Moda na mesa de conferências

por Cristiane Mesquita*

Folder do IFFTI com imagens londrinas mais o prédio do London College, no alto, à direita.

Todo mundo já sabe que não se entende de moda olhando somente as passarelas e devorando a sensibilidade dos grandes criadores... Sequer mastigando o que é veiculado pela mídia... E já faz muito tempo que as ruas são fontes de pesquisa. Cultura, música e arte então, nem se fala.... Mas é fato mais recente e ainda visto com desconfiança pelos mais conservadores, que este campo profissional ganhe, cada vez mais, espaço na academia. Ponto para todas as costuras, que promovem a moda assim como ela deve ser vista: assunto tão sério quanto glamouroso.

Sendo assim, nada mais justo que isso aconteça em âmbito internacional e de forma abrangente. E o IFFTI - rede que congrega instituições dedicadas ao avanço da educação em design, tecnologia e negócios de moda - se consolida, a cada ano, neste sentido. O primeiro encontro aconteceu na Índia, em 1998. No ano passado, a anfitriã foi a Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo. Neste ano, a terceira conferência se realizou em Londres, sediada pelo London College of Fashion, entre 07 e 10 de novembro.

Com o título Fashion Directions : Visioning the Future, o London College promoveu um evento de excelente qualidade, reunindo delegações das 21 escolas participantes (incluindo países como Austrália, Grécia, Holanda, Noruega, França, China, entre tantos outros), interessadas trocar experiências e avançar no intercâmbio entre educadores, pesquisadores, estudantes e profissionais de moda de diversas áreas

O primeiro e último dias foram dedicados às discussões internas e workshops educacionais e contaram com a apresentação do site do IFFTI, por Carmem Maia, diretora de Desenvolvimento Tecnológico da UAM. O site pretende ser o espaço de comunicação entre os participantes, assim como um banco de dados que reunirá informações de moda sobre cada uma das escolas, designers e empresas dos países envolvidos.

Na quarta feira, um big painel de discussões sobre tendências de moda, comportamento e consumo foi coordenado por Martin Raymond, nada mais, nada menos do que o editor da Viewpoint, uma das revistas mais sérias e conceituadas em termos de pesquisa, verdadeira "bíblia" de antenados. A mesa contou com a participação de nomes como Hilary Alexander, editora de moda do Daily Telegraph, Barbara Kennington, diretora de criação do site de pesquisa WGSN, Eric Musgrave, da Drapers Record e Marie Christine Viannay, pesquisadora de tendências e analista de comportamento, que garante: "para pesquisar moda eu leio livros de antropologia, psicologia, sociologia e não vejo quase nada das passarelas".

E ela não foi a única a colocar o quanto a forma de abordar tendências tem outra cara no século XXI. Globalização e internacionalização da moda (linkar com o LL "Alta moda de rua") foram características mais do que repetidas por palestrantes de todas as áreas: "tudo está nas ruas, tudo está feito, a criação tem de seguir caminhos muito diferentes de idéias como 'agora me inspirei na África', ou 'estou fazendo os anos 60' e coisas assim...", completou o muito bem humorado Tonny Glenville, comentarista de moda internacional. Ele apareceu todo vestido de brechó e fez questão de deixar isso claro, quando chamou atenção para a questão "marcas versus preços" e como o consumidor tem se posicionado nesta batalha.

Parte do traje The final home, desenhado por Kosuke Tsumura. Verdadeiro guia de sobrevivência.

Outras palavras-chave da conferência foram:
- Internet , é claro... Tecnologia para a educação, recursos digitais, cyber design, desfiles virtuais... E muito, muito mais nesta direção;
- Rapidez, velocidade em todos os sentidos... Mas, principalmente, na circulação de informações e de mercadorias;
- E-commerce ou o estrondoso aumento do comércio pela rede e desenvolvimento de estratégias para a moda;
- A idéia de "sociedade 24 horas", abrangendo, obviamente, as concepções contemporâneas de tempo, espaço e trabalho;
- A idéia de personalização de atendimento, adentrando o consumo de massa;
- O desafio de unir criatividade, técnica, marketing e comercialização nas equipes de trabalho (Martin Raymond acha que toda equipe de design deve ter um pesquisador teórico envolvido...)
- Desenvolvimento de posturas éticas, em todos os sentidos;

Bolsa-estola da Vexed Generation: funcionalidade ornamental.
E a mesa de conferências não parou por aí. No penúltimo dia, reuniu pesquisadores de diversas áreas como novas tecnologias, cultura, imagem, comportamento do consumidor, desenvolvimento têxtil e educação. As apresentações em plenário e os grupos de discussão mantiveram e reforçaram muitas das idéias apresentadas na quarta feira, consolidando toda uma rede de informações bastante consistente.

Não foi por acaso que o desfile de encerramento - reunindo escolas inglesas como a De Montfort University, a Nottingham Trent University e o próprio London College of Fashion - teve muito menos espectadores que as palestras... Como imagem do encontro, a exposição The supermodern wardrobe (que está na galeria do LFC até 05/12) é muito mais forte para expressar o que aconteceu ali, em termos de troca de conhecimento: explora caminhos para trajes urbanos, femininos e masculinos, em 30 criações assinadas por gente como Hussein Chalayan, Patrick Cox e Issey Miyake. Trabalhando conceitos como proteção, mobilidade e múltipla funcionalidade, outros nomes menos conhecidos do grande público, como Kosuke Tsumura e Vexed Generation transformam filosofia e realidade em roupa. O refuge wear de Lucy Orta, mais a jaqueta desenvolvida em parceria pela Philips e a Levi's são puros retratos sociais contemporâneos.

Jaqueta Philips/Levi's que incorpora tecnologia. Ao fundo o refuge wear de Lucy Orta: roupa para se virar em qualquer lugar.
A exposição organizada pelo London College em parceria com o Victoria and Albert Museum é a própria cara do que o 3º IFFTI deixa como mensagem: enxergar o futuro é trabalhar conceito em roupas e acessórios com os olhos bem abertos para ver o que as pessoas estão lendo, ouvindo, fazendo, pensando e querendo. Para muito além do guarda-roupa.

 

 

 

 

Cristiane Mesquita* é psicóloga, pesquisadora de moda e professora da pós-graduação on-line em Moda e Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi.