A
Restauração da Moda: roupas que contam histórias...
Por Diana
Galvão*

Claudia
Nunes é uma exímia especialista em conservação
e restauração de patrimônios históricos e
artísticos, profissão rara no país. Formada na
Escola de Belas Artes - UFRJ com mestrado no FIT- NY - Museum Studies:
Costume & Textile Conservation - sua experiência profissional
perpassa o Metropolitan Museum de New York - The New Costume Institute;
Museum of America Folk Art - NY; o Museu Nacional de Belas Artes - RJ;
Museu Mariano Procópio - Juiz de Fora; o Museu Imperial - Petrópolis;
e o Instituto Feminino da Bahia. Entre as suas publicações
literárias estão "Restauração da Veste
da Coroação de Dom Pedro II: uma Intervenção
com BEVA 371" e "A Secagem da Múmia de Hori".
Em breve, a petropolitana Claudia, também conhecida como a Pequena
Notável, estará lançando o "Manual de Manuseio
e Cuidados com o acervo Têxtil".
Moda
Brasil - Preservar o patrimônio cultural de um país
é preservar a sua memória nacional. Comente sobre a importância
das referências imagéticas pertencentes a um acervo museológico
- pinturas, escritos, esculturas, móveis e vestimentas - que
elucidam o entendimento do público visitante, retirando "a
poeira dos olhos", sobre a História.
Cláudia Nunes - As pinturas,
escritos, esculturas, móveis, indumentárias, etc... são
pontos de referência fundamentais para construir e reconstruir
a nossa nossa história , criando o sentido de nacionalidade.
Se as referências históricas não forem preservadas,
não teremos um passado a ser reconstruído.
MB
- Através da História da Arte e da História da
Moda podemos contar a evolução da Humanidade - desde os
povos antigos a era contemporânea. Ao visitarmos um museu e sua
galeria de retratos (prática que surgiu no período
da Renascença) percebemos, claramente, que são esplêndidas
evocações da História. Detalhes de vestimentas,
jóias, sapatos, penteados, mobília, nos ajudam a compor
uma imagem da época em que o retratado viveu - são um
retrato fiel das mudanças sociais, nas quais exprime-se a criatividade
humana. Comente sobre o retrato, como tema subjacente ao universo da
moda e as relações deste com as mudanças culturais
e artísticas da sociedade dos costumes.
CN - O estudo do retrato é
uma das principais fontes de pesquisa para a reconstrução
da moda e dos costumes, possibilitando um estudo de uma camada social
privilegiada, pois poucos podiam custear o seu próprio retrato
pintado por um artista. Existem pintores que foram excelentes retratistas
e que se preocupavam com detalhes sofisticados de panejamento. Podemos
distinguir em algumas pinturas além do corte da roupa, o brilho
da seda, a
maciez do veludo, o entrelaçar das rendas, etc... Com o aparecimento
da fotografia no final do século 19 e o próprio desenvolvimento
do mundo moderno, a arte começa a se preocupar em existir por
si só, e não mais em apenas
"retratar" o que está a sua volta. Os pintores se preocupam
com a criatividade artística surgindo os novos estilos de arte:
cubismo, fauvismo, expressionismo. O retrato será deixado para
os fotógrafos, que terão uma grande importância,
fazendo uma nova leitura da sociedade. As fotografias tornam-se cada
vez mais elaboradas (antes havia a preocupação de montarem
cenários para a realização dos retratos). Entretanto,
a arte continua a refletir a maneira como as pessoas vêem o mundo
nas suas respectivas épocas, expressando a mudança das
mentalidades, as mudanças no comportamento e na própria
moda.
MB
- Um segmento tão específico como a restauração
têxtil desperta interesse, em "frente e verso", nos
três períodos do processo: antes, durante e depois. Comente
sobre a Restauração como ciência e os avanços
tecnológicos do setor .
CN - A restauração
surgiu da necessidade humana de preservar o passado possibilitando que
futuras gerações tenham a possibilidade de conhecê-lo.
Percebia-se que com o passar dos anos as intervenções
feitas em certos
objetos, foram mais maléficas do que benéficas. Pois,
muitas vezes os materiais utilizados no restauro alteravam-se em curto
espaço de tempo danificando ainda mais os objetos. Pensava-se
também que ser capaz de juntar duas partes quebradas e colá-las
era restauração. Não existia uma preocupação
em realizar uma documentação fotográfica ou escrita
do objeto que foi restaurado. Muitas vezes, uma peça chega as
nossas mãos e não se sabe quando esta foi
restaurada, qual foi a intervenção feita, o material que
foi utilizado no processo, o que é o original. Nos últimos
vinte e sete anos, a restauração evoluiu como ciência,
fazendo com que o Canadá e E.U.A criassem centros de pesquisas
onde cientistas trabalham exclusivamente desenvolvendo materiais e equipamentos
para restauração. Atualmente, é preciso que um
restaurador conheça muito bem os materiais com os quais pretende
intervir na peça, pois um material adequado terá uma maior
durabilidade, não acarretando comprometimento do objeto. O restaurador
também deve estudar História da Arte para melhor contextualizar
o objeto. Um dos critérios de ética da profissão
é preservar ao máximo a integridade física e artística
do objeto, deixando-se explicito ou não a área de intervenção,
por este motivo os registros documentais são imprescindíveis.
