Balanço Festival Minas Cult
*por Milene Macaraoun
fotos divulgação

Numa iniciativa inédita, o Governo de Minas realizou com o apoio de duas grandes empresas mineiras – Fiat e Telemig Celular – um evento para inserir o Estado de forma definitiva no eixo cultural do país. Em sua primeira edição, o Minas Cult conseguiu agitar a cidade com desfiles, instalações, performances, exposições, discussões de idéias, troca de informações e muitas surpresas. Tudo o que a cidade estava precisando. Desde o último dia 13 contemplando cultura, arte contemporânea, design, música, comportamento e moda, o evento acaba dia 08 de maio, com produção executiva do empresário Paulo Borges, realizador da São Paulo Fashion Week. "Não estamos falando simplesmente de moda e de roupa. Não estamos preocupados em fazer desfile ou em apresentar coleção. A moda está a serviço da cultura e do comportamento, do design e das abrangências dessas atividades como criação de uma nova leitura da cultura brasileira", explicou Paulo Borges.

O Minas Cult começou com o projeto ‘Eu etiqueta', numa intervenção urbana do estilista Ronaldo Fraga a partir da obra de Carlos Drummond de Andrade. O cenário escolhido para mostrar a coleção do designer foi a Praça da Liberdade, que ficou pequena para tanta gente. Imprensa e um grande público ávido por manifestações artísticas dividiram espaço para assistir ao desfile. A beleza das modelos misturava-se com a simplicidade da gente anônima que também desfilava na passarela. Além dos versos de Drummond na trilha sonora, o sorriso de um dos modelos – um senhor idoso com feição semelhante à do poeta – emocionou muita gente e completou o clima de alegria do espetáculo. Uma noite linda com moda e poesia, na medida certa. Depois do desfile, o governador Aécio Neves recebeu jornalistas, fashionistas e vários empresários do setor para um coquetel no Iepha.

Outra atração interessante do evento foi a apresentação, em forma de desfile, dos trajes usados para as festas religiosas como Congado e Folia de Reis mostrando a influência do folclore e do artesanato têxtil na cultura e na moda mineira. A abertura contou com desfile de indumentárias religiosas com foco na estética do grupo Guarda de Congo Verde Amarelo de Divinópolis, com Capitão Antônio. Também fez parte da extensa programação do Minas Cult o projeto Amni Hot Spot que, depois de sete anos, pela primeira vez aconteceu fora de São Paulo e – uma pena! – não revelou nenhum novo talento mineiro devido à falta de tempo para ..

Como destaque na programação do evento, o desfile coletivo com inspiração nas "Garotas do Alceu". Alceu Penna foi o primeiro grande ilustrador de moda do Brasil e criou garotas com penteados, roupas e atitudes que eram imitadas por quase todas as mulheres na década de 50. O Minas Cult convidou vinte e cinco grifes e estilistas mineiros para recriar no espaço contemporâneo peças baseadas no trabalho do artista. Alphorria, Art Man, Brasilianas, Bárbara Bela, Claudia Mourao, Condotti, Drosófila, Eduardo Suppes, Eliana Queiroz, GL – Giselle Loyola e Luis Claudio, Graça Ottoni, Joaquim Nogueira, Liana Fernandes, Mabel Magalhães, Manoel Bernardes, Marcos Ferreira, Martielo Toledo, Patachou por Tereza Santos, Printing, Renato Loureiro, Sheila e Érika Mares Guia, Sonia Pinto, Terezinha Geo – Talento, Victor Dzenk e Vide Bula desfilaram mais de 30 looks com referências ao trabalho do famoso desenhista ao som de uma orquestra ao vivo, que tocou músicas de época. Cintura marcada, laçarotes, babados e saias rodadas apareceram em muitas criações, que também apresentaram brilho e um quê de barroco mineiro.


No último dia 17/04, a enorme tenda montada na Praça da Estação para o evento encerrou suas atividades em grande estilo com o primeiro desfile de Clements Ribeiro no Brasil. A badalada marca inglesa é do mineiro Inácio Ribeiro, nascido na cidade de Itapecirica e radicado em Londres, que hoje tem um enorme reconhecimento internacional no mundo da moda. Na passarela, a coleção apresentada em fevereiro na Semana de Moda de Londres. Um luxo. E a maratona rolou até o dia 1º de maio, com duas belas mostras no Museu de Artes e Ofícios. Religiosidade e cultura popular fizeram parte de "Estandartes de Minas" que apresentou lindos trabalhos dos artistas Marcelo Brant, Maria Amélia e Ivã Volpi. Já a exposição "Fiação e Tecelagem" mostrou o acervo de peças dos séculos XVIII a XX de diversas regiões do país colecionado pela empresária Ângela Gutierrez, ao longo de três décadas. Super interessante para quem trabalha na área de moda, com peças que contaram a história do fio e da tecelagem, mostrando o passo-a-passo do trabalho, desde o recebimento do algodão até a confecção do tecido. De modo geral, o evento sacudiu a cidade de maneira positiva. Valeu a pena! Tomara que essa iniciativa tenha continuidade no calendário brasileiro.

* Milene Macaroun é jornalista, pós-graduada em Moda e Comunicação e professora do curso de Design de Moda da Universidade Fumec, além de editora do Minas Link.