As cores da moda entre 1921 - 1930

Por Patrícia Douat*

A Primeira Guerra Mundial devastou o mundo da moda. Artistas como Paul Poiret e Jean Patou foram convocados e seus ateliês acabaram fechando. Neste meio tempo, começaram a surgir novos nomes e a moda, devido à situação, passou a ser dominada por mulheres como Madeleine Vionnet e a jovem Gabrielle "Coco"Chanel. A vida simplificou-se, os vestidos extravagantes e coloridos de Poiret e seus asseclas passaram a serem considerados inapropriados para a situação vigente. Um espírito mais sóbrio, mesmo retrógrado, passou a prevalecer na sociedade de um modo geral. A moda de Chanel, ainda que cara, passava a assumir uma posição vital na conjuntura atual. Seus modelos confeccionados em tecidos baratos, como o jersey, até então usado em roupas de baixo, ajustavam-se na medida a nova postura social, sendo ao mesmo tempo modernos e clássicos.

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Quando os estilistas, como Poiret, voltaram no final da Guerra, descobriram que o mundo não era mais o mesmo e que seu tempo já havia passado. Muitos dos aristocratas franceses e ingleses haviam morrido nas batalhas. A inflação e, por fim, a depressão haviam consumido muitas das grandes fortunas européias e americanas.

O papel da mulher também mudou durante os anos de guerra. Com os maridos, pais e irmão longe, nos campos de batalha, as mulheres saíram à luta, por assim dizer. A moda praticamente desapareceu, tornando se totalmente focada em roupas práticas, uniformes e estilos condizentes com a situação. No final da guerra as mulheres tornavam-se relutantes em voltar a assumir sues papéis de bonecas reprodutoras e passaram a adotar uma postura mais batalhadora em favor de uma maior liberdade social. Ironicamente, os anos de horrores fomentados pela guerra foram responsáveis pelas maiores avanços na área dos cosméticos e cirurgia plástica. A consciência de que a vida era curta e frágil acabou quebrando barreiras sociais que antes eram intransponíveis.

Surgiu a mulher "flapper": vestidos curtos, cabelos ondulados, nada de espartilhos e as meias enroladas na canela. As "flappers" foram as primeiras mulheres a popularizar o fumar em público, as verdadeiras "punks" da época, as famosas "melindrosas".

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Em Novembro de 1922 outra grande bomba caiu sobre a sociedade. A maior descoberta arqueológica de todos os tempos. Um tesouro inimaginável, antes apenas cogitado e agora uma realidade fascinante. Harold Carter descobria o tumulo de Tutancâmon, o único túmulo intacto na história da arqueologia egípcia. Seus tesouros em ouro e pedras preciosas tornaram-se a coqueluche da sociedade e o mundo das artes e da moda apossou-se avidamente desta nova tendência. Junto com a Art Nouveau, os estilos asteca e egípcio passaram se mesclar criando o movimento das Arts Decoratifs de Paris de 1925 ou Art Deco.

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Tudo se modificava. Mulheres dirigiam seus próprios carros; a luz era elétrica, clara e forte e não mais suavizava as feições; o rádio era um must; a vida ao ar livre e os esportes faziam parte do dia a dia da sociedade. A pele bronzeada e saudável substituía a palidez etérea dos anos anteriores. Helena Rubenstein passou a fabricar pós e batons. Usava-se menos maquiagem nos anos 20 do que nos anos 30, pois a moda estava androgenizada.

Os cabelos antes longos e encaracolados, durante os anos de guerra tornaram-se mais curtos por razões práticas. A coloração com Henna era popular e muito mais segura que a coloração química da época. Pouco a pouco os cabelos foram assumindo cortes cada vez mais radicais. Primeiro à altura do queixo; logo a seguir na altura da boca e, posteriormente, na altura das orelhas, em um corte bem masculino. Um verdadeiro escândalo.

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Com estes cortes surgiu uma moda de chapéus bem específica: Os chapéus cloche. Especialmente criados para acompanhar os cabelos curtos, estes não podiam ser usados sobre coques pois se ajustavam completamente à cabeça, impossibilitando a existência de volumes sob os mesmos. Os chapéus cloche possuíam abas que cobriam os olhos, obrigando as mulheres a assumirem uma postura empinada, com o queixo levantado, para poderem enxergar, mostrar a testa era completamente démodé nos anos 20. Era mais do que uma moda em chapéus, era uma afirmação. Dizia que a mulher era moderna, fashion e, portanto, usava cabelos curtos.

