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Creative London

Por Carmem Maia

O que faz Londres ser uma cidade tão criativa?

No mês de setembro, entre inúmeros outros eventos, Londres realizou o 2º. World Creative Fórum. Não poderia ser em outro lugar, concordam? O evento estava lotado, com muita gente “criativa”, vamos dizer assim. Londres, por si só, já esbanja criatividade em toda esquina. Na verdade, Londres não esbanja criatividade, mas as pessoas que vêm para cá, como são muito variadas e vem de todas, absolutamente, todas as partes do mundo, acabam dando a cidade uma cara completamente diferenciada. É o que digo, em Londres, você encontra de tudo e todos em qualquer esquina da cidade. Há alemães, italianos, franceses, portugueses, espanhóis, árabes, indianos aos montes, africanos, americanos, brasileiros, muitos e muitos... Islâmicos, gregos, e, também - como não? - ingleses.

Isso, com certeza, e até segundo os organizadores, é um dos pontos que faz de Londres uma cidade única. Não apenas uma cidade turística, aliás. Londres tenta ser uma cidade turística e é, pois o que mais tem de gente na rua é turista. Mas, na verdade, se formos comparar com outras cidades, por exemplo, Paris ou Praga, Londres é pouco turística. Na verdade, o que Londres faz muito bem é MARKETING. Faz um grande marketing em cima do seu nome, da sua fama, da sua mídia sensacionalista, a própria mídia londrina coopera para isso. E, nessa “venda”, Londres atrai milhares de pessoas para cá, seja para passear, seja para comprar, seja para ser turista, seja para estudar inglês, entre outras coisas, seja para trabalhar, seja para o que for, seja para juntar dinheiro e comprar uma casinha no interior da Bahia, como a grande maioria dos brasileiros que estão por aqui.

Ou seja, Londres é uma cidade criativa? A diversidade das pessoas que vivem e passam por aqui é que fez ou faz com que Londres tenha de ser criativa.

Tinha de ser moderna! Toda semana tem uma nova exposição acontecendo em qualquer um dos milhares de museus da cidade, tem vários, muitos, muitos workshops e escolas de dança, pois tem muito, muita opção de espetáculos de dança e teatro e é preciso ter isso, para entreter o turista e para as pessoas que vem para cá para estudar, para que tenham o que estudar... Londres ficou e sempre foi muito marcada por ser uma cidade antiga, tinha-se muito essa visão da cidade. Recentemente, ela buscou e vem se modernizando, a TATE Gallery é um exemplo, a TATE Modern, que já fica aberta “late night” (somente Fridays e Saturdays até as 8h!!!!), então o que mais se tem na cidade é restaurante, vida noturna (clubs, baladas), shows (todos imagináveis), e, como vida noturna tem muito a ver com arte, com lazer, acabou gerando uma necessidade de produzir uma vida cultural e de ter o que mostrar.

A Saatchi Gallery é um exemplo disso. Só “young artists” de Londres, recém saídos do Royal College of Art, uma universidade voltada somente para pós-graduação nas áreas de artes, design, arquitetura e creative industries.... que tem endereço certo para expor sua criatividade. Bem diferente do British Museum que mesmo assim, atrai, milhares e milhares de turistas. É, Londres, realmente é única, e tem aquela velha frase assustadora: “se você está cansado de Londres, você está cansado da vida...”. Mas é fato, pois a cada dia, em cada jornal, o caderno de artes, lazer, cultura e entretenimento é o que mais cresce. E, conseqüentemente, a formação de pessoas nessa área tem de crescer também. Nesse sentido, temos aqui, milhares de opções toda semana, é só abrir a TIME OUT semanal para ver na seção de cursos, workshops, seminários e “lectures”, em livrarias, ao ar livre (quando o ar e o tempo permitem, “of course”) na esquina, no parque (Speaker’s Corner), em qualquer café, tem sempre uma programação, em qualquer livraria, tem sempre um lançamento, uma vernissage, um recital, uma música.

Na área de Moda, Londres não poderia deixar Paris ficar na vanguarda. Por mais que Paris seja Paris, Londres sabe se vender. Em Londres, você encontra o que vai encontrar em Paris também, mas ao mesmo tempo, você pode ir a Camden Town
aos sábados e encontrar o oposto do que viu na Bruton Street, ou do que as vitrines do Harrods estão mostrando, ou as tendências que a King’s Road está apontando. E não é só em Camden. Quem tiver paciência pode ir a qualquer hora do dia na Oxford Street que vai encontrar versões bem acessíveis do que está se desfilando em Paris.... E, além de tudo isso, tem lugares super especiais como as lojinhas de Notting Hill Liverpool St e Marylebone, ruas de bairro, que nos fazem lembrar o interior. Ou seja, tinha que superar Paris e New York (aliás, a grande concorrente). Então, Londres é uma cidade que sabe se reinventar. Que soube e continua sabendo se reinventar. É, a meu ver, o grande exemplo, da sobrevivência em um velho mundo “almost” decadente.

