Era difícil ser uma viúva bem comportada no período chamado de belle époque - reflexo do ocorrido na Inglaterra e França desde 1890. O terceiro ato, intitulado "O Oráculo", se passa em 1907, uma época de extrema riqueza e beleza da elite no Brasil. O presidente Rodrigues Alves acabara de realizar uma obra de saneamento e reurbanização da cidade do Rio de Janeiro e esta ganhou nova aparência e nova vida, se tornando uma das maiores, mais importantes e mais bonitas cidades do mundo.

O Brasil vivia um daqueles momentos de euforia. Todo o seu progresso vinha sendo conseguido com o dinheiro fácil dos empréstimos no exterior. A capital foi transformada em modelo. O país podia contar, afinal, com um modesto desenvolvimento industrial, com tecelagens e indústrias de bens de consumo, tudo para venda no mercado interno. O futuro da indústria era promissor, pelos incentivos oficiais que recebia e pela chegada de imigrantes que vinham reforçar a mão-de-obra nas cidades.

A terceira viúva é uma aristocrata rica. Nela, já se vêem os primeiros traços de feminismo. Neste ato ocorre todo um jogo de sedução no qual percebe-se que o homem dessa época preferia mulheres mais maduras, frias e dominadoras. E a moda, como sempre, era um reflexo da época. Vestidos luxuosíssimos eram confeccionados.

Vestidos de cetim bordados segundo motivos florais, pintados à mão, com laços, passarinhos e plumas nos chapéus eram comuns nesta fase considerada como a "última diversão das classes altas". Mas, para o figurino de uma viúva, Lola deveria se conter. Mesmo se tratando de Helena, uma viúva que não era recente, já que mantinha relações com o advogado Nelson há três anos.

Para a realização deste figurino, Lola Tolentino garimpou vestidos por brechós e o resultado final foi uma miscelânea de pedaços de cinco vestidos, fora o blazer vinho, que foi adaptado e transformado em bolero. A procura dos vestidos foi inspirada na escolha do tecido: a zibelina. Os tecidos preferidos nesta fase eram crepe da China, chifom, musseline de seda e tule, mas a zibelina foi escolhida por ser um tecido que não amarrota e tem bom caimento. Lola encontrou zibelina fosca, listrada, de vários tipos. O laço que compôs a parte traseira da saia foi feito com um dos vestidos. Sobras de outro vestido foram plissadas e colocadas como babados no bolero.

O criado do advogado, José Tralhota, é o próprio exemplo do figurino que se adapta à criação do ator. Não foge do estilo da época, mas foi um pouco estilizado , já que a criação do ator, com um estilo abusado, pedia licença e exigia um pouco de colorido. A calça seria preta com cinza, e o "dolmanzinho" todo da mesma cor, mas Lola ousou a combinação preto e vermelho. A roupa foi feita de uma forma que não limitasse seus movimentos, pois o ator necessita de liberdade. Dessa forma, a roupa se tornou uma segunda pele não só para o personagem, mas também para o ator que está criando para a alma que ali nasce.

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