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Conforme a década ia passando, a maquiagem foi ficando cada vez mais acentuada. Fazia parte da performance fashion se maquiar em público. Nada de se esconder nos banheiros para passar batom ou pó. Batom na cor vermelho sangue e pó compacto eram usados generosamente, já o blush dava apenas um toque leve nas faces e não era parte do arsenal básico de beleza. Os porta-batons e porta-pós eram trabalhados e bastante sofisticados, assim como as cigarreiras, umas verdadeiras obras de arte.

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É impossível falar de moda no início do século XX sem falar da House of Worth. Fundada em 1858, por Charles Frederick Worth, dominou o cenário da moda por quase 100 anos. Worth foi o primeiro estilista da história e era considerado o Papa da moda. É importante compreender o que a moda significava para as mulheres de dinheiro com grandes aspirações sociais. Para garantir um bom casamento para suas filhas as matronas da sociedade desenvolviam cuidadosos planos de batalha. Era considerado mais simples apresentar uma filha para a corte do que apresentá-la para Worth e, talvez, menos importante. Quando Charles Frederick morreu, em 1895, o mundo ficou em suspenso, receando o fim de uma era. A revista Bazar comentou que nenhum nome do mundo contemporâneo francês era mais conhecido que Worth. "Nenhum poeta, pintor, escultor, ator ou novelista nas ultimas três décadas adquiriu fama tão difundida como este costureiro da Rue de la Paix." Mas Charles foi substituído, com sucesso, por seus filhos Jean Philipe e Gaston. Após a guerra as mulheres, principalmente as jovens, não se conformaram em retomar uma moda formal e restritiva. A House of Worth continuou sua tradição de suntuosidade, vestindo a desfalcada nobreza européia nas, cada vez mais raras, ocasiões formais até acabar por desaparecer, silenciosamente, do cenário da moda.

As roupas evoluíam de maneira a dar mais liberdade às mulheres. Os modelos tubulares de Poiret modificavam-se em uma moda mais casual, com saias mais curtas, pregueadas, amarradas ou fendidas, tornando o movimento mais livre. No que diz respeito às cores, diz a lenda que Chanel estava sentada em seu camarote, no teatro, observando as mulheres vestidas com os modelos coloridos de Poiret, quando comentou com seu companheiro: "Isto não pode continuar. Eu vou vesti-las todas em preto!" Verdade ou mito, o fato é que o caminho seguido pela arte desde 1906 havia acostumado o público com o abstrato. O cubismo havia sido incorporado pela sociedade, com suas cores sóbrias: preto, branco, cinza com leves toques em beije para dar profundidade. Madeleine Vionnet estava causando uma verdadeira revolução, em 1921, com seus modelos cujo ponto focal era o corte simples e elegante. A visão de modernidade de Vionnet, com respeito a moda, baseava-se na "simetria dinâmica", um sistema que derivava das proporções clássicas e da análise geométrica do Parthenon. A silhueta de Vionnet, corpo cilíndrico e cabeça ovóide configurada por cabelos curtos e chapéus cloches, formavam a base de geometria de Picasso, Léger, Duchamp-Villon e outras artistas da década de 20.

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Quando a Exposition des Artes Decoratifs et Industriels Modernes aconteceu, em 1925, em vez de lançar uma nova tendência, apenas confirmou o caminho já tomado pelas artes e seguido pela moda. As mais curtas saias da década, logo abaixo do joelho. Saias pregueadas em gomos circulares partindo dos quadris. Suéteres com listras horizontais e longos colares. Os vestidos de noite são coloridos com elaborados bordados, desenhos futuristas, contas e franjas e muitos apliques. Nascia o traje de cocktail. A maquiagem era assimétrica, com bocas em forma de coração, cabelos rebeldes, meias enroladas e ruge nos joelhos. As mulheres são melindrosas, cheias de atitude, muitas quase nuas por sob as roupas folgadas.

