Marúzia Fernandez abre o jogo

 

Por Henriette Mirrione*

Fotos: Sílvia Boriello/Olympus Digital

A estilista cearense Marúzia Fernandes lançou na última edição da Semana de Moda - Casa de Criadores sua primeira coleção de moda feminina, mas, seu envolvimento com criação vem de muito antes. Começou a chamar a atenção ainda na faculdade, criando tecidos diferenciados. Seu trabalho como produtora e editora de moda e fotografia a ajudou a treinar o olhar para perceber as necessidades e o desejo da mulher da nossa era. Moda Brasil lhes convida para conhecer um pouco mais sobre seu trabalho. Confira!

Moda Brasil: Você é estilista e editora de moda e fotografia da Revista Crescer, entretanto, seu trabalho como criadora começou a partir do momento que você passou a desenvolver novos tecidos. Comente um pouco esse processo de criação.
Marúzia Fernandes: Durante meu período de faculdade no Senac Esmod, eu trabalhava o dia inteiro e não tinha tempo de fazer pesquisa e fazer meus trabalhos. Então, eu acabava usando o 'lixo' que sobrava da sala, quer dizer,no final da noite, as meninas da classe picotavam os tecidos que traziam para aula e deixavam lá. Aí eu recolhia o que elas tinham deixado e fazia o meu trabalho em cima dos retalhos, criando os tecidos, que era justamente o dossiê de tecidos. Daí eu fiz o tecido, apresentei para a escola e eles se empolgaram, mandaram para Paris e lá houve muitos elogios da central da Esmod em Paris, com direito a 'bilhetinhos'. Então, eu comecei a curtir essa história, comecei a praticar, mas sem a obrigação de dossiê para a escola.

MB: Você criou um tear para realizar esse trabalho?
MF: É, eu o chamo de Aranha. Eu não me limito à técnica de tecelões, eu vou colocando fio para tudo quanto é lado, estico de um jeito e de outro. Se eu preciso inventar um fio eu pego uma haste de ventilador e prego ali, ponho esta haste para funcionar e ele está torcendo esse fio. Enfim, uso maneiras inusitadas.

MB: E quando você começou a expor esses tecidos?
MF: Na verdade, foi na própria Esmod. Foram realizadas algumas exposições com trabalhos de alunos, que chamaram atenção, as pessoas perguntavam, até que, de boca em boca, acabou chegando ao ouvido da Elisa Stecca e ela então pediu para ver meus trabalhos, viu um tecido que eu tinha feito e pediu para eu desenvolver para um desfile dela, que foi para a primeira semana de moda. A Alice Capela me dava também restos de fios para me ajudar na escola e um dia ela pediu para ver o dossiê de inverno que eu tinha feito. Quando eu apresentei para ela, ela se encantou, me encomendou uma coleção com a minha técnica, não fiz nenhuma adaptação. Depois sim que eu comecei a ver que o que eu fazia de um jeito, poderia repassar isso para uma escala mais industrial. Então aí foi um quebra-cabeça de infiltrar essa técnica num tear normal, sem tirar a cara do tecido, deixando-o mais parecido possível com o que eu fazia.

MB: Foi com essa técnica mais industrial que você apresentou uma exposição
dentro da semana de moda há dois anos?
MF: Isso, mas não me lembro muito bem o ano. Eles viram meus tecidos, na época o André Hidalgo, organizador da Semana de Moda e a Vivi Haydu, da Alcântara Machado, que era patrocinadora do evento, selecionaram três estilistas, e eu tenho uma forma muito minha de apresentar as minhas propostas em bonecos gigantes da Susy Gallere isso chamou super atenção pela apresentação. O chão eu fiz de micropedrinhas de aquário coloridas,
fazendo uma das minhas estampas, que eram estampas de neurônios. Aí eu já comecei a trabalhar com células, eu copie um neurônio e transformei em células.

