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Quem disse que moda não é assunto sério?
Por Carmem Maia e Maria Alice Rocha
Há alguns dias aconteceu aqui em Londres (onde mais poderia ser?) o Seminário “Fashion's World Cities”, no London College of Fashion e Museum of London. Dois dias de evento para “explicar” porque Londres, entre outras capitais, é considerada uma capital da moda.
O seminário apresentou resultados parciais do trabalho de pesquisa “Culturas de Consumo - Shopping Routes: Networks of Fashion Consumption in London's West End 1945-79” sobre o que seriam e quais seriam as “Fashion Cities of the World”. Auditório lotado, em plena sexta e sábado ensolarado (para Londres), véspera de feriado bancário na segunda feira.Vale ressaltar que a moda não é mais tratada apenas por historiadores (passado) e sociólogos (presente), mas considerada por urbanistas como peça-chave para o futuro das cidades.
Bem, é fácil pensar no que e em quais seriam as condições ideais para ser considerada uma “Fashion City of the World”. Algumas dicas: uma história cultural, uma memória respeitada, uma efervescente indústria de moda, conceituadas escolas de moda, lojas de grifes que movam a economia, eventos que causem frisson, charme. Mas quais seriam as “Fashion World Cities”? Também é fácil imaginar: Londres, Paris, Tóquio, Milão, Nova Iorque e... Shangai!!!! Sim, Shangai. E por que não São Paulo?
Se temos Gisele Bundchen na última capa da Vogue Britânica, se temos um São Paulo Fashion Week mundialmente famoso e reconhecido acontecendo duas vezes por ano, se temos uma efervescente indústria fashion no país e na cidade, se temos todas as grifes reunidas em uma ou duas ruas dos Jardins. O que será que faltou para que São Paulo fosse incluída nessa “wish list” de “Fashion Cities”?
Simples. Falta memória. Falta cultura? (discordamos!). Falta pesquisa. Falta estratégia. Falta mostrar um pouco mais a cara. Falta mostrar para o mundo, e especificamente para a Europa, o que temos de bom.
Há um ano, também em Londres, aconteceu o 2º Fórum Internacional das Indústrias Criativas que deixou uma pergunta no ar: por que não conseguimos mostrar nossa criatividade, nosso talento, nosso feeling para a inovação?
O Brasil está na moda. Não é só em Paris não. É no mundo. O Brasil, quer queiramos ou não, é o novo mundo. Recentemente, em outra conferência aqui em Londres, um dos palestrantes apresentou um trabalho de design inclusivo na América Latina, dando ênfase para o que ele encontrou no Brasil. A platéia logo se manifestou: o que há de especial no Brasil para você falar dessa maneira tão envolvente? O professor norte-americano respondeu: “Minha vida inteira escutei que o Brasil era um país sem regras, o que o tornava impossível. Ao chegar lá descobri que é o país onde tudo é possível”.
A juventude daqui está saturada. Há muita opção, mas tudo já parece feito. Existe muita concorrência. Há muitos filmes bons (e ruins) sendo lançados. Há muitas peças de teatro. Há muitos, muitos, muitos livros novos saindo toda semana. E muitos livros fora de catálogo sendo reeditados. Há muita informação. Existem muitos cursos. Há muita produção. Há muita mídia. Muito sensacionalismo. Há muita comida. Para todos os tipos e para todos os gostos.
Londres é realmente uma “ Fashion City of the World”. É só percorrer as imagens anexadas para perceber o porquê. E em uma cidade da moda, chego à conclusão que é difícil ficar e permanecer na moda. Já que há muita opção e muita diversidade. E o Brasil, ou melhor, São Paulo, não tem?
Mas o que é mais incrível em Londres é que ninguém, ninguém mesmo, está minimamente preocupado com o que você está vestindo ou não... Ou se você está na moda ou não...Isso, realmente, é que faz de Londres, e não de São Paulo, uma “Fashion City of the World”.
No entanto, confessamos que ficamos com uma pontinha de inveja de Shangai, que foi recentemente inclusa no seleto rol das Fashion Cities, rotulada de “Paris oriental”. Que tal nos movimentarmos para mostrar que também somos ou temos condições de ser considerados como tal? Sugerimos a campanha SP Fashion City , encabeçada pelos principais interessados no assunto: vocês, leitores do Moda Brasil! É isso que falta, ou melhor, é isso que falta no Brasil: posicionamento. Levantar e mostrar o que somos, o que fazemos e o que temos. Que tal mostrar que temos moda, que temos gente que faz, que pesquisa e que entende de moda? Que temos indústria de moda. Que São Paulo tem o charme necessário para ser considerada uma “fashion city”. Mais do que isso, que temos vontade de tornar isso possível. Basta querer ser. E fazer. SP – Fashion City já!
Carmem Maia é jornalista e autora do London Calling.
Maria Alice Rocha é formada em Arquitetura (UFPE) e Estilismo de Moda (Senai-Cetiqt), com especialização em Comunicação de Moda (UFRJ) e Mestrado em Engenharia de Produção (UFPE). Maria Alice é professora de moda e vestuário na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e atualmente faz doutorado em Design de Moda no Kent Institute of Art & Design no Reino Unido, com bolsa Capes. |