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Nos anos 20, Coco Chanel tornou-se a epítome da moda. Perto de seus modelos os outros estilistas tornavam-se antiquados e démodé. Chanel promovia a essência do estilo Flappers. Trabalhava com cores neutras como bege, areia, creme, marinho e preto. Foi a criadora do LBD ou Little Black Dress - o vestidinho preto tão famoso ainda hoje. Quando Chanel surgiu no mundo da moda em 1914 seus modelos eram ridicularizados por suas linhas simples, de elegância sutil e tecido barato, o jersey, que era usado em roupas de baixo. Diziam que o look Chanel era a glamorização da pobreza. Seus acessórios básicos consistiam em fileiras de pérolas e correntes douradas, bolsas acolchoadas com alças de correntes douradas, sapatos baixos na cor marfim com bicos pretos e muitas gardênias. Praticamente tudo dentro das cores da Art Deco: preto e branco.

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Art Deco, com seu colorido vívido e árido suas formas geométricas, dominou o mundo da arquitetura e a moda dos anos 20 e 30. Tudo passou a ser geométrico e cúbico. Sua forma sinuosa era a epítome da sofisticação. Sua paleta de cores ia do cromo e azul cobalto ao branco, cristal e negro. Esta paleta traduzia se no uso de materiais como o rubi, ouro, pérolas, plástico, baquelita, cromo, aço, platina, coral, jade, ônix e lápis-lazúli. As influencias étnicas eram fortes: o Egito dos faraós, o oriente, a África tribal, o Cubismo, a era das máquinas o Futurismo e o desenho gráfico. Suas formas eram geométricas: círculos, retângulos, arcos, triângulos, quadrados etc. Suas estilistas mais importantes eram Coco Chanel e Elsa Schiaparelli.

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Por volta de 1926, o sucesso de Chanel como estilista era tanto que foi convidada a assinar um modelo de carro da Ford Motor Company. Paul Poiret, que havia sido destronado por Chanel comentou: "O que Chanel inventou é miserabilismo de alta classe.... no passado as mulheres eram arquitetadas e bonitas, como a proa dos navios. Agora elas parecem operadoras de telégrafo subnutridas." Em 1931, Samuel Goldwin contratou Chanel, por US$1.000.000,00, para vestir suas estrelas, entre elas Grace Kelly, Elizabeth Taylor e Katherine Hepburn entre outras. Não durou muito. Em 1938, com a possibilidade de uma nova guerra despontando no horizonte e com o despontar da estrela da estilista italiana Elsa Schiaparelli no horizonte da moda, Coco Chanel resolveu se retirar do cenário fashion.

Em 1929, as possibilidades da fotografia ainda estavam despontando, portanto a maioria das revistas usava ilustradores como Reynaldo Luza, Charles Martin Salvador Dali e Rex Whistler entre outros. Umas poucas fotografias eram usadas, mas acreditava-se que desenhos ofereciam muito mais detalhes. Foi neste ano que a National Magazine Company decidiu importar para a Europa uma revista americana: Harper's Bazaar. Neste mesmo ano aconteceu a grande queda da bolsa americana, tornando pouco propício o sucesso de uma revista que lidava com o supra-sumo da moda, destilando dinheiro, apostando no que havia de mais caro e chique. Mas para a surpresa de muitos, seu público alvo, o créme de la créme da sociedade, passou relativamente intocado pela era turbulenta, e a revista se tornou um ícone de escapismo para todas as classes sociais.

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Quando do final da Primeira Guerra Mundial surge a necessidade de uma dissociação com a imagem de frivolidade; o patriotismo estava no auge. Isto criou o momento ideal para o surgimento da bijuteria como o acessório fashion mais importante da década. A nova mulher, casual e esportiva, não mais se adequava à formalidade das pedras preciosas. Por volta de 1927, o estilo casual e bronzeado de Chanel ditava as regras. Estilistas importantes como Jean Patou, Madeleine Vionnet e Lucien Lelong seguiam suas regras sem questionamento. Foi Chanel que fez das jóias adornadas com cristal e gemas sintéticas uma declaração social. Com a elegante mistura de pedras preciosas reais e sintéticas criou a moda do uso de vários e grandes braceletes adornados com pedras coloridas, anéis e longos brincos.

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O negro e o branco eram as cores predominantes. Os modelos eram trabalhados em cima das texturas em tecidos como o cetim, sedas, crepes e tafetás. A cor era dada com apliques e bordados, em dourado, prateado, púrpura, vermelho ou rosa, sempre acompanhados das faixas de cabeça, no mesmo tom, que encobriam a testa. O curioso é que apesar das cores externas serem, de certa forma, discretas, as cores usadas para roupas de baixo possuía uma paleta rica de tons pastéis e ácidos, como o verde maçã, amarelo claro, etc.

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Patrícia Douat é estudiosa da psicodinâmica das cores.