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| RETROSPECTIVA SHOHEI IMAMURA |
Ele
tinha tudo para seguir uma carreira bem-comportada dentro das produtoras. Mais velho que
seus colegas do novo cinema japonês, Shohei Imamura ingressou na Shochiku já em 1951,
não com o propósito imediato de tornar-se diretor, mas com o desejo modesto de ser
assistente de Keisuke Kinoshita. Coube-lhe, porém, trabalhar com outros diretores, como
Masaki Kobayashi, Yuzo Kawashima, Yoshitaro Nomura e principalmente Yasujiro Ozu, com quem
colaborou em três filmes importantes: Também Fomos Felizes/Começo de Verão (Bakushu,
1951), O Sabor do Chá Verde sobre o Arroz (Ochazuke no aji, 1952) e Era uma Vez em
Tóquio (Tokyo monogatari, 1953).Sua transferência da Shochiku para a Nikkatsu, em 1954, se efetuou com naturalidade, junto com a de outros companheiros (como Seijun Suzuki e Yuzo Kawashima) que optaram pelos salários mais altos da companhia em nova fase. Mas é na Nikkatsu que sua tendência independente começa a se revelar. Depois de quatro anos como assistente e roteirista nas comédias de Kawashima, ele parte para a direção, lançando três filmes seguidos, em 1958: Desejo roubado(Nusumareta yokujo), Estação Nishiginza (Nishiginza eki mae) e Desejo não alcançado (Hateshinaki yokubo). Em Desejo Não Alcançado, embora os elementos ficcionais ainda sejam fortes e sigam, em geral, as regras de gênero (a comédia e a violência de estilo yakuza), já se sente uma crueza de tendência naturalista no tratamento dos personagens e das cenas, que fogem aos padrões tradicionais de representação do cinema japonês. Com Meu Irmão Nianchan (Nianchan, 1959), Imamura finalmente põe as cartas na mesa, indo filmar em locação um tema semi-documental sobre a discriminação de coreanos numa mina de carvão de Kyushu. A abordagem ingênua e a estética visivelmente atrelada ao neo-realismo italiano não impedem o desabrochar de uma original verve documental. Em quase todos os seus filmes a partir daí, Imamura tenta alcançar a realidade através da ficção. Para ele, não há teatro maior do que o representado pelos japoneses em sua vida diária. Assim, seu cinema se destina a trazer à tona a verdade escondida das relações humanas. Todos Porcos (Buta to gunkan, 1961), um complicado enredo envolvendo yakuza e militares americanos da ocupação, abole toda a ingenuidade de Meu irmão Nianchan e rompe com o paradigma da mulher-santa, desenvolvido por Ozu, Naruse e o cinema da Shochiku em geral. Em seu lugar, introduz dois conceitos fundamentais à obra de Imamura como um todo: os homens regidos por instintos básicos e animais (aqui, já indicados no título pela metáfora dos porcos); e a mulher que é vítima da brutalidade masculina e ao mesmo tempo detentora dos mistérios da natureza humana. Ao contrário do que pregava o cinema de seus antecessores, a mulher de Imamura não se resigna a uma posição inferior na sociedade, através de um louvável auto-sacrifício, mas vai à luta lançando mão das mesmas armas sujas com as quais se vê atacada. É entre os camponeses, os miseráveis, os gângsteres e as prostitutas que Imamura encontra terreno fértil. A Mulher Inseto (Nippon Konchuki, 1963), uma de suas obras-primas do período, conta a história de uma camponesa que, tal como um inseto, faz sua escalada da sobrevivência. Tendo atravessado, desde a adolescência, a violência sexual e o incesto, sua mudança para a cidade grande a conduz diretamente à prostituição e afinal ao controle de um bordel, onde passa a praticar toda sorte de atos vis, dos quais antes fora vítima. O tratamento do personagem como uma verdadeira heroína é absolutamente novo no até então moralista cinema japonês. E as tomadas de estilo documental, nas quais freqüentemente o personagem principal não passa de uma cabeça perdida na multidão das ruas da cidade, propõem exatamente o oposto das imagens de estúdio da Shochiku, sempre bem compostas e nítidas. Segredo de uma Esposa (Akai satsui, 1964), última produção do período Nikkatsu, leva adiante a inversão de valores, mostrando a "verdade" por trás da vida aparentemente pacata de uma dona-de-casa do interior: a grosseria de um marido infiel entremeada pelos ataques regulares de um estuprador, que se diz "apaixonado" por ela. A mulher vence a todos quando finalmente deixa de lado os sentimentos e adota um comportamento frio e autoritário. Intrudução à Antropologia (Jinruigaku Nyumon, 1966), adaptação do excelente romance Os Pornógrafos, de Akiyuki Nozaka, inaugura com brilho a fase independente de Imamura, que afinal chega ao ápice de seu "cinema-verdade" com A Evaporação do Homem (Ningen Johatsu, 1967). Estabelecendo pela primeira vez um verdadeiro intercâmbio com as novas técnicas narrativas estrangeiras, em particular o distanciamento de Brecht adotado pela nouvelle vague francesa, Imamura filma um autêntico documentário que no final se esclarece como pura ficção. A partir de um evento real, sua equipe de cinegrafistas acompanha uma mulher na procura do noivo desaparecido. São feitas inúmeras entrevistas, todas com personagens reais, até que durante uma delas, as paredes são desmontadas para revelar que tudo não passava de encenação de estúdio. Com este filme, Imamura revela um desejo de intervenção na realidade ou mesmo de colaboração em atos criminosos, que encontrará continuação, por exemplo, no mais recente O Exército Nu do Imperador, de Kazuo Hara e argumento original de Imamura, que acompanha um veterano de guerra em seus ataques ao imperador do Japão. Mesmo esses filmes independentes de Imamura podem ser vistos como os últimos suspiros do poderoso cinema das produtoras. Depois deles, seu cinema, embora com alguns momentos altos, deixará a contundência de lado em favor de um certo folclorismo - que, curiosamente, pela primeira vez lhe trará reconhecimento internacional e mesmo uma Palma de Ouro em Cannes, com A Balada de Narayama (Narayama bushiko, 1983). Mas foi o período em torno da nouvelle vague que conseguiu elevar Imamura a um dos grandes cineastas do Japão e do cinema mundial. Lúcia Nagib (Texto extraído do livro Em torno da nouvelle vague japonesa, de Lúcia Nagib.
Campinas, Editora da Unicamp, 1993) Outros filmes da Retrospectiva Shohei Imamura: |