MB
- As vestimentas de época, anteriores a Era Moderna - trajes
sociais, militares e infantis - foram confeccionadas com fibras naturais:
linho, seda, lã, veludo, algodão e peles. Portanto, exigem
cuidados específicos de conservação e manutenção,
referentes ao acervo museológico?
CN - Sim. Lã, seda e peles
são de origem animal. São fibras protéicas. Já
o linho, e o algodão são de origem vegetal, são
fibras celulósicas. O veludo era confeccionado de fios de seda
ou de algodão. Estas fibras devem ser conservadas num ambiente
com uma intensidade de luz variando entre 50 -100 lux . Lâmpadas
fluorescente devem ter filtros para raios ultravioleta, janelas devem
ser fechadas com black out, deve-se também evitar iluminação
que gera calor como lâmpadas de tungstênio e dicróica.
A temperatura ambiente não deve ultrapassar 250 C e a umidade
relativa do ar no ambiente deve ficar entre 60% a 65% RH. Se esses padrões
não forem rigorosamente não forem respeitados, infestação
de insetos e microorganismos podem proliferar, ocorrerá o desbotamento
das cores e a deterioração das fibras. Geralmente, seda
e lã são mais suscetíveis à infestações
de fungos e mofos. Quando estes parasitas contaminam uma única
peça, podem proliferar-se por toda a coleção. As
peças devem ser acondicionadas
individualmente e guardadas em ambiente extremamente limpo. Estes cuidados
devem ser seguidos tanto para a guarda como para exposição
de peças.
MB
- No Museu Carmem Miranda você recuperou uma peça considerada
como perdida, tema de uma de suas publicações literárias
"Um Caso Atípico de Conservação Têxtil:
As Roupas de Carmen Miranda". Comente sobre esta saia, confeccionada
com paetês de gelatina, que a Brazilian Bomshell, lindamente,
usou no filme "Uma noite no Rio".
CN - Esta saia, quando chegou às
minhas mãos, era apenas um "montinho" de tecido deteriorado,
paetês e poeira . Encontrava-se extremamente fragilizada e empoeirada.
Não era possível localizar nem mesmo a cintura da saia...
Com extremo cuidado no manuseio da peça, "o montinho"
foi sendo aberto e ganhando formato. Foram necessárias duas semanas
apenas para abrir totalmente o emaranhado e visualizar a saia. No total,
foram seis meses de trabalho com mais dois profissionais atuando ininterruptamente.
Devido ao péssimo estado de conservação dos paetês
(deformados, desgastados e com perda de pigmentação) ,
concluímos antes mesmo dos resultados dos testes laboratoriais
que estes eram de gelatina. O tecido da saia é uma gaze de seda,
muito fina, cuja modelagem contornava lindamente a cintura e os quadris
de Carmen Miranda , abrindo-se em evase dos quadris para baixo. Foi
um trabalho que exigiu muita pesquisa para a sua elaboração,
pois devido à fragilidade e estado muito deteriorado do tecido
não era possível utilizar nenhum tipo de costura para
fixação de um novo tecido que seria usado como suporte
do tecido original. E, por possuir paêtes de gelatina, não
era possível utilizar adesivo que fosse ativado com calor (a
maioria dos adesivos são ativados com calor). Entretanto, em
1993 participei de um simpósio de adesivos para restauração
de tecidos e pinturas desenvolvido pelo Canadian Conservation Institute
e, dentre os vários adesivos demonstrados, pude utilizar o mais
adequado para o tratamento da saia. Os paêtes deformados foram
tratados com vapor quente para voltarem a sua forma original. Foi utilizada
técnica de restauração de pintura para realizar
a reintegração cromática dos paetês, e paetês
de plástico foram pintados na cor dos originais para serem colocados
nas áreas de perda dos mesmos. Foi gratificante podermos vestir
um manequim com algo que era apenas um "montinho"; montinho
este que seria descartado da rica coleção do Museu Carmen
Miranda. Hoje, o público pode admirar a saia, que, sem dúvida
nenhuma, é uma beleza.
MB
- Há uma diferença entre a restauração de
roupas alegóricas - usadas em shows, filmes e peças teatrais
- e os trajes sociais?
