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Costuras do século XXI

No início eram os alfaiates e costureiras… Profissionais tradicionalmente reconhecidos desde a Idade Média, não criavam "moda", no sentido contemporâneo da expressão. Apenas executavam as ordens dos clientes. Em 1857, o inglês Charles Frederic Worth abriu a primeira maison, em Paris. O estilista oficial da imperatriz Eugênia e de outros nobres corpos da Europa, inaugurou a profissão do "grande costureiro". Em outras palavras, inventou o direito de ditar elegância para o resto do mundo. Durante todo um século, a Alta Costura foi a grande responsável pelos grandes "desejos de moda", até que os anos 50 e 60 consolidaram a produção em série e inverteram os referenciais de tendências para a cultura jovem e as ruas.

Tom Ford e seu cachorro John na revista i-D (Julho/2001). Foto de Terry Richardson.

Quase 150 anos depois de Worth, quem está na capa da revista i-D de julho é Tom Ford, diretor de criação do grupo Gucci e responsável pela renovação do nome na década de 90 - com direito a estouro de vendas. A reportagem-entrevista com o Mr. Big da imagem de marca começa assim: "Mr. Ford sabe o que as mulheres desejam". Sim. É impossível não pensar em Gucci ao examinar alguns dos grandes fenômenos fashion dos últimos anos.

Pois Ford diz que, no momento, está mais interessado em Alta Costura do que na moda que vem das ruas. Ao se referir às últimas "aquisições" do grupo Gucci - Stella McCartney e Alexander McQueen, afirma:"a globalização é inevitável em todos os campos. 50 anos mais e seremos uma única cultura. Por isso vejo o quanto é importante que Stella desenvolva Stella, McQueen assine McQueen e que seus talentos e criatividade sejam extremamente estimulados. Tenho pensado em Alta Costura como nunca".

Rumores não faltam: a grande tacada será a maison McQueen. Tom Ford não atira no escuro. A Alta Costura - e também sua lógica de funcionamento - vem reconquistando o mercado e a imprensa intensamente e por vias diversas, bem diferentes do século passado. Depois de ter sido dada como "morta" em detrimento do avassalador poder da indústria do prêt-à-porter… Em nome do individualismo, está de volta gloriosa e bela. Nas mãos dos grandes grupos financeiros representa grande parte do poder da moda. Nas mãos de talentos como John Galliano e Jean Paul Gaultier é laboratório de criatividade e rebeldia.

Especula-se sobre uma certa "democratização do luxo". Fala-se em "resposta à massificação e globalização da moda". O assunto é menos seu alto custo e mais o poder de ser exclusiva, personalizada, feita sob medida e à mão. A natureza extremamente individualista da Alta Costura tornou-se objeto de desejo: um desejo de "humanidade e diferenciação" na roupa. Peças assinadas ou cheias de logomarcas famosas são rapidamente copiadas, as informações circulam cada vez mais rapidamente e não é apenas o talão de cheques que garante o look exclusivo na próxima festa.

A disputa pela idéia da peça única trouxe a corrida atrás da vintage*. A filosofia que valoriza o "envelhecido especial" é mais que o garimpo em brechós ou mercados das pulgas. Inclui leilões de peças assinadas, tem vestido estrelas e celebridades como a atriz Julia Roberts no Oscar/2001 e ainda produz a atitude Burberry de recuperar trench coats como verdadeiras relíquias. A atual febre fez diversos grandes magazines - como a super fashion Top Shop - entrar em concorrência com brechós: a loja criou espaços de roupas usadas, escolhidas a dedo e orgulhosamente etiquetadas: "peça única".

Editoriais de moda - de Pop Magazine à Vogue inglesa - misturam de tudo com peças de segunda mão de Portobello Rd , e Camden Town .

A onda escrita em matéria da revista inglesa Nova. Foto de Ian Nolan.

Além disso, a retomada da onda punk como tendência, privilegiou interferências como um corte aqui, um rasgo ali, alfinetes acolá, além de muitas palavras escritas de próprio punho. Roupa exclusiva feita em casa. Até Madonna adotou. Em fase londrina, alfinetou e inventou sua própria série de camisetas.

Mais uma evidência de mercado? Outros stands que povoam magazines - Selfridges também fez - são os serviços customize ou de personalização das roupas. Jovens designers atendem clientes e cortam, pintam e bordam suas aquisições para dar aquele toque pessoal e diferenciado. Este interesse tem aberto um novo - e antigo… - mercado de trabalho para jovens profissionais: a atuação em seus próprios ateliers. Para além da idéia do personal stylist (que monta guarda-roupas e direciona estilos), agora é o designer em si, com a mão na massa, desenhando e executando peças únicas e criando estampas e acessórios exclusivos.

Nina Morris trabalhando. Foto de Julia Fullerton-Batten, publicada pela Reality Magazine (encarte do jornal The Independent. Maio/2001)

"Minhas clientes se sentem especiais", afirma Nina Morris em seu atelier em Earls Court Square, Londres. "Eu poderia comprar onde quiser. Porém, gastar muito dinheiro e encontrar alguém com o mesmo vestido não é nada bom. Passei da fase das grandes marcas. Ser atendida por alguém como Nina é garantia de que estarei fabulosa na próxima festa", diz Blanca Brillembourg, uma de suas melhores clientes.

Assim como Morris, Jessica Odgen, Jasper Conran, Shelley Fox entre outros designers e alfaiates compõem recentes listas de indicações da Time Out e da Reality Magazine, encarte do jornal The Independent. Da maison Worth à maison McQueen, passando - quem diria! - pelos brechós... Novas costuras encaminham a moda no século XXI.

* Expressão inglesa, inicialmente usada para designar safras de vinho de origem especial. No século XX foi adotada como signo de estilo de peças de moda antigas, cheias de histórias do passado.

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