RETROSPECTIVA SEIJUN SUZUKI

O CINE-AUDÁCIA DE SEIJUN SUZUKI

     Um pensador radical, debochado, cheio de ironia e magia, de coração sempre adolescente. Assim é o mestre Seijun Suzuki, um cineasta que busca, ao longo de uma tumultuada carreira, fórmulas para romper com linhas narrativas convencionais. Suzuki é um dos exponentes da Nouvelle Vague japonesa, uma corrente anos 60 contagiada pela onda original francesa de Godard, Truffaut e adjacentes.

     Na sua essência, o que corajosos cineastas como Suzuki e Oshima faziam era buscar saídas para o opressivo conceito japonês de fazer cinema para os grandes estúdios, que insistia em tratar seus cineastas contratados como meros empregados, não como autores. Seijun Suzuki, em especial, era ardiloso no seu processo de realização. Subvertia a narrativa de seus filmes de ação e erotismo sem fugir da linha mestra imposta pela burocracia dos estúdios. Comparável ao que Carlos Reichenbach e outros cineastas de São Paulo do movimento Boca do Lixo faziam nos anos 70: filmes com mensagens filosóficas e políticas em produções populares, com temática erótica. Como conseqüência, uma arrastada briga com os produtores que diziam não entender os seus filmes.

     Herético, sacro e profano, onírico, devasso, sarcástico, sobretudo transgressivo, o cinema ousado de Suzuki rompe convenções e reserva sempre surpresas, especialmente agora, para os espectadores distanciados pelo tempo em que cada um de seus filmes foi realizado. A 23ª Mostra, com a colaboração da Fundação Japão, a vibração de Carlos Reichenbach e a imprescindível assistência de Lúcia Nagib, tem o privilégio de apresentar a retrospectiva da polêmica obra de Seijun Suzuki. Veremos em seus filmes uma vigorosa demolição de símbolos e valores, ruptura de convenções, um cinema ousado que se revela moderno mesmo quando se vale das tradições e do cerimonial para criticar o seu Japão rendido aos modismos do ocidente.  (Leon Cakoff)

 
 
 
   

   SEIJUN SUZUKI

     
    Nasceu em Tóquio, em 1923. Recrutado pelo exército imperial em 1943, partiu para Taiwan e as Filipinas. De volta ao Japão em 1946, freqüentou um curso de cinema em Kamakura. Mas a opção pela profissão de cineasta se deu quase por acaso, depois que foi reprovado no exame vestibular para a universidade. Em 1948, foi contratado pela Shochiku como assistente de direção, trabalhando de início com Minoru Shibuya e a seguir com Tsuruo Iwama.

     Em 1954, mudou-se para a produtora Nikkatsu, ainda como assistente. Em 1956, tornou-se finalmente diretor, a princípio sob o pseudônimo de Seitaro Suzuki. Durante onze anos filmou exclusivamente para a Nikkatsu, que o considerava um bom diretor 'comercial', até tornar-se um ídolo dos estudantes e intelectuais, com seu estilo pessoal, que cultivava o absurdo e o humor negro, e suas paródias do gênero yakuza. Em 1967, seu filme A Marca do Assassino provocou um escândalo na Nikkatsu, e Suzuki foi considerado 'incompreensível' para o público. Ao ser despedido da empresa, moveu contra ela um processo que se estendeu até 1976, valendo-lhe a vitória, mas também quase dez anos sem poder filmar. Nesse período, trabalhou na televisão e escreveu livros, enquanto tentava em vão conseguir financiamento para seus filmes em outras produtoras. A volta ao cinema se deu com História de Melancolia e Tristeza, em 1977, mas foi Zigeunerweisen, de 1980, que inaugurou a sofisticação plástica que caracteriza sua obra atual.

(do livro Em Torno da Nouvelle Vague Japonesa, Editoria Unicamp, de Lúcia Nagib).