CN - Não faço distinção
no tratamento de peças alegóricas ou trajes sociais ou
roupas históricas. Trato todas as peças da mesma maneira,
com a mesma visão profissional e com a mesma dignidade e respeito.
Desde o traje do
Imperador, como as obras de Arthur Bispo do Rosário, passando
por roupas teatrais, sempre utilizo os critérios éticos
e estéticos da profissão. Existe sim, uma diferença
no tipo de confecção destas roupas, embora já tenha
visto roupas de teatro que apresentavam um acabamento perfeito, de altíssima
qualidade. Geralmente, roupas teatrais e de shows não foram confeccionadas
para durar e sim para brilhar (criar efeito visual). É muito
comum encontrarmos peças que foram guardadas sem nunca terem
sido lavadas,pois devido aos adereços muitas vezes não
se sabia como proceder, e por conseqüência o ácido
úrico contido no suor deteriora as áreas de maior contato
direto com o corpo. Nas coleções norte-americanas e européias
encontramos artefatos que nunca foram lavados. Os tecidos eram muito
caros, e lavar uma roupa era sinônimo de desgastá-la. Apenas
as roupas brancasíintimas eram lavadas, e as roupas "externas"
ficavam protegidas do contato da pele e do suor e mantinham-se praticamente
perfeitas, o que não é o caso de roupas alegóricas
ou de teatro.
MB
- O manuseio de peças de arte é um trabalho tátil.
Tocar em peças que literalmente contam a História do Brasil,
como a Veste da Coroação do Imperador D. Pedro II e o
Manto da Princesa Isabel, ambos pertencentes ao Museu Mariano Procópio,
em Juiz de Fora, te emocionam? Quais os cuidados necessários
para com o manuseio? Comente sobre a emoção e os perigos
do contato tátil com estas peças antigas.
CN - Com certeza fiquei emocionada
e muitas vezes ainda me emociono. Mas,, para realizar o trabalho é
preciso desmitificar o objeto, porque caso contrário não
se consegue intervir no mesmo. Se ficarmos pensando que pertenceu ou
foi desenhado por alguma personalidade, será mais difícil
intervir no objeto. Geralmente, são peças muito frágeis.
O tecido é um dos materiais que mais se deteriora com o tempo,
principalmente no Brasil, onde
não existe uma cultura de preservação do tecido.
É preciso sempre ter um suporte rígido embaixo do tecido
no caso de movê-lo de uma mesa para outra, ou para uma embalagem.
É aconselhável o uso de luvas, de máscara para
poeira, e óculos de proteção porque, dependendo
do estado da peça, a poeira contém microorganismos que
podem causar sérios problemas à saúde do restaurador.
MB
- A restauração do Manto de Arthur Bispo do Rosário,
interno da colônia Juliano Moreira, e a restauração
de roupas desenhadas por Di Cavalcanti, Burle Marx, Lasar Segal que
compõem o figurino do Balé Comemorativo dos 400 Anos da
Cidade de São Paulo, são assinadas por você. Comente
sobre estas peças.
CN - O acervo de Arthur Bispo do
Rosário é apaixonante, principalmente as peças
têxteis por ele confeccionadas e bordadas. O fato de um homem
esquizofrênico, utilizar trabalho de agulha e o tecido como expressão,
que até hoje não é valorizado, é extremamente
interessante. Para realizar os primeiros trabalhos ele utilizou lençóis
de sua cama no hospital e desfiava o próprio uniforme para conseguir
linha para bordar, por isso a série de estandartes são
todos bordados com linha azul. As indumentárias assinadas por
Lasar Segall, Burle Marx, Di Cavalcanti do Balé Comemorativo
dos 400 anos de São Paulo fez parte da Exposição
Fantasia Brasileira realizada pelo SESC Belenzinho com curadoria de
Gláucia Amaral, que é artista plástica e desenvolve
um trabalho fantástico de "Wearable Art" e pintura
em seda. Realizamos vários trabalhos em conjunto tais como: Labirinto
da Moda, Flávio Império. As indumentárias do Balé
possuem um figurino arrojado e moderno, refletindo bem o período
em que foram desenhadas (1954). Foi um trabalho muito interessante,
porque como algumas peças faltavam partes não apenas restauramos
mas também fizemos um trabalho de reconstituição
de algumas para criarmos uma unidade visual, envolvendo muita pesquisa
de material e de fotografias do Balé.
MB
- Atualmente, a orientação da Coordenação
no Instituto Feminino na Bahia está aos seus cuidados. Você
está pesquisando sobre a procedência de um xale que, ao
que tudo indica, parece ser um autêntico Poiret. Comente sobre
afantástica coleção do Instituto, destacada pela
sua qualidade, quantidade, variedade de peças e acessórios.
