|
Antropologia, Moda e Consumo *Por Lígia Krás As sociedades já foram analisadas sob diversos pontos de vista. Como pensam, como morrem, como matam, como comem, como se comportam, como se relacionam e agora, cada vez mais, como consomem. As relações dos indivíduos com os objetos, que foi profundamente tratada por Mary Douglas e Baron Isherwood nos anos 70 em seu excelente livro “O Mundo dos Bens” é cada vez mais objeto de estudo da antropologia. Lançado em julho passado, o livro “Antropologia & Consumo: Diálogos entre Brasil e Argentina” organizado pelas antropólogas Débora Krischke Leitão, Rosana Pinheiro Machado e Diana Nogueira de Oliveira Lima, especialistas em consumo, o livro é resultado do Simpósio “Consumo e Construção de Sujeitos e Bens no Mundo Contemporâneo” , realizado em Rosário, Argentina em 2005 e reúne artigos de antropólogos estudiosos do consumo do Brasil e Argentina. São 11 artigos abordando cultura brasileira, cidadania, saúde, classe social e identidade, todos em relação direta com o consumo. No entanto, é o primeiro artigo “O Luxo do povo e o povo do Luxo: consumo e valor em diferentes esferas sociais no Brasil” escrito por Débora e Rosana que nos traz uma reflexão sobre moda e consumo no Brasil. Nesse artigo a pirataria da cultuada bolsa Louis Vuitton e a moda inspirada na cultura popular brasileira são usados para ilustrar a circulação dos bens entre as camadas sociais. Símbolo de status e poder, a Louis Vuitton conheceu o outro lado da fama e do sucesso ao ter sua bolsa mais famosa pirateada massivamente, pois segundo as autoras, só os objetos de sucesso e em voga são alvos da pirataria.Vendidas em camelódromos por um preço bem inferior a uma LV original, a bolsa se popularizou.Ocorre nesse fenômeno o que é definido de um movimento de cima para baixo, quando um bem de consumo até então restrito a uma elite, rompe a fronteira de classe e se populariza. Em contrapartida, outro fenômeno ocorre no Brasil. A emergência do popular nas coleções da alta moda brasileira: “A tentativa brasileira de firmar-se nesse campo, essencialmente moderno , internacional e globalizado, acontece, de forma aparentemente paradoxal, numa presença quase hiperbólica de símbolos de Brasil e brasilidades. O Brasil evocado nas coleções de moda, divulgadas nacional e internacionalmente, e nos discursos produzidos sobre elas, é principalmente um Brasil definido como tradicional, popular e singular , pendendo freqüentemente para a exotização da cultura nacional”. Aqui é analisado o movimento oposto, o de baixo para cima, quando a elite se apropria do popular. Mas é importante observar que, se por um lado essa valorização da cultura local por produtores, estilistas e organizadores dos eventos de moda no Brasil é positiva no sentido de criar uma moda brasileira menos inspirada nos modelos internacionais, por outro mostra a complexidade do fenômeno na medida em que esse Brasil com cara de Brasil torna-se o exótico dentro da própria cultura. É interessante observar como os valores são atribuídos aos objetos. Como uma bolsa Louis Vuitton verdadeira pode não ter legitimidade nenhuma se for usada por uma desempregada em um baile funk no morro e como uma Louis Vuitton falsa é legítima se for usada por uma socialite no Copacabana Palace. Ou, no sentido inverso, a apropriação de objetos do povo por mulheres de classe social média alta. Uma mulher abre seu guarda roupa para uma revista de moda, e lá tem Chanel, Dior, Gucci, Daslu e de repente ela mostra uma pulseirinha artesanal, de coco comprada por um preço muito baixo. Mas faz questão de dizer que comprou em Trancoso (porque ela não é do povo) e exalta aquilo como exótico, ela não usa porque quer fazer parte do povo, mas porque aquilo é do povo, do Brasil, e o povo para ela é algo exótico, a comida do povo, a música do povo, tudo muito bom, muito exótico, ”mas não me confunda, eu não sou do povo”. Sempre vestida de preto, apaixonada por perucas, gatos e livros, Débora Krischke Leitão é uma das antropólogas que estuda o consumo na Sociedade Contemporânea. Aos 27 anos, Débora está concluindo o Doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre , sobre moda brasileira e representações de nação e brasilidades sendo pesquisadora associada ao grupo de História da Moda do Institut d'Histoire du Temps Présent, em Paris, França, onde estudou nos últimos 10 meses e foi aluna de nomes de peso como Michel Pastoreau, autor do livro “O Pano do Diabo” e da Historiadora Dominique Veillon, autora de “Moda & Guerra – Um retrato da França ocupada”. Precoce, a antropóloga já desenvolveu pesquisas sobre os significados contemporâneos da tatuagem, padrões de beleza, consumo, vestuário e estilos de vida. De volta ao Brasil, em julho, Débora publicou seu primeiro livro e conversou com o Moda Brasil sobre suas experiências estudando a moda através da Antropologia. MB-Fale sobre o livro...