A grande preocupação que senti nesse World Creative Fórum, vocês querem saber qual foi? Foi o “medo” do novo mundo (Brasil, China, Índia e África!!!), que, na palavra de um amigo jornalista inglês que conheci no evento, era o grande pavor.Cá entre nós... E eu perguntei como isso era possível e ele foi simples: “Nós já não temos muito o que inventar, na verdade, estamos nos reinventando, mas é preciso buscar inspiração e energia fora, pois, nós aqui, no fundo, não temos muito mais esperança em nada. Só estamos cercados de guerra, de medo, de terror, enquanto que o Novo Mundo tem muito a fazer, claro, tem muito que crescer, amadurecer, tem que ter dinheiro, antes de tudo, mas tem uma coisa que nós não temos mais: esperança e energia para o futuro”.

Em resumo, esse amigo jornalista me disse o que eu não entendia quando às vezes saio na rua, tem tanta coisa para se fazer, tem o mundo passando por aqui, mas o que os ingleses procuram e fazem é bem simples: um belo chá com “milk”, uma volta ou passeio ou corrida no parque, dependendo da idade, um cinema de bairro, um sanduíche no parque na hora do almoço corrido, uma yoga na academia mais perto no final do dia, uma cerveja no pub mais perto de casa ou do trabalho e muito, muito “fish and chips”.

Claro, os bares estão sempre cheios de gente, e isso foi outra coisa muito falada no fórum, uma cidade precisa ter pontos para as pessoas se encontrarem, pois o que as pessoas querem é se encontrar, conversar, namorar. Então, Londres é perfeita para isso. A cada esquina tem um restaurante, do mais orgânico, a uma quantidade absurda de indianos, fora os pubs que tem em toda esquina, como padaria no Brasil....

Londres então sobreviveu e sobrevive bem ao “terrorismo” e à “apatia”e desesperança do velho mundo e a seu “terror interno”em se parecer com a América, que a cidade teve que se reinventar e se vender, e, como todos sabemos, tem feito e faz isso muito bem.

Como faz isso? Com as tais indústrias criativas, que tem muito pouco a ver com o conceito de “criatividade do brasileiro” que conhecemos. Indústrias criativas aqui são assunto muito sério. Movimentam mais dinheiro que o setor financeiro. Empregam mais gente que o setor financeiro. Alguém assistiu ou se lembra de “Full Monty”, sobre a cidade de Sheffield, norte da Inglaterra, que vivia de produção de prata e, com a recessão e industrialização, deixou um monte de gente desempregada, e o que os “criativos”da cidade foram fazer? Foram dançar, fazer strip em um clube de mulheres...

Como disseram no Fórum, criatividade vem da necessidade, vem também da simplicidade, vem do coração.

A própria definição que o Ministério da Cultura daqui dá para Creative Industries tem muito a ver com essa necessidade de se reinventar, e de, claro, gerar dinheiro:

“We define the creative industries as those industries which have their origin in individual creativity, skill and talent and which have a potential for wealth and job creation through the generation and exploitation of intellectual property. This includes advertising, architecture, the art and antiques market, crafts, design, designer fashion, film and video, interactive leisure software, music, the performing arts, publishing, software and computer games, television and radio.”

Ou seja, não adianta ser criativo se não souber se vender e vender essa criatividade toda, e melhor que isso, se souber gerar lucro, faturar com essa criatividade.

E, é nisso, exatamente, que a cidade, os políticos e a indústria inglesa está pensando e fazendo. Está abrindo filiais da Tate Modern em Sheffield, em Manchester, em Liverpool. Novas Universidades estão surgindo em Leeds. Brighton, à beira mar, está buscando ser um pólo cultural, musical, já que tem duas importantes universidades com cursos de New Media em ambas....

E, no Brasil? O país da criatividade? O que fazemos com nosso potencial criativo?Como transformamos nosso potencial criativo em produto e em referencia internacional? E, como fazemos para que nossas idéias criativas não fiquem estocadas em algum compartimento secreto do nosso cérebro sem serem aplicadas na prática?

Que tal adotarmos a seguinte campanha, devidamente traduzida para o português:
An idea shared a day, moves the country far away (“uma idéia compartilhada por dia, leva o país adiante”)

Cheers…

Carmem Maia from London

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