A “MAÇÔ COMIDA PELOS BRASILEIROS

Por Ana Naddaf
Fotos: Roberto Machado

Há cinco anos atrás, Amir Slama cancelava seu desfile na Olympus Fashion Week devido ao ataque às torres gêmeas, em 11 de setembro (na época, seu desfile estava marcado para o dia seguinte, 12). Neste ano, a apresentação da Rosa Chá foi um dia anterior às homenagens da data fatídica. A tragédia, no entanto, não foi lembrada durante os desfiles de primavera-verão 2007 da semana de moda nova-iorquina. E o preto, de luto, pouco apareceu. Principalmente, nos desfiles dos brasileiros. Como em coleções anteriores, Alexandre Herchcovitch, Carlos Miele e Amir Slama fizeram da cor uma das principais referências da moda brasileira, que ainda ganhou “reforços” nesta edição com a estréia de Benny Rosset e sua marca de beachwear , a Cia Marítima.

Além dos quatro, mais brasileiros estiveram presentes – mesmo que não diretamente com seus nomes na passarela. Caso do mineiro Francisco Costa, que assinou mais uma vez a direção criativa da Calvin Klein, marca ícone da moda americana. Foi a primeira coleção apresentada depois que Costa recebeu o prêmio oferecido pelo Council of Fashion Designers of America como melhor designer de moda feminina de 2006. E de Icarius de Menezes, o curitibano radicalizado na Itália que é o mais novo estilista da Diesel.

Confira os principais momentos das passarelas brasileiras na temporada de NY:

Alexandre Herchcovitch - 2 vezes o étnico

Nada foi muito diferente do desfile de Hercovitch apresentado durante a São Paulo Fashion Week e o da semana de moda nova-iorquina. Até a estilista e figurinista Patricia Fields (de “ Sex and the City ” e “ O Diabo Veste Prada ”) na primeira fila. Fields assistiu às duas apresentações do estilista, que teve como inspiração principal do seu verão a tribo sul-africana Ndebele.Além do étnico, Alexandre ainda misturou referências do punk com bordados de miçangas e uma cartela de cores primárias – que The New York Times explicou como “as cores usadas pelas crianças nas favelas do Rio (?)”.

Amir Slama (Rosa Chá) – invasão à brasileira

O desfile inédito de Amir Slama (já que a Rosa Chá não se apresentou no Brasil este ano) era um dos mais aguardados entre os brasileiros. A influência francesa sobre a cultura colonial brasileira foi a inspiração para o swimwear de Slama, mais especificamente a invasão dos corsários franceses em São Luís do Maranhão, no século 16. Caroline Trentini, que estrela a campanha e catálogo da marca, entrou por um enorme cocar de 7m de altura, criado pelo designer Marton, e deu início à apresentação dos 54 looks da coleção que faziam referência aos nativos (sequência de biquínis com recortes geométricos em tom de bege), ao baile brasileiro de Catarina de Médicis na França (maiôs que lembravam corseletes e referências ao luxo em babados e paetês) e ainda ao movimento de Art Déco das mansões da capital maranhese (como na cartela de cores: com rosas, lilases, azuis e off-white em peças que lembravam mosaicos ). Um detalhe curioso: nos releases, uma explicação à imprensa e compradores. As peças mostradas nos desfiles eram todas no “corte brasileiro” (ou seja, os biquínis eram 4 cm mais finos que os usados nos EUA), mas a coleção estará disponível também na modelagem americana.

Carlos Miele – o estilista equilibrista

Hang out . As modelos começam na ponta da passarela “fofocando” aparentemente sobre os vestidos que usam. Uma bossa-nova ganha mais força até virar trilha sonora ideal para os vestidos de Miele que tomou como ponto de partida as pinturas do pintor italiano Jacopo Pontormo, do século 16. A influência barroca aparecia tanto em vestidos super curtos, como nos mais longos e com caudas. Decotes e tops tomara-que-caia direcionavam o olhar para os ombros e o colo no corpo feminino idealizado por Miele.

Tecidos fluidos, como o chiffon, e cinturas mais altas foram as soluções encontradas para dar mais movimento e jovialidade à parte mais noite da coleção – os vestidos continuam sendo a grande peça-chave de Miele. No entanto, apareceram ainda calças pantalonas e shortinhos com barra italiana. E ainda peças em crochê com toques de pedraria – relembrando seu eterno interesse pelo handmade . Como em um jogo de contrastes, era possível ver referências do seu lado mais tropical na cartela de cores vibrantes como do seu lado mais comercial e urbano (diretamente ligado ao espírito nova-iorquino) em tons mais frios de azul e bege. A aposta entre tentar unir os dois pólos parece ter sido visível aos olhos da imprensa internacional que destacou o acerto do estilista entre equilibrar Brasil e Estados Unidos em seu desfile.

 

Cia Marítima – o mergulho em águas americanas

O elo entre Bahia e África deram o tom étnico à moda praia de Benny Rosset, que teve sua estréia em “águas americanas” parecendo ter ganho consideráveis pontos já que a marca decidiu apresentar modelos mais comportados e bem maiores do que a modelagem brasileira, tanto na parte cima como nas calcinhas (mas estas, como não poderia deixar de ser, também apareceram em modelos mais diminutos ou ainda em peças mais baixas reforçando o velho ícone). Como no desfile apresentado durante a São Paulo Fashion Week, a Cia Marítima apostou na estamparia (ora com folhagens, ora em tribais) e em adereços como os metais. O destaque na imprensa internacional, no entanto, ficou mais para a top-model tcheca Karolina Kurkova que desfilou para a marca.

CURTINHAS

* Carol Trentini , em sua sexta temporada nova-iorquina, foi a preferiada entre os brasileiros. Esteve nas passarelas de Rosa Chá, Alexandre e Carlos Miele.

* Fabiana Semprebom , que esteve nos desfiles de moda praia, foi destaque no New York Times falando de sua rotina entre um desfile e outro.

* Nova bossa – Sergio Mendes teve sua música “Mais que Nada” (agora em versão com o grupo Black Eyed Peas) transformada em “hit”. Apareceu tanto na trilha de Carlos Miele como na da Rosa Chá (neste, foi a “entrada” para a modelo Raica).

Ana Naddaf é jornalista e, atualmente, vive em Nova York. É uma das colaboradoras do livro Moda Brasil – Fragmentos de um Vestir Tropical , da Editora Anhembi-Morumbi. Com especialização em Cultura Visual , pela Universidade de Barcelona, trabalhou em São Paulo e Fortaleza, antes de morar na Espanha e nos Estados Unidos.

Roberto Kennedy é fotojornalista e fotógrafo-publicitário, com formação pela Casa Amarela, da Universidade Federal do Ceará, e pelo International Center of Photography , em Nova York.