MB: Hoje a estamparia está muito forte no seu trabalho, mais forte do que
quando você começou a desenvolver os tecido, não é verdade?
MF: Está forte porque, na verdade, assim a gente tem uma infinidade de tecidos maravilhosos, nacionais, importados. Mas eu nunca gostei muito das estampas e agora eu comecei a me preocupar mais com elas e eu sinto que da mesma forma com que o mercado de criação, enquanto estilistas, teve que mudar porque a receita não deu mais certo, a mesma coisa está acontecendo com as indústrias têxteis, porque do mesmo jeito que os estilistas, até pouco tempo atrás, iam até Paris para copiar o que estava sendo feito lá e botavam na vitrine, agora não pode mais, porque o cara que ele copiou é seu vizinho de rua, de loja, e às vezes, num preço bem mais acessível que o nacional. A mesma coisa está acontecendo com a indústria têxtil. Não funciona mais, já está começando a dar errado a receita, de mandar uma "estilista" como eles chamam, porque na verdade elas vão lá, entopem uma mala de tecidos, voltam, pegam uma conta fio, vem com a estrutura, enfiam na máquina e fazem igual, não estava funcionado, aí começaram as primeiras parcerias, no máximo um ano, dois anos atrás, começaram as primeiras parcerias entre estilistas e tecelagens, desenvolvendo alguma coisa direcionada, diferenciada.

MB: Já que nós estamos falando de parcerias, como veio essa parceira com a Santana, uma empresa cearense, da tua região, região essa que tem toda uma cultura e cuidado com os trabalhos manuais. Foi uma coincidência muito grande?
MF: Na verdade, no caso da Santana Têxtil, foi a única empresa que me deu oportunidade, que me deixou entrar numa indústria têxtil e se prontificou a parar um tear, me deixou o tear à disposição junto com os funcionários. Isso é uma demanda de grana, quer dizer eles acreditaram, na verdade a proposta da Santana é essa, uma proposta super inovadora, que tem uma cabeça voltada para o futuro e eles me deram essa oportunidade. Eu adoraria ter mais oportunidades porque eu sou apaixonada por tecido, mas existe ainda essa resistência dos empresários em achar que vão perder, daí eles chegam na produção e fazem o cálculo de quanto o tear rende por minuto. Eles não querem parar para fazer uma perfumaria, mas o que eles não entendem é que eles vão começar a se destacar pela perfumaria.

MB: Na sua última coleção você trabalhou com essa história da mulher árvore. Na sua criação existem trabalhos manuais muito fortes, e eu sinto que o seu trabalho está calcado muito em cima de um 'ecodesign'. Isto faz parte da sua essência criadora?
MF: Eu acho que isso está na essência de todo o mundo, porque isso é uma necessidade da humanidade. Eu comecei a reparar as pessoas demonstrando o desejo de sair do concreto, ir para uma praia, um sítio, montanha. Na verdade, o que eu estou sentindo há bastante tempo é que falta alguma coisa nas pessoas, elas estão tentando se apegar ao que podem, algumas vão para a igreja, algumas viram fanáticas, outras piram mesmo, tem muita gente aí com síndrome do pânico. Então tudo está relacionado ao emocional, todas nossas doenças, nossas carência, os problemas mais fortes.

MB: Você trouxe essa história para moda por que é uma preocupação?
MF: É uma necessidade que as pessoas estão sentindo, e essa coisa da necessidade com a natureza de onde vem tudo, de onde vem a nossa energia, nossos alimentos, nosso remédio, tudo vem de lá, e é lá que está a solução.

