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Radicais
desafiam fronteiras entre moda e arte
 Atualmente,
o que seria habitar fronteiras, desafiar o óbvio,
subverter convenções? O que é
ser radical? Em tempos em que tanto já
foi feito, isto não é tarefa simples,
especialmente em se tratando do famoso mundo fashion,
onde alguns mecanismos de funcionamento vêm
dominando a criatividade de forma avassaladora.
E
se a Arte é "inventar mundos"
* que desafiem o mundo existente, criar e materializar
novas sensibilidades, escutar o tempo, resistir
aos mecanismos dominantes - e portanto causar
sensações e reflexões - "moda
radical" é esta que se planta em seus
terrenos, que se faz em seus (não) parâmetros.
Moda radical tem sido aquela que faz esquinas
em planas e glamourosas passarelas, que questiona
perfeitos corpos, que produz imagens tóxicas.
Aquela que incomoda, mais do que acomoda em combinações
perfeitas. E nem sempre incomodar significa chocar,
assim como muito se tem dito sobre alguns rebeldes
de cortes e costuras e visões. Mas quase
sempre tem a ver com beleza. Não aquela
que enche olhos menos abertos ao estranhamento,
mas aquela que fala ao mundo sensível de
todos nós.
Radical
Fashion, a exposição que ocupa uma
das galerias do
Victoria and Albert Museum desde
18 de Outubro e vai até 06 de janeiro de
2002, trata de alguns destes "mundos inventados".
Universos estilísticos de 11 designers-artistas
que escolheram a roupa para seus modos de expressão.
Mas, como bem disse Hussein Chalayan - que também
vem fazendo vídeos
"sou uma pessoa de idéias e estaria
realizando estas idéias em qualquer meio"
ou como prova a história pessoal de Rei
Kawakubo - que se formou em Filosofia e é
autodidata em moda - tudo indica que estes 11
seriam geniais de qualquer maneira.
Todos
são criadores inseridos no mercado. Possuem
suas griffes, vendem seus produtos, alimentam
o funcionamento da moda, máquina das mais
capitalísticas. Porém, ousam questioná-la,
ousam dizer de si, ousam dialogar com instâncias
sensíveis, ousam criar incômoda moda.
Em muitos momentos chacoalham suas diretrizes,
confundem mídia e espectadores que esperam
fórmulas fáceis. Não se deixam
aprisionar. Se permitem estranhar o próprio
mundo que os cerca. Escutam e esculpem os corpos
e criam mais que roupas: inventam paisagens.
 A
curadora Claire Wilcox é clara em sua proposta:
"estou particularmente interessada naqueles
designers que, em algum sentido, quebram barreiras".
Assim, os nomes escolhidos são de diferentes
gerações e nacionalidades, motivados
pelos mais diversos impulsos, mas têm em
comum a atitude provocativa, além de exercerem
imensa influência na moda "convencional".
Em muitos momentos, têm sido responsáveis
por grandes fenômenos de venda, com a irradiação
de suas idéias de passarela que atingem
as high streets e grandes magazines, mesmo
que à primeira vista sejam tidos excêntricos
ou "não usáveis". Eventualmente,
seus conceitos, contribuíram para alterações
nos contornos da subjetividade contemporânea
e na busca por novas formas de compreensão
da beleza.
Bem
traduz este espírito, uma das citações
da exposição - que são muitas,
no trajeto entre as 11 salas, cada uma dedicada
a um designer de Radical - esta de autoria
do japonês Yohji Yamamoto: "Alguns
atributos preciosos dos seres humanos como a graça,
a decência, a delicadeza ou a gentileza
vêm, acho eu, de um equilíbrio assimétrico.
Quando as coisas são criadas como objetos
perfeitamente simétricos, para mim são
feias porque não sinto nelas as mãos
do homem, o suor de suas mãos. Se você
é um ser humano não pode fazer coisas
perfeitas. As coisas são mais ou menos.
E isso me emociona muito. Faz com que eu as ame."**
Yohji apresenta, numa sala espelhada, uma de suas
volumosas noivas da coleção Verão
99, em seus muitos tons de branco e diferentes
texturas, incluindo seda e malha de algodão.
Ao lado, um vestido preto e simples - no que pode
ter de simplicidade a modelagem complexa e bela
de Yamamoto - o qual chamou de Maturity dress.
Outro
poeta da imperfeição, Martin Margiela,
mostra peças da coleção Primavera/Verão
01, na qual brincou com as proporções
- e levou a sério a questão das
padronização dos corpos. Margiela
sempre desconstruiu convenções.
Honra sua formação em Antuérpia,
sua origem belga
é, sem dúvida alguma, um dos radicais
"mais radicais". A começar por
sua atitude diante da mídia: enquanto estilistas
se tornaram pop stars e celebridades, Martin
acredita que sua reclusão garante a manutenção
de sua liberdade criativa e que seu trabalho independe
completamente de sua aparência. Nunca foi
fotografado, dá poucas entrevistas, insiste
em assinar Maison Martin Margiela, em crédito
a toda a sua equipe e apresenta suas coleções
em estações de metrô, esquinas
ou simples cafés de Paris. Desde que começou,
vem trabalhando a linha Artesano, feita
a mão e exclusiva, a partir da transformação
de peças usadas, compradas em brechós,
mercados das pulgas e instituições
de caridade. No V&A, as próprias
caixas de madeira para o transporte das peças
são o recurso de sua montagem. Dentro delas,
o visitante se depara com um dos trabalhos de
moda mais polêmicos dos últimos tempos,
que questiona o "tamanho 38", as dimensões
"corretas", as estruturas sociais, o
consumismo, a massificação, e a
moda em si. 50%, 148%, 157%, são algumas
das proporções oversize ou
minisize propostas pelo designer. Entre outras
peças, estão em Radical um
vestido dos anos 70, aumentado 200% através
de emendas de tecido; a saia que é resultado
de duas outras usadas, frente poliéster,
verso lã e comprimidas para a metade do
tamanho original; a calça jeans gigante
que veste P, M ou G, ajustada por botões
e colchetes; o colete, ampliado 157%, com estrutura
tal que, mesmo vestindo uma mulher menor não
assenta no corpo e mantém sua grande forma.
Como se não bastasse, também estão
ali o sapato estileto sem salto, a blusa feita
com velhas luvas de couro costuradas umas nas
outras e o próprio manequim de alfaiate
da década de 1950, usado para a desenvolver
as ampliações. O busto é
personalizado, o que remete aos resquícios
de um tempo em que a moda só começava
a traçar seus caminhos rumo à extrema
massificação.
Por
falar em desafio de proporções,
a sala da japonesa visionária Rei Kawakubo
tem projeção de formas geométricas
em branco, vermelho e preto, completamente pop-optical-art.
As peças em tecidos com os mesmos motivos
são sensivelmente pontuadas com detalhes
em estampa de camuflagem de guerra. Mais que contemporânea,
a mistura entre a perfeição geométrica
de círculos e quadrados e a organicidade
da camuflagem, entre cores puras e tantos tons
de verde, expõem conflitos mais que reais,
especialmente em tempos atuais. Sempre modelando
sua filosofia, Kawakubo conta que a primeira loja
da marca Comme des Garçons não tinha
espelhos porque ela "queria que as pessoas
escolhessem as roupas pela sensação
e não pela aparência." Em vídeo,
apresenta - assim como fez na Mode
2001, - sua última coleção
(Primavera/Verão 2002) que é debochadamente
sexy, decadente e feminina. "Minhas inspirações
vêm de imagens obscuras e abstratas".
Para onde Rei estará nos levando agora?
Feminilidade,
fragilidade e poder são também algumas
das questões de Hussein Chalayan. Para
dizer a que veio em Radical, transportou para
o V&A o mesmo conceito - e emoção
- da coleção Ventriloquy, apresentada
na London
Fashion Week de Setembro de 2000.
Algumas das peças e mais o vídeo
em computação gráfica 3D
- onde bonecas digitais se vestem, se despem e
se destroem, num angustiante slow motion
- habitam sua sala branca e geométrica.
Já naquela temporada, enxergando muito
além das releituras 80's do power dressing
que então imperavam na moda, apresentou
performance que terminou com algumas modelos reais
estilhaçando os vestidos de outras, esculpidos
em resina e vidro.
Com
performance também apresentada na mesma
edição da LFW, Alexander
McQueen é uma das maiores sensações
de Radical. A coleção, inspirada
no Marquês de Sade e no filme O Iluminado
(Stanley Kubrick), aparece em dois trajes e vídeo
do desfile onde McQueen expõe contradições
entre os atos de ver e ser visto, sanidade e loucura,
dor e prazer e ainda faz referências ao
narcisismo e à solidão. É
puro fascínio a reprodução
da caixa em vidro espelhado, onde as modelos atuaram
como prisioneiras insanas, condenadas a ser vistas
e não ver. No final, uma caixa central
se quebra e revela a nudez de um das moças.
Mascarada. Dramático e surpreendente, Alexander
manipula arte e tecnologia em seus shows de forma
primorosa e cria espetáculos sensacionais.
Também
em vídeo - e inserindo o visitante na projeção
de seu show - funciona a sala de Helmut Lang.
As imagens de um de seus desfiles são projetadas
em tela translúcida, de forma que espectador
da exposição, modelos e platéia
do desfile se misturam. Sua frase a respeito do
porque divulgar seus shows na internet, sem medo
de cópias - já que foi o primeiro
a disponibilizá-los on line, em
1998 - é por si só uma obra e um
convite à democratização:
"a moda é sempre editada em revistas
ou lojas. Na internet a informação
é para todos."
Em
outras cinco salas estão Junya Watanabe
para Comme des Garçons, quase transparente
em sua coleção Technoculture
(Outono/Inverno 01), não fosse pela superposição
de pétalas de tecido e a técnica
de casas de abelha, pura leveza em material que
parece misturar organza e papel vegetal; Vivienne
Westwood - como sempre, entre a tradição
e a perversão - em peças que usam
de moleton envelhecido a tafetá com estampa
de tigre; Jean Paul Gaultier subvertendo materiais
e técnicas ordinários e comuns ao
transformá-los em alta costura sexy e divertida;
Issey Miyake, o revolucionário da matéria
prima, com sua APOC (A piece of cloth)
transcendendo o conceito de autonomia com tubos
de malha que colocam apenas uma tesoura entre
o desejo de quem veste e o design. E, finalmente,
Azzedine Alaia que mostra vestidos-esculturas,
tecnicamente inabaláveis - algumas de suas
peças são feitas da junção
de mais de quarenta partes - e perfeitamente modelados
para corpos de modelagem perfeita. Alaia, em Radical
Fashion, parece habitar um outro extremo da
linha de idéias que mais fazem refletir
sobre o lugar da moda no mundo real do que afastá-la
do mesmo.
Além
de trilha sonora com curadoria especial do compositor
David Toop, que conta com com gente do peso de
Björk e Ryuichi Sakamoto, Radical Fashion
integra roupas com filmes e luzes, num primoroso
trabalho de cenografia. A sequência das
salas é entremeada por duas montagens de
vídeo com imagens de trabalhos dos designers,
além das try-ons boxes: caixas com
peças de Westwood, Miyake, McQueen e Gaultier
feitas com vidro espelhado. Ao se posicionar atrás,
o visitante se vê "vestido" por
tais criações. Experiencia a sensação
de "usar um radical", mesmo que apenas
por um momento. E, se até então
tinha alguma dúvida, ali confirma as palavras
de Virginia Woolf*** sobre o modo como algumas
pessoas enxergam as roupas: "
mudam
sua visão do mundo e a visão do
mundo sobre nós".
 Para
ser ainda melhor, Radical Fashion merecia
ter explicitado algum diálogo com a recém-acontecida
Mode 2001, em Antuérpia, na Bélgica,
que trabalhou o mesmo conceito e inclusive gente
em comum como Chalayan, Watanabe, Kawakubo e Margiela.
Radicals foi o nome de um dos quatro
ambientes da Mode, realizado ao ar livre, com
20 painéis fotográficos trifásicos
- cada um deles com três imagens dos criadores.
Mais uma correspondência fica por conta
do grande olho. Se em Radicals a imagem
de Ronald Stoops também foi capa do catálogo
do evento, em Radical Fashion emoldura
a entrada, sinalizando que se trata de gente que
enxerga longe e convidando o expectador a compatilhar
suas visões de mundo. E se a radicalidade
salva a moda do lugar comum, nada melhor que unir
forças, cortes, costuras e nacionalidades
para homenagear tal admirável postura.
#O website
de Radical Fashion vale uma visita. Traz
breve biografia, imagens e fragmentos das salas
de cada designer da mostra, assim como dos vídeos
apresentados.
#The Victoria and Albert Museum - Cromwell
Road - South Kensington - London SW7 2RL - Tel:
+44 (0)20 7942 2000 - Metrô South Kensington
*O filósofo Gilles Deleuze expõe
este conceito em Crítica e clínica.
Editora Brasiliense, São Paulo, 1997.
**Presente no filme "Caderno de notas
sobre roupas e cidades (Wim Wenders, 1989)
***Em Orlando, 1928.
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