sujeito. O senhor concorda que a Moda é um ato social, típico das sociedades modernas, sendo assim ela, a Moda, é também uma das chaves para a democracia ?

Gilles Lipovestky - Esta responsabilidade cabe somente aos intelectuais e professores acadêmicos do universo da Moda. Não é uma tarefa dos personagens da moda (industriais, estilistas, fotógrafos, diretores de arte, publicitários, produtores e de alguns veículos da imprensa), esses personagens fazem o jogo de entrelaçamentos e novos vetores da Moda funcionarem e se expandirem no contemporâneo de modo esplêndido, e cada vez com maior diversificação. A idéia que confirma a democracia traz o direito à livre expressão, o sujeito se identifica com o que é próprio à sua existência, ou que pensa ser próprio. A chave da democracia responsável está na educação de qualidade para todos, deste modo estará formando o sistema de comunicação de Moda com significados inteligentes a serem compreendidos e absorvidos por um maior número de pessoas.

Moda Brasil - Estou convencida de que agora o moderno é ser real. As pessoas (nos movimentos de rua) clamam por uma vida real - trabalho digno, educação, justiça social e saúde. O coletivo está cansado de enganações e deduções, entediado de ver coisas parecidas. Talvez possamos caminhar para a união pacífica entre o emocional e o racional, sendo assim precisamos de pessoas reais, comidas reais, experiências reais e roupas reais. Neste sentido, os padrões antigos estão mudando. Será o trabalho o novo luxo ?

Gilles Lipovestky - Sim, concordo, o trabalho é o novo luxo. Porém, as noções de trabalho se modificam nesta nova sociedade, especialmente marcada pela idéia de aceleração de tempo e novas tecnologias, inclusive na ciência, veremos uma nova situação. Há aqueles que irão trabalhar com prazer, assistiremos à junção de atividades profissionais e satisfação, os que adoram as idéias e projetos que realizam; do outro lado, a casta de pessoas que dificilmente irá ascender socialmente e culturalmente através do trabalho. O pensar fará toda a diferença no mundo onde irá imperar o sistema tecnológico e digital em quase todos os âmbitos da sociedade, um sistema veloz e implacável. As máquinas irão substituir (operar) múltiplas atividades que não exigem a articulação de pensamento. Portanto, as idéias e o saber com propriedade serão extremamente valorizados, serão um luxo.

Moda Brasil - A tecnologia caminha de mãos dadas com o desejo de identidade (unicidade) do consumidor, buscando a criatividade. A volta ao primitivo ao artesanal é uma reação contra o comércio da produção em massa e a falta de criatividade gerada pela moda globalizada. No universo artesanal, tudo pode ser criado, quase não há limites ou barreiras. Portanto, é o artesanal o novo luxo ?

Gilles Lipovestky - Depende do que consideramos artesanal. O artesanato da grife Louis Vuitton, por exemplo, não é o artesanato em si, é um artesanato prêt-à-porter de luxo, ou seja, industrializado com requinte, apresentado em edição limitada na última estação. De fato, o artesanato ganhou um novo significado e passou a ser valorizado, a receber um tratamento de luxo; o que é feito-à-mão e não de modo automatizado recebe uma maior atenção, um novo olhar, por extensão, um novo preço.

Moda Brasil - Atualmente, consumimos incessantemente, exercendo nossa atividade primária como consumidores. Sendo assim, no futuro próximo do varejo, o homem (sujeito) será a grande estrela. Assistimos, hoje, invenções tecnológicas como provadores com três variações de luz ( manhã, tarde e noite), que já se apresentam como uma realidade absorvida. Os novos materiais em vitrines e interiores enfatizam a super iluminação. Seguindo esta lógica, a loja Prada Universe, em NY, propõe em suas cabides um raio-X completo da peça que o cliente está experimentando. Em vez de espelho, o consumidor se vê numa imagem em vídeo, em tamanho natural. No futuro, o ato da compra estará se expandindo, levando com ele informações sobre o comportamento do ser humano. O senhor acredita que o ato da compra irá se tornar uma nova experiência no contexto da vida urbana ?

Gilles Lipovestky - No futuro breve, o sujeito terá novas experiências, viajará com facilidade para diversos lugares, inclusive longínquos, conhecendo assim novos produtos e culturas, além de possuir fácil acesso aos diversos tipos de informação. O ato de consumir precisará estar ligado ao prazer, distante de qualquer possível sentimento de culpa, o produto Moda precisará ser o que proclama, sem pretensas enganações ou deduções. Portanto, um sofisticado jogo de luz; imagens estimulantes, exibindo o próprio consumidor e a tridimensionalidade do corpo humano (vídeo); a diversificação de produtos em um mesmo ambiente (loja), com arquitetura ampla e inovadora; cheiros e imagens estratégicas e formas automatizadas e elaboradas de pagamento irão proporcionar ao ato da compra um novo sentido. O ato de consumir será também uma experiência excitante, será uma diversão, ganhará novos significados.

Diana Galvão é subeditora do Moda Brasil.