Trio Elétrico
Vassourinha Elétrica (1980)
Viva Dodô & Osmar (1980)
Ligação (1978)
Pombo Correio (1977)
É a Massa (1976)
Jubileu de Prata (1975)
Moraes Carnaval Moreira
Ainda nos Novos Baianos, fiz minhas primeiras incursões pela música carnavalesca. A fonte de inspiração era os muitos carnavais, vividos no interior da Bahia. Pelas ondas do rádio chegava a trilha de cada ano: marchinhas, marchas rancho, frevo, sambas e todo tipo de música que pudesse animar a festa.
Os mestres do gênero como Braguinha, Lamartine, Zé Keti, entre outros, se tornaram para mim fortes referências. A qualidade e a não descartabilidade observadas nas obras dos mestres citados me serviram de parâmetro. Aprendi também com eles que não bastava ser um bom melodista e um bom letrista para compor para o carnaval. O poeta, o cronista, o crítico, o político, o humorista deveriam ser encarnados para que se revelasse o correto perfil deste artista que conhece como ninguém o gosto popular.
Em 75 resolvi botar meu bloco na rua. Iniciando carreira solo, grande parte da nova safra tinha como tema o carnaval. Logo no primeiro disco tive a felicidade de encontrar e contar com Armandinho, genial instrumentista, que já naquela altura era grande estrela do Trio Elétrico. Através dele comecei a frequentar a escola Dodô e Osmar, ou seja, a escola dos inventores do Trio e, porque não dizer do carnaval da Bahia. Capiba, Nelson Ferreira, Duda, Antônio Maria e outros grandes nomes do Frevo Pernambucano me foram reapresentados devidamente tri-eletrizados. Eles não deixaram por menos, nem mesmo os grandes clássicos escaparam. Carnavalizaram tudo com uma linguagem própria, traduzidas pelos instrumentos criados pela dupla: a partir de captadores colocados em sêpo maciço inventaram o Pau Elétrico. Um desses instrumentos, que também era chamado de cavaquinho elétrico, passou a ser guitarra baiana, título de uma canção instrumental composta por mim naquela época.
O nosso encontro rendeu bons frutos: gravamos o primeiro disco juntos, onde eu participava como compositor, cantor e produtor. A maioria do repertório era instrumental, apenas duas músicas cantadas, sendo uma delas, Jubileu de Prata, composta por Osmar que celebrava os 25 anos do Trio. Nas asas de "Pombo Correio", decolei para um mundo de sonho e fantasia decidido a "Balançar o Chão da Praça", da Praça Castro Alves, nascedouro do Carnaval Baiano.
A música cantada, que já ganhava maiores espaços nos discos subsequentes, também tomou seu lugar a bordo do Trio, apesar do limitado equipamento que dispúnhamos naquele momento. Foi assim, com muita coragem e ousadia, que me tornei o primeiro cantor de Trio Elétrico. Um novo balancê, o "Bloco do Prazer" e da alegria, tomavam conta das ruas, avenidas e praças de Salvador, transformando o seu carnaval, que contava também com a participação de outros Trios como, por exemplo, o Novos Baianos e Tapajós, que com sua Caetanave homenageou Caetano Veloso, autor de importantes frevos.
Carnaval é cultura, carnaval é cultura. Com esse mote na cabeça, procurava cada vez mais traduzir nas canções a alma do povo em catarse. Os afoxés e blocos afros já despontavam como grandes entidades, trazendo em seus toques, batuques, danças e fantasias toda a história e tradição ancestral. Como não poderia deixar de ser, procurei incorporar esses elementos à minha música, enriquecendo sobremaneira o seu lado rítmico, numa feliz mistura de culturas e raças. "Eu sou o carnaval" em cada esquina, cantava feliz, fazendo um samba de black, nesse tique nesse taque, nesse toque nesse pique. "Vassourinha Elétrica", uma alusão ao bloco pernambucano que ao passar pela Bahia inspirou Dodô e Osmar na criação do Trio Elétrico. Procurei nesse frevo juntar a brasa do metal à eletricidade da guitarra baiana. A cada nova experiência crescia o meu entusiasmo, acumulando assim uma série de músicas que ficavam de ano para ano. "Festa do Interior", uma canção notadamente junina, aconteceu no carnaval, se tornando obrigatória. "Chame Gente", da mesma forma, continua firme mostrando que o que é bom não tem idade.
Procurando sempre deixar a "Coisa Acesa", pude fazer várias homenagens não só aos criadores do Trio, mas cantei também o axé do Ghandi, a força do Olodum, a beleza do Ylê, ou seja, o carnaval do branco, do negro e do índio, este representado pela resistência dos Apaxes do Tororó. Dos anos 90 para cá outras canções como "Lua dos Amantes" e "Cidadão" têm marcado presença, apesar da elitização e da selvagem comercialização que tomou conta do carnaval. "Pernambuco é Brasil" e "Sinal de Vida" carimbam a minha passagem real pelo carnaval pernambucano. Cantando no Recife Antigo me sinto sintonizado com o que há de mais puro. É a raiz de uma árvore que sempre dá bons frutos. A tradução disto tudo feita pelo coração futurista de Chico Science não deixa dúvida. A saudade e o futuro trazem o presente.
Em 1997 lancei um disco comemorando os meus "50 Carnavais" bem vividos, a maioria deles em cima de palcos e trios elétricos. Como inveterado folião já estou me preparando para os 51 exatamente no momento em que Salvador comemora os seus 450 anos. Um single com quatro canções falando da cidade já está sendo preparado.
Quero aqui agradecer a preciosa colaboração dos parceiros, ao povo brasileiro e a todos aqueles que de alguma forma estiveram comigo nesta caminhada pelo carnaval do Brasil.
Moraes Moreira
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