MB - Como se dá a relação da Antropologia com a moda e consumo? Em primeiro lugar é preciso voltar a uma tecla já bastante batida. Os estudos sobre consumo, sobre comunicação, e ainda mais sobre moda, são freqüentemente vistos com alguma desconfiança por parte das Ciências Sociais. Sempre muito preocupadas com a esfera da produção, essas disciplinas muitas vezes deixam de lado o mundo do consumo, como já disse um dos nossos “heróis fundadores”, Marshall Sahlins. Isso é fato, ainda que seja também uma realidade que aos poucos se transforma. A transformação existe porque há um movimento no qual os pesquisadores passam a se interessar por essas temáticas. Ele é visível no número de livros sobre esses assuntos que vão sendo traduzidos e publicados no Brasil, nos congressos e outros tipos de eventos que passam a se dedicar à temática, e até mesmo no florescimento de trabalhos de conclusão, dissertações e teses produzidas no país que versam sobre essas questões. Mas mesmo havendo tal movimento ainda são freqüentes os preconceitos que vemos no meio acadêmico, rotulando as pesquisas nessa área como por demais lúdicas e pouco sérias ou relevantes. Por outro lado, embora a apropriação da moda e do vestuário como objeto de estudo seja nova, ela apenas o é na medida em que se propõe a estudá-los em nossas sociedades contemporâneas, urbanas e ocidentais. O que quero dizer é que essa preocupação não está afastada de uma linha clássica da Antropologia que se volta para o estudo da cultura material das ditas “sociedades tradicionais” como meio para compreendê-las. O estudo da relação entre pessoas e objetos, e entre pessoas e pessoas mediada pelos objetos, é uma tradição de nossa disciplina. Um herdeiro dessa linha, interessado no estudo da cultura material das sociedades contemporâneas, é o antropólogo britânico Daniel Miller, cujas obras recomendo fortemente para qualquer interessado em aprofundar-se no assunto. Além disso, acredito que esse movimento que descrevi seja duplo, acontecendo em duas direções. A Antropologia se abre para a possibilidade de enamorar-se dessas novas temáticas e, ao mesmo tempo, esses setores também se interessam pela Antropologia. Da mesma forma que a moda se revela um objeto riquíssimo de estudo para nós, antropólogos, também temos a oferecer, com nossos trabalhos, material interessante para o próprio campo da moda. Não é sem razão que hoje em dia, nos cursos de Moda e nos cursos de Comunicação, as aulas de Antropologia e de Sociologia são introduzidas. Não tenho dúvidas de que essas disciplinas sejam, por excelência, estimulantes e energizantes para o pensamento crítico. Elas não só fornecem ferramentas para pensar sobre a sociedade (o que, por si só, já é fundamental), como possibilitam que os profissionais dessas áreas reflitam sobre seu próprio campo. MB - É correto dizer que existe Antropologia da Moda? Sim e não. Por um lado, acho complicada a setorização, por vezes exagerada, que fazemos dentro das áreas de conhecimento. Já hesito um bocado em falar em Antropologia do Consumo, e por isso mesmo nosso livro recebeu o título de Antropologia e Consumo. O que estamos fazendo é, antes de tudo, Antropologia, mesmo que nosso objeto de estudo seja consumo, ou, no meu caso, moda. Ao mesmo tempo, como são áreas novas, com pesquisas inovadoras, é preciso algumas vezes delimitar (ainda que com todo o cuidado do mundo) nossos campos, para criar espaços mais específicos de diálogo. Prefiro dizer que faço uma Antropologia que tem como objeto de estudo a moda e o vestuário. É um pouco diferente, por exemplo, de quando se fala em uma História da Moda. Quando tomamos a moda e o vestuário como objeto de estudo da Antropologia tentamos através dela compreender, mais do que a moda em si, as relações sociais, as identidades e o imaginário de nossa sociedade. MB-O Brasil é visto como exótico pelo brasileiro? Em alguma medida sim. Acredito que essa exotização do Brasil dentro da moda brasileira voltada para o mercado interno se dê sobretudo no que diz respeito a apropriação de uma “cultura popular” brasileira pela alta moda e consumo de luxo. Falo em exotismo porque não percebo essa apropriação acontecendo pela via do “compartilhado”, do “fazer parte”, e sim pela percepção do popular como outro distanciado. O exotismo é uma das formas mais freqüentes de relação com o outro. Ao contrário de outras formas que conferem ao outro valor negativo, como o racismo e o etnocentrismo, o exotismo positiva o outro, mas continua configurando-se enquanto relação de alteridade. Tal afirmação parece paradoxal, a primeira vista, em um país como o nosso, onde os discursos sobre convívio harmonioso de diversidades imperam. Como sabemos, entretanto, essa harmonia, ainda que fundante de nosso imaginário, da forma como pensamos sobre nós mesmos, raramente se aplica a realidade do país, atravessada por desigualdades sociais e econômicas MB - E na França, como ocorre a percepção da moda brasileira? -Na mesma medida em que o povo é o exótico do Brasil, o Brasil pode ser o exótico da França. Somos um outro bastante positivado, ao menos no que diz respeito a nossa produção cultural, artística e de moda. E a estratégia de divulgar o país pelo caminho do exotismo funciona muito bem. Estivemos plenamente de acordo com o “air du temps” do cenário internacional, que confere valor ao artesanal, a moda étnica e a moda ética, social e ecologicamente correta. Percebo, entretanto, um movimento ambivalente nessa divulgação do país lá fora, uma tensão entre tradição e modernidade presente em elementos situados como opostos, como indústria versus artesanato e natureza versus tecnologia. Embora seja clara a vontade de mostrarmo-nos como país moderno, com grande potencial tecnológico, na maioria das vezes acabamos sendo situados no pólo oposto. Esse processo faz com que tenhamos maior visibilidade, mas, por outro lado, pode ser perigoso porque pode nos conceder brilho efêmero. Vale lembrar que a mesma grande loja de departamentos parisiense que em 2005 festejava a exótica moda brasileira, em 2006 comemora, exatamente nos mesmos moldes, a “instintiva” moda do continente africano. Serviço: Antropologia & Consumo: diálogos entre Brasil e Argentina Lígia Krás é Antropóloga formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e correspondente do Moda Brasil
|