CN - Uma mulher baiana iniciou em
1923 uma experiência histórica de vanguarda, construindo
o que hoje pode ser considerado um dos maiores acervos que contribuem
para o resgate da história da Bahia do século 19. Para
concretizar seu sonho de criar um museu de arte feminina, Henriqueta
Martins Catharino investiu sozinha - de 1937 a 1939 - na construção
de um sóbrio e elegante solar no tradicional bairro do Politeama,
acondicionando em cinco andares, com mais de 5.000 m2 de área
construída, uma preciosa coleção histórica
de mais de 15.000 peças, que inclui um rico e vultuoso acervo
de trajes e acessórios femininos além de mobiliário,
porcelana, prataria, têxtil, pintura, escultura, imaginária,
arte sacra e arte popular. A Fundação Instituto Feminino
da Bahia é uma instituição privada, de utilidade
pública e sem fins lucrativos, que, desde a sua fundação,
vem garantindo a manutenção de seus acervos através
de recursos próprios. Aproximadamente 3.000 peças do acervo
do Museu Henriqueta Catharino está em exposição
permanente numa área de aproximadamente 2.000 m2 do edifício
sede da Fundação, entretanto, não há condições
adequadas para a exposição do acervo têxtil. Desde
março de 1997, ações no sentido de quantificar,
classificar e preservar de modo adequado este acervo têxtil foram
desenvolvidas e culminaram na elaboração do projeto do
Museu do Traje e do Têxtil, que prevê a adaptação
de um espaço no 30 andar do edifício sede, com uma área
aproximadamente 1.000 m2 , para que a coleção possa ser
exposta e melhor preservada. O projeto visa também a criação
de um laboratório de restauro de Têxteis, uma reserva técnica,
uma sala para pesquisas, documentação, loja, setor educativo
e centro de apoio a pesquisadores, tudo concebido dentro das mais modernas
técnicas museológicas. O museu também recebe doações
que tem sido intensas e não só da Bahia, já receberam
do Rio de Janeiro, atualmente a coleção do Museu do Traje
deve estar em torno de sete mil peças e podemos destacar roupas
de escravas, roupas de cama, mesa e banho, roupas femininas de passeio
e festa e acessórios, fantasias, roupas de dormir, roupa íntima,
sapatos e bolsas, roupas e acessórios de criança e bebê,
roupas de primeira comunhão, roupas
eclesiásticas. As responsáveis por este acervo são
Teresa Tourinho - presidente do IFB e Ana Lúcia Uchoa Peixoto
-vice- presidente e museóloga . O endereço : Rua Monsenhor
Flaviano 2 - Politeama- cep.40080-150 - Salvador - Bahia - Telefone:
0XX 71-329-5522/329-4198. O e-mail: ifbmuseu@terra.com.br

MB - No Brasil, quais as instituições
que formam profissionais na área de conservação
e restauração têxtil? Você ministra cursos
nesta área? Comente sobre os seus planos futuros.
CN - O Senai Cetiqt (Centro tecnológico
de Pesquisa Textil) no Rio de Janeiro, promoveu juntamente com a OEA
e o extinto Programa Nacional de Museus do IPHAN em 1986 um curso de
seis meses de duração, do qual participei. Houveram duas
outras iniciativas de cursos de curta duração dois meses),
nos anos seguintes. Apesar de possuir formação acâdemica
específica ainda não ministrei cursos, mas geralmente
treino todas as pessoas que trabalham comigo, inclusive alguns já
obtiveram bolsas de aperfeiçoamento para estudarem no exterior.
Tenho duas propostas de cursos de curta duração, um para
início em maio e o outro para o segundo semestre, mas não
são instituições ligadas à Universidade.
Gostaria muito de realizar um curso de Conservação e Restauração
de Têxteis na Universidade. Acredito que o ensino deve estar ligado
à Universidade, por ser um centro de pesquisa e poder oferecer
um universo mais abrangente ao aluno. Estou também dedicando-me
a publicação de trabalhos em revistas estrangeiras especializadas
em conservação e restauração, um deles é
a "Secagem da Múmia de Hori", peça que pertence
ao Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. Na época em que esta
foi molhada por uma tempestade de verão que inundou o museu,
foram enviadas cartas via fax para o Museu do Louvre, para o Victoria
and Albert Museum , e para o Museu do Cairo e a resposta era sempre
a mesma, que nunca haviam passado por uma situação como
esta e os técnicos não sabiam como proceder. Com o apoio
da White Martins, conseguimos realizar a secagem do Sacerdote Hori,
de maneira adequada e eficaz.
Diana
Galvão é estilista, pós-graduanda em
"Moda e Comunicação On-Line" pela UAM, figurinista
e consultora de estilo para negócios de moda.