MB: E no caso da estamparia da última coleção que você usou a célula do arroz. Como você desenvolveu essa pesquisa e chegou ao resultado final?
MF: É justamente porque a minha pesquisa é diferente, eu não vou atrás de uma tendência, eu não tenho uma revista de moda em casa, porque não dá para você fazer uma viagem para Paris, para os centros lançadores de moda, para Londres, para Nova Iorque e não se influenciar. Você vê coisas lindas e acaba desejando. Eu acho que criação é uma questão de desejo. Então ou evito tudo isso, é lógico que eu não vou ficar alienada, mas em época que eu estou me concentrando para fazer uma coleção, não desce nenhum santo, ou sou uma pessoa absolutamente simples. Eu começo a ficar atenta a tudo que me cerca, ao jeito que as pessoas estão se mexendo o que está acontecendo na economia, o que vai afetar o emocional de cada um, quais são os desejos dessas mulheres, que eu não tenho uma única mulher definida, e aí eu tenho uma semana para fazer a tal da coleção, e vou anotando tudo que me chama a atenção, não é o comprimento da saia mais sim o que as pessoas falam, o que eu escuto, às vezes o que eu leio no jornal. Eu junto todas essas informações e assim eu entrei nessa mulher árvore porque a coisa está muito de dentro para fora, das pessoas também e seria muito óbvio e banal fazer uma estampa de flores, de frutos. Daí eu fui para dentro e acabei usando a tal da silhueta, que é uma coisa que me influencia muito, técnica de alta costura que eu tenho paixão e que eu acho que falta muito isso, é a construção da peça, que hoje em dia eu acho que está sendo muito esquecido. Então você usar o tecido no viés é uma forma nobre e difícil, que existe técnica para você construir uma roupa e se você olhar um vestido meu, ele tem a silhueta de uma árvore, em cima mais estreita e ela vai aumentando para raízes e continuando o raciocínio, é uma coisa meio lógica, os acabamentos queimados em pontas que vão ser raízes.

MB: Esse trabalho dos queimados na roupa, apesar de ser uma roupa frágil e delicada, tem uma força no visual. Como você desenvolveu isto? É totalmente manual?
MF: Eu desenvolvi um tipo de ferro que queima.

MB: E dependendo do tecido isso estica, encolhe?
MF: Todo o meu trabalho é em cima de laboratório. Antes de começar alguma coisa eu fico dias picando, colando, queimando, tingindo, fico brincando literalmente. São peças muito trabalhosas, por isso o desfile e o conceito mulher árvore estão junto com tudo, a coisa de queimar no desfile estava muito claro, tinha imagens de queimadasde florestas, eu não consigo desvincular as coisas do que está acontecendo hoje em dia. Então tem essa coisa de alerta. As queimadas que estão acontecendo, as pessoas não tem o mínimo de cuidado de jogar um cigarro, não estão nem aí, deixam o fogo tomar conta, é um alerta. Eu tenho uma característica de protesto sempre, não sou revoltada, mas estou sempre alertando, isso que está acontecendo, a mesma coisa foi com a campanha da doação de órgãos (apoiada pela estilista durante desfile apresentado na última semana de moda). É impressionante a quantidade
de crianças que morrem esperando um órgão, mas como não é do nosso mundo, não acordamos, tomamos café ou convivemos com uma criança que está precisando de um órgão, não faz parte do nosso dia a dia, ficamos
completamente alienados a isso.

MB: Conte-me um pouco sobre o conceito do desfile, de como foi trabalhar com Jackson Araújo e da preocupação cênica da apresentação.
MF: Na verdade eu quis, eu consigo pensar na coleção como um todo, ela acontecendo num desfile. Então, eu sentei com o Jackson e disse: "Eu quero uma mulher árvore, eu quero que as pessoas entrem numa floresta", mas não ia sair colocando árvore por todo quanto era lugar. Aí eu pensei em usar os sentidos, o cheiro de terra molhada. Assim desenvolvemos uma essência feita do pau rosa. Eu joguei isso no ar, depois com luzes demos a sensação de vaga-lumes e aí minha mulher árvore apareceu. Eu sempre trabalho com os sentidos, eu preciso levar as pessoas paradentro deste mundo que eu quero mostrar.

MB: Nos próximos desfiles você vai dar continuidade a esse trabalho?
MF: Com certeza, no meu inverno as pessoas vão estar no meio da minha história muito fortemente.

MB: Como está sua estrutura em termos de empresa Marúzia Fernandes? E sua distribuição, com está funcionando?
MF: Na verdade, eu não tinha intenção de nada, eu nunca tenho intenção de nada, as coisas aconteceram, eu não tenho experiência de venda, de dizer 'Ah! Essa peça vai vender um monte'. Não, eu fiz tudo que eu tinha vontade e apresentei e, quando começaram as vendas e peguei os pedidos, fiquei completamente assustada pelo volume e pelo desejo, eu vi que realmente as pessoas estão querendo uma coisa diferente, e alguma coisa diferente não
quer dizer alguma coisa 'vanguarda', que a gola começa do pé entra pelo ombro e vai parar não sei aonde. Não, elas estão querendo alguma coisa que as deixem mais bonitas, justamente porque eu acho que as mulheres estão muito confusas, tem um monte de coisas que influencia isso, essa postura de que elas têm que trabalhar e trabalhar, está havendo a troca do marido com a mulher, ela vira o homem que tem que assumir a casa e, de uma certa forma, ela perde essa feminilidade. Então, eu senti uma necessidade de fazer uma roupa que deixasse essa mulher frágil, feminina, em momento algum vulgar, eu acho que está dando certo esta receita, elas gostam, eu estou vendendo super bem.
MB: Quanto é super bem para você? MF: Umas quinhentas peças. Eu nunca imaginei vender isso, é muito grande pra mim, é minha primeira coleção e consegui abrir onze pontos de venda, inclusive a Pangea. Então, é muita coisa.

MB: Quando você só estava desenvolvendo os tecidos, você fez contatos internacionais. E agora, você pensa também em fazer contatos internacionais com a coleção ou você quer esperar até criar uma estrutura maior?
MF: Estes contatos não foram encerrados, mas eu não quero agora, porque eu não tenho nenhuma ambição, nenhuma vaidade de sair no jornal e dizer 'estou vendendo para Paris', ou para Pindamonhangaba, tanto faz. O importante é que eu tenha a estrutura, não adianta eu vender e não ter o que entregar, ou vender umas peças superbem feitas e entregá-las no overlock, não é minha intenção. Meus passos são lentos e firmes, não tenho pressa.

MB: E agora, o projeto é aumentar os pontos de vendas, se preparar para a próxima coleção?
MF: Não, na verdade estão acontecendo várias coisas ao mesmo tempo. Eu já comecei a fazer alguns desenhos do inverno, estou com cinco propostas de eventos e são coisas importantes que eu não posso deixar passar. Mas eu sou uma pessoa que tem que ter tudo sobre o meu controle par ficar tranqüila, na verdade, eu acho que eu tenho primeiro que me estruturar para aceitar mais compromissos.

MB: E quanto a este momento que o mercado de moda está vivendo, os eventos crescendo, vide Semana de Moda, MorumbiFashion, as escolas de moda jogando novos estilistas no mercado todo ano. Você acha que o mercado está preparado para absorver tudo isto?
MF: Eu acho que as pessoas, não estou criticando, nem quero direcionar está crítica para nenhuma faculdade de moda, mas eu acho que os alunos saem ainda muito despreparados para a prática, porque quando eles saem da faculdade eles passam um período perdidos sem saber o que fazem. Se eles não tiverem uma oportunidade ainda dentro da faculdade fica difícil. Mesmo assim, acho que ainda falta muita técnica de costura, porque eles não ensinam na faculdade, que é a grande diferença, para você fazer qualquer coisa precisa ter a técnica, precisa saber como cortar e porque tem aquela pensa ali e aprender na prática é muito mais difícil, aprender a desenhar só não é o suficiente. Eu acho que isto está faltando bastante, porque agora fazer moda virou moda, e não é bem assim, fazer moda é uma coisa muito séria, pelo menos pra mim.

 

Henriette Mirrione - é jornalista de